X-9 banha a avenida com um oceano de amor pela escola
Por Rodrigo Cirilo em 08/02/2026 às 04:21
Assim como no título do ano passado, a chuva voltou a apertar na hora do desfile da X-9 e passou logo depois. Mas se em 2025 ela serviu para “lavar a alma”, desta vez banhou a Passarela do Samba Dráuzio da Cruz de amor pela escola. Na madrugada deste domingo (8), a agremiação levou ao Santos Carnaval 2026 um desfile de forte impacto visual e simbólico com o enredo Eu vim aqui para te mostrar que o mar está em todo o lugar.

Escola de samba mais antiga da Baixada Santista em atividade, a X-9, octogenária, transformou sua relação cotidiana com o litoral em um chamado sensível à consciência ambiental. Sediada no bairro do Macuco, na cidade que abriga o maior porto da América Latina, a Pioneira levou para a avenida o pulsar diário do mar, das marés, do trabalho portuário e da cultura costeira. A proposta foi clara mostrar que o oceano vai além da paisagem e está presente na espiritualidade e no futuro da humanidade.

Logo na abertura, a escola mergulhou o público em um universo marinho sagrado. Após a comissão de frente, com a presença de Netuno, a primeira alegoria, “Joia da Mãe Natureza”, apresentou o fundo do mar como espaço de sabedoria e vida. No centro do carro, Iemanjá surgiu sentada em uma concha, simbolizando a origem da vida e o papel do mar como guardião do equilíbrio ambiental. A pérola que envolvia o símbolo da escola reforçou a ideia da X-9 como um tesouro cultural que nasce da relação profunda com sua comunidade.
Entre os destaques emocionais do desfile esteve Maria Aparecida Silva, a Dona Cida, neta de Guiomar Lima Ramos, a Tia Inês, e de Eugênio Pedro Ramos, o Cabo Roque — casal que acolheu a escola em casa nos primeiros anos, quando a X-9 ainda dava seus passos iniciais. Dona Cida desfilou à frente da agremiação pelo segundo ano consecutivo. Em 2025, sua presença no início teve caráter excepcional, marcada pela despedida da irmã, Sandra Maria Silva Barreto, a Sandrinha da X-9, figura histórica da escola, falecida poucos dias antes do carnaval.

Sob nova chuva, Dona Cida voltou a sorrir e a brincar com o destino. “Eu sou pé-quente, e a chuva também é pé-quente, porque nos deixa mais feroz”, disse. Em tom de fé, completou. “Se Deus quiser, Iemanjá vem com a chuva, com as águas dela, e traz a nossa vitória”.
O desfile seguiu explorando o fascínio e os mistérios do oceano ao som da bateria de marinheiros Magia Xisnoveana, comandada pelo mestre Gugu, com brilho da rainha Francine Carvalho. A segunda alegoria trouxe a figura imponente de um polvo gigante, representando os segredos das profundezas e a complexidade dos oceanos. O cenário azul, repleto de cores e formas orgânicas, convidou o público ao encantamento, mas também à reflexão sobre a responsabilidade de preservar aquilo que fascina.

O segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira, os irmãos Brenda e Arthur Gomes, destacou que a experiência sob chuva foi mais tranquila neste ano. “Deve ser bênção, mas conseguimos mostrar tudo o que ensaiamos o ano inteiro, com muita garra”, afirmou Brenda. Arthur completou dizendo que a escola já estava preparada para o imprevisto. “A gente esperava sem chuva, mas ensaiamos nessas condições no ensaio técnico. O trabalho foi montado pensando nisso, então não fez tanta diferença”.
Um dos momentos mais impactantes veio com a alegoria da Sustentabilidade, construída com materiais recicláveis recolhidos na própria quadra da escola, como garrafas PET, plásticos e lacres de latinhas. Com uma tartaruga articulada em destaque, o carro ressignificou os resíduos que ameaçam os oceanos.

As alas aprofundaram a narrativa ao percorrer diferentes camadas do mar e da relação humana com ele. Criaturas abissais, peixes guardiões, cavalos-marinhos, algas e golfinhos dividiram espaço com pescadores, marinheiros e manifestações de fé ligadas a Iemanjá. A ala dos golfinhos, inserida no projeto de inclusão da escola, destacou o papel terapêutico e acolhedor desses animais.
A X-9 também não evitou os temas mais duros. A poluição, a pesca predatória e o impacto do lixo nos oceanos ganharam forma nas alas “Monstro da Poluição”, “Detritos ao Mar” e “Piratas”, denunciando práticas humanas que ameaçam a vida marinha e desequilibram os ecossistemas.
A Velha Guarda surgiu como símbolo da sabedoria acumulada ao longo do tempo, traçando um paralelo entre o conhecimento ancestral e os ensinamentos do mar.

No encerramento, flores para Iemanjá, passistas e alas coreografadas desenharam na avenida a imagem de um futuro possível, limpo e azul. Exaustos e emocionados ao fim do desfile, muitos componentes resumiam o sentimento coletivo. A diretora de bateria Cristina Silva, única mulher na diretoria da Magia Xisnoveana sintetizou em poucas palavras: “Isso é ser X-9”.
Maré de fé e tradição
A X-9 encerrou o desfile de 1.370 componentes, distribuídos em 17 alas e três alegorias, em 53 minutos. Mesmo sob chuva, a Pioneira contou com o apoio intenso da arquibancada, que acompanhou a escola protegida por capas e guarda-chuvas, mas sem economizar na vibração.
Maior campeã do carnaval santista, com 20 títulos oficiais e sete no período pré-oficial, a X-9 é reconhecida como patrimônio cultural imaterial de Santos. A última conquista veio sob a bênção de Nossa Senhora Aparecida. Em 2026, a escola busca o bicampeonato amparada na fé em Iemanjá.
O Carnaval 2026, com transmissão multiplataforma do Sistema Santa Cecília de Comunicação, tem o patrocínio do Grupo Yamam, Pedra Baiana (Aparecida) e Sabesp. O apoio da Piso Lessa e Praiamar Shopping.