A história do lendário Bar do Torto e a luta dos condomínios inclinados em Santos
Por Lara Flores em 31/05/2026 às 12:00
Os prédios inclinados da orla de Santos são muito mais do que um fenômeno da engenharia civil, eles fazem parte da identidade cultural da cidade. Foi justamente na icônica curvatura de um desses edifícios que nasceu o Bar do Torto, um espaço que marcou época com uma vocação cristalina: ser um ponto de encontro livre de preconceitos, regado a música instrumental de alta qualidade e MPB.
Concebido no dia 23 de agosto de 1984 pelos músicos Julinho Bittencourt e Roberto Biela, o bar teve como primeiro sócio-administrador Alfredo Rosato. Em 1990, o empresário Michel Pereira entrou para a sociedade, permanecendo na gestão até o último dia de funcionamento da casa. O Torto abriu suas portas com uma exposição do renomado fotógrafo Araquém Alcântara e uma proposta inovadora: dois palcos simultâneos, um dedicado ao som instrumental e outro à música popular brasileira.
Ao longo de seus 33 anos de história na esquina do Canal 4 com a praia, o palco do Torto recebeu lendas como Jorge Mautner, Nelson Jacobina e Claudio Zoli. Mas o bar também foi o berço da cena local, como a banda Harry. Foi ali também, de forma despretensiosa, que os jovens do Charlie Brown Jr. deram os seus primeiros passos na música, antes de conquistarem o Brasil.
“Fique torto, você tem direito“
A atmosfera do local era definida pela intimidade. A proximidade física entre o artista e o público criava uma energia única e um forte sentimento de pertencimento. O bar moldou o gosto musical de gerações e foi cenário para o início de inúmeras histórias de amor que viraram famílias.
O fato de o edifício ser inclinado, longe de ser uma limitação, tornou-se a identidade visual e o principal ativo de marketing do negócio. Michel Pereira, que além de sócio foi morador do prédio, relembra com carinho dessa relação peculiar:
“Carrego comigo muitas boas lembranças desse período. O fato de o prédio ser ‘torto’ nunca me incomodou. Pelo contrário, sempre foi motivo de curiosidade e gerava muita mídia espontânea para o bar”, conta Michel.
O famoso slogan “Fique torto, você tem direito” traduzia o espírito leve com que o espaço abraçava a sua própria singularidade.
O bar encerrou suas atividades no dia 17 de setembro de 2017 por conta de um impasse imobiliário. O proprietário do imóvel acionou o mecanismo jurídico da denúncia vazia, que permite a retomada do bem ao término do contrato de locação sem a necessidade de justificativa, inviabilizando a continuidade do comércio.
Pouco tempo depois, o setor de eventos foi atingido pela pandemia. Olhando para trás, Michel enxerga o fechamento sob uma nova perspectiva. “Muitas vezes surge a reflexão sobre como teria sido atravessar quase dois anos de pandemia sem faturamento. Hoje, com o distanciamento do tempo, é possível enxergar um lado positivo naquele desfecho. Ainda assim, na época, foi um golpe muito duro. A melhor memória não está em um único momento, mas na soma dos encontros e na sensação de que algo importante estava sendo vivido ali.”
Realidade dos moradores
Se para a boemia a inclinação dos prédios trazia charme, para os moradores e proprietários a realidade exige atenção constante. O solo da orla de Santos é considerado o segundo pior do mundo para construções, atrás apenas do solo da Cidade México, devido a uma espessa camada de argila marinha mole. Na metade do século 20, dezenas de edifícios foram erguidos sobre sapatas (fundações rasas), o que causou o adensamento do solo e o consequente recalque diferencial (a famosa inclinação).
Para unir forças e buscar soluções estruturais e econômicas junto ao poder público, os síndicos profissionais Fernando Borelli e Eliana de Mello fundaram a Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (Acopi). Atualmente, o município conta com 65 edifícios catalogados pela Prefeitura no Pisa (Programa de Prédios Inclinados de Santos), dos quais 37 já são associados à Acopi.
Engenharia civil e o desafio do financiamento
A correção desses gigantes de concreto é totalmente viável do ponto de vista da engenharia moderna. O principal espelho de sucesso na cidade é o Condomínio Bloco A do Edifício Núncio Malzoni, construído em 1967.
Entre os anos de 1995 e 2000, o prédio passou por uma reestruturação pioneira mundialmente. Na época, o prédio apresentava uma inclinação crítica de 2,2 metros em relação ao seu eixo vertical (o equivalente a metade da inclinação da Torre de Pisa, na Itália). A obra utilizou macacos hidráulicos e a cravação de estacas profundas até a rocha firme para realinhar o prédio. Na ocasião, como os moradores não haviam se preparado financeiramente, os proprietários precisaram arcar com os altos custos de forma imediata por meio de cotas extras severas.
Para evitar que outros condomínios sofram o mesmo impacto financeiro abrupto, a Acopi foca os seus esforços na engenharia financeira. A associação estuda mecanismos jurídicos e econômicos para que a Prefeitura de Santos atue como garantidora ou intermediária de linhas de crédito de longo prazo, tornando as obras viáveis para os moradores.
No próximo dia 11, será realizada uma assembleia decisiva na Associação dos Engenheiros de Santos. A reunião debaterá os aspectos jurídicos e as linhas de financiamento que estão sendo pleiteadas junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em parceria com o governo municipal. Os edifícios já associados à Acopi terão prioridade no mapeamento dos recursos.
“A engenharia financeira é complexa, mas estamos muito otimistas. Vai demorar, mas o projeto vai sair”, conclui a síndica e cofundadora Eliana de Mello.