Otan tenta mudar foco dos EUA da Groenlândia para Ucrânia
Por Igor Gielow/Folhapress em 21/01/2026 às 11:23
Horas antes de Donald Trump discursar no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça) nesta quarta-feira (21), o chefe da Otan buscou baixar a tensão entre o presidente e a Europa em um debate no mesmo evento.
Propôs que a crise em torno da Groenlândia seja resolvida com “diplomacia ponderada” e que o foco da aliança militar não é a ilha desejada pelo americano, mas a Guerra da Ucrânia.
“A questão principal não é a Groenlândia. Agora, a questão principal é a Ucrânia. Estou um pouco preocupado que nós baixemos a guarda focando tanto outros assuntos”, afirmou o holandês Mark Rutte, um especialista em Trump conhecido por apaziguar e adular o presidente na mesma medida.
“Eu estou realmente preocupado de que nós percamos de vista [a guerra] no momento em que a Ucrânia não tem mísseis de interceptação suficientes para se defender”, completou.
Rutte abordou diplomaticamente a tensão elevada desde que Trump elegeu a tomada da ilha ártica pertencente à Dinamarca como uma prioridade. O território tem grande valor estratégico, mas os Estados Unidos já estão bem posicionados lá, sendo a força militar dominante no local.
Ele afirmou que o americano está certo ao dizer que é preciso defender a ilha de influências russa e chinesa, mas ressaltou que esta é a posição da Europa também, e que a Otan é o instrumento para tal.
Na véspera, o republicano havia colocado novamente em dúvida a utilidade da aliança fundada pelos EUA em 1949, dizendo que ela estaria no lixo da história sem ele. Ele também afirmou que não sabia se os 31 parceiros de Washington no clube, 30 europeus mais o Canadá, iriam a seu socorro numa crise.
“Eu digo a ele que sim, como fizemos no 11 de setembro de 2001, quando pela primeira e única vez o Artigo 5 foi disparado”, afirmou Rutte, em referência ao ataque terrorista a Nova York e Washington e ao dispositivo de defesa mútua da aliança.
Durante os 20 anos de ocupação americana do Afeganistão, na guerra decorrente do atentado, países da Otan contribuíram para a força liderada pelos EUA no país asiático.
Se Rutte buscou contemporizar a questão groenlandesa, o secretário americano Scott Bessent (Tesouro) manteve o fogo alto sob o caldeirão da crise. Antecipando o que pode ser a fala do chefe nesta quarta, ele disse numa mesa de debate em Davos que a Dinamarca é irrelevante.
Ele comentava a ameaça de uma retaliação comercial do país nórdico à imposição de sobretaxas de importação de 10% a ele e a outras sete nações europeias que o apoiam na crise, feita por Trump no sábado (17).
“O tamanho do investimento da Dinamarca em títulos do Tesouro dos EUA, como a Dinamarca em si, é irrelevante. É menos de US$ 100 milhões (R$ 540 milhões). Eles vêm vendendo títulos há anos, não estou nada preocupado”, afirmou.
O clima segue, portanto, tenso. Um bom termômetro foi outra declaração na cidadezinha suíça, feita por um líder considerado próximo de Trump, o presidente finlandês Alexander Stubb. “Há momentos em que as bolas estão voando em direções diferentes. Nós tentamos pegá-las e tentamos resolvê-las”, afirmou.
Na terça (20), Trump havia bagunçado ainda mais o ambiente ao criticar o Reino Unido por devolver um arquipélago estratégico no Índico às Ilhas Maurício, fazendo uma analogia sobre a necessidade de controlar a Groenlândia, e expondo mensagens do presidente francês, Emmanuel Macron, sobre a crise.
Macron, que estava em Davos, disse que preferia “o respeito a valentões”, mas não caiu no jogo retórico de Trump. Já Londres afirma que manterá o acordo no Índico, até porque a importante base de Diego Garcia, no arquipélago de Chagos, seguirá sendo operada por britânicos e americanos.
Enquanto isso, na ilha em si, o governo local pediu que os 57 mil habitantes estocassem comida para cinco dias, dizendo que não pode desconsiderar o risco de uma invasão americana, por improvável que seja.
Há também uma movimentação militar no local, com forças dinamarquesas e europeias da Otan se reunindo para um exercício de defesa da ilha. Ao mesmo tempo, os EUA anunciaram que enviarão caças para treinamento em sua base por lá, algo que classificaram como rotineiro e combinado com Copenhague, mas que levantou sobrancelhas na Europa.
Se ainda não retomou protagonismo como gostaria Rutte e o presidente Volodimir Zelenski, a Guerra da Ucrânia ao menos voltou ao noticiário saído de Davos nesta quarta.
O enviado americano para o conflito, Steve Witkoff, passou dois dias conversando com uma delegação ucraniana e com o negociador russo Kirill Dmitriev, com quem havia desenhado um plano de paz pró-Kremlin que agora foi modificado.
Ele afirmou à rede CNBC que teve “conversas positivas” e que irá se reunir com o presidente Vladimir Putin em Moscou na quinta (21). Não se sabe ainda qual versão do plano de Trump para o fim da guerra será debatida no encontro, que poderá ter a presença do genro do presidente Jared Kushner, uma espécie de embaixador informal dos interesses pessoais do padrasto.