Chuva atrapalha, mas não apaga calor do arraial da Imperatriz Alvinegra no Santos Carnaval
Por Rodrigo Cirilo em 07/02/2026 às 21:55
Desfilando sob chuva, a Imperatriz Alvinegra transformou a Passarela do Samba Dráuzio da Cruz em um grande arraial nordestino na abertura das apresentações da noite deste sábado (7), durante o Santos Carnaval 2026. Com o enredo No Puro Sangue do Maior São João, a Imperatriz Vem Balançar o Sertão , a escola vicentina levou para a avenida uma celebração vibrante, reunindo cerca de 700 componentes em sintonia com a temática escolhida.
A viagem pelo universo junino começou com a comissão de frente, inspirada na literatura de cordel. Em cena, os três santos juninos Santo Antônio, São João Batista e São Pedro surgiram como xilogravuras vivas, abrindo simbolicamente um folheto de cordel que conduziu toda a narrativa do desfile.

Apesar do impacto visual, a apresentação da comissão enfrentou dificuldades provocadas pela chuva e por problemas nos figurinos. O coreógrafo Lennon Raphael, da Companhia The Best e especialista em quadrilhas juninas, explicou os desafios encontrados na avenida.
“A chuva sempre dobra a dificuldade. O chão escorrega, a fantasia pesa e tudo fica mais complicado. A gente ensaia num nível de dificuldade dez; com chuva, isso vai para trinta, quarenta”, afirmou.

Segundo ele, falhas na entrega dos figurinos exigiram improviso em plena avenida. “Tivemos com as sapatilhas. Alguns componentes desfilaram de meia. Isso foge da nossa parte, mas coreograficamente a comissão foi linda e foi realizada. Sabemos que podem vir despontuações, mas o que importa é a superação. Temos que fazer acontecer”.
Arraial da Imperatriz Alvinegra
O carro abre-alas apresentou um cenário marcado pela seca e pela fé. Em meio à terra castigada e aos animais tombados pela estiagem, surgiam os santos protetores do povo nordestino. Labaredas de fogo simbolizavam o pecado original no destaque central, contrapostas pela devoção que mantém viva a esperança mesmo nos momentos de dor.

Se a alegoria traduziu em imagens a resistência de quem segue acreditando, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira representou a própria religiosidade nordestina, exaltando a fé que move milhões de devotos. Os três santos juninos, aliás, ganharam alas próprias ao longo do desfile.
A narrativa avançou para os costumes da festa, com destaque para a culinária típica, como o milho, símbolo central do São João. A ala das baianas representou a chuva de bênçãos que rompe a seca do sertão. Como manda a tradição, não faltaram fogueira, forró, xote, baião e xaxado, elementos reforçados pela bateria Puro Sangue vestida de cangaceiros, sob o comando do mestre Denis Santos.

Alas dedicadas ao bumba meu boi e às quadrilhas juninas levaram ainda mais dança e alegria à avenida, remetendo às competições e apresentações que movimentam os festejos juninos em todo o país.
Na parte final, o destaque “Noites de São João” anunciou o céu estrelado que ilumina as festividades, preparando o público para o segundo carro alegórico, “Rainhas do São João”.
Representando São Vicente, considerada a capital das quadrilhas, a alegoria trouxe rainhas, noivas e destaques das festas, conduzidos pelo símbolo da escola, uma égua alada.
Os componentes encerraram o desfile animados, cantando a plenos pulmões. Muller de Lima, 36 anos, resumiu a emoção de atravessar a avenida sob chuva. “É inexplicável. Quando a gente chega no final e sabe que deu tudo certo, não tem como explicar. É ótimo, é top”, disse.
Segundo ele, o fôlego para seguir até o fim vem da entrega total à escola em que desfila há dois anos. “A gente vem com o coração e com a alma. Se entrega ao máximo e vai até o final”.

Voos maiores?
Simbolizada pela égua alada, a Imperatriz Alvinegra mostrou que deseja voos maiores. Fundada em 2003, a escola busca um lugar entre as duas melhores do Grupo de Acesso para, pela primeira vez, disputar o Grupo Especial.
Mesmo sem a cooperação de São Pedro, o desfile contou com dez alas, duas alegorias e um tripé, sendo encerrado em 44 minutos, dentro do tempo regulamentar.
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