Cratera reaberta há quase um mês mantém via interditada e expõe drama de moradores em São Vicente
Por Santa Portal em 27/02/2026 às 05:00
A cratera que voltou a se abrir em 5 de fevereiro na Rua Pero Lopes de Souza, esquina com a Avenida Marechal Deodoro, no bairro Vila Valença, em São Vicente, no litoral de São Paulo, tem aproximadamente oito metros de comprimento por quatro metros de largura. O buraco engoliu parte do asfalto e da calçada em frente ao Edifício Solaris, atingindo a faixa da linha amarela da via. A situação também aconteceu em abril do ano passado, após fortes chuvas.
A área permanece interditada e é monitorada pela Defesa Civil. Passados 22 dias, o cenário continua praticamente o mesmo, à espera de condições climáticas seguras para intervenção. Morador do prédio há oito anos, Cezar Augusto Matiussi afirma que o problema começou no subsolo e nunca foi definitivamente resolvido. Segundo ele, os condôminos estão há seis anos sem poder utilizar as garagens.
“Existe uma discussão na Justiça. Nós já ganhamos em todas as esferas judiciais. Existe uma obrigação de fazer da construtora Tucson, de corrigir os problemas construtivos que teve no subsolo”, afirma o comerciante.

Ele relata que o edifício tem 17 andares e que, sempre que há risco estrutural, os elevadores precisam ser desativados por segurança. “Quando isso acontece, a gente tem que desabilitar os elevadores. Então você imagina um idoso, um doente que mora num andar alto… como é que ele faz pra ir ao médico? Como é que ele faz pra sair de casa? Imagina subir 10, 15 andares de escada. É uma situação dramática, extremamente lamentável. É uma penúria, é um pesadelo”.
O morador também critica medidas paliativas adotadas anteriormente. “O que a prefeitura diz é que está enxugando gelo. Mas que se enxugue gelo, que se tampe o buraco quantas vezes for necessário. O pior é manter como está. Colocaram um plástico aqui que funcionou como um funil, direcionando a água exatamente para o nosso subsolo. Isso é um absurdo”.
Prefeitura aponta obra irregular no subsolo
A Prefeitura de São Vicente atribui a responsabilidade à construtora do prédio. Em comunicado entregue aos moradores, o município afirma que a cratera é consequência direta de uma obra irregular realizada no subsolo do edifício.
Segundo o secretário de Licenciamento, Gabriel Birkett, o problema está ligado ao sistema de drenagem. “Todo subsolo tem um sistema de drenagem para tirar a água que brota do chão. Ali sempre existia uma ineficiência nesse processo. E quando a construtora faz uma obra irregular, ela tira todo o piso do subsolo, que é um sistema absolutamente fundamental para que isso funcione”.
Na ocasião, houve a demolição integral da laje do piso sem o devido licenciamento, sem a apresentação de um responsável técnico e sem o acompanhamento do Poder Público. De acordo com Bitkett, sem a laje, o subsolo ficou exposto e águas pluviais e do lençol freático passaram a infiltrar sem controle.
“Hoje o subsolo está na terra. A água empurra essa terra com pressão e puxa o solo do entorno do prédio. A terra do lado de fora vai para dentro do subsolo, e não tem nada que impeça isso. Quando chove, a cratera abre infelizmente”.
O secretário afirma que há decisão judicial determinando que a construtora refaça as obras no subsolo para corrigir o problema estrutural. “Existe uma ordem judicial condenando a construtora a refazer as obras do subsolo para evitar que isso continue acontecendo. Mas, infelizmente, até o momento, a empresa não atendeu”.
Processo parado há quase cinco meses
Para rebater críticas sobre demora na solução definitiva, a Prefeitura detalhou a tramitação do processo administrativo que trata da regularização das obras no subsolo do edifício.
- 19/04/2025: Registro do incidente de 2025;
- 12/08/2025: Somente quatro meses após o ocorrido, a construtora deu entrada no pedido de alvará para regularização;
- 13/08/2025: Apenas um dia após o pedido, a Prefeitura emitiu comunique-se solicitando 15 correções urgentes devido a inconsistências graves na documentação;
- 28/08/2025: A construtora apresenta novos documentos;
- 29/08/2025: Novamente, com máxima agilidade, a Prefeitura analisa e aponta que persistem erros graves de compatibilidade nos documentos, solicitando novas correções;
- 30/09/2025: Um mês depois, a construtora protocola nova documentação;
- 03/10/2025: A Prefeitura solicita, pela terceira vez, a documentação correta
De acordo com a administração municipal, desde 3 de outubro o processo está paralisado, aguardando exclusivamente manifestação da construtora. A Prefeitura afirma estar pronta para expedir o alvará, mas sustenta que a ausência de documentação técnica válida impede a continuidade legal das obras definitivas.
Intervenção depende de estiagem
A Prefeitura se comprometeu a fechar novamente a cratera, mas informou que a medida depende da estabilidade do solo.
“Nesse momento, não pode ser feito por questão de segurança. Estamos tendo chuvas elevadíssimas, o solo está muito instável e não temos segurança para levar máquina ou colocar pessoas para trabalhar ali. Assim que tivermos alguns dias de estiagem e o solo estiver estável, vamos mais uma vez fechar a cratera para reduzir o impacto aos moradores e à população”.
A administração ressalta, no entanto, que enquanto o problema estrutural no subsolo não for resolvido, novas aberturas podem ocorrer. A reportagem entrou em contato com a construtora Tucson, mas não obteve retorno até o fechamento dessa matéria. O espaço segue aberto.