Preços do gás na Europa sobem após Putin sugerir corte no fornecimento
Por Folhapress em 05/03/2026 às 15:41
Os preços de referência do gás no atacado na Holanda e no Reino Unido sobem na manhã desta quinta-feira (5), depois que o presidente Vladimir Putin alertou que a Rússia poderia interromper seus fluxos remanescentes de gás para a Europa.
A declaração aumentou as preocupações de abastecimento do continente após a QatarEnergy anunciar força maior em embarques de GNL (gás natural liquefeito). A força maior é um dispositivo que isenta a empresa de responsabilidades por falhas no fornecimento.
O contrato holandês de primeiro mês, preço de referência para a Europa, subiu 2% para 49 euros por megawatt-hora às 09h28, após ter avançado 8,3% para 52,80 euros/MWh mais cedo na sessão.
O contrato britânico de abril, que subiu 7,2% mais cedo na sessão, era negociado em alta de 2,1% a 129,5 libras, segundo dados da ICE.
Questionado pela televisão estatal russa sobre os planos europeus de proibir às importações de gás russo por gasoduto até o final de 2027 e de banir novos contratos de GNL russo a partir do final de abril de 2026, Putin disse que pode ser mais vantajoso para a Rússia parar de vender o gás agora mesmo.
Putin disse, de acordo com uma transcrição divulgada pelo Kremlin, que com outros mercados se abrindo “talvez seja mais lucrativo parar de fornecer ao mercado europeu agora mesmo”.
Segundo o vice-primeiro-ministro Alexander Novak, o governo russo se reunirá em breve para discutir a interrupção das exportações de gás para a Europa.
“Nos reuniremos em breve, conforme instruído pelo presidente, para discutir a situação atual com as empresas de energia e possíveis rotas de transporte para nossos suprimentos energéticos”, disse Novak, que é o homem de confiança de Putin para questões energéticas, a repórteres nesta quinta.
A Rússia costumava fornecer cerca de 40% do gás por gasoduto da UE (União Europeia). No ano passado, forneceu apenas 6%, segundo dados da Comissão Europeia.
“A ameaça de Putin coloca em risco uma quantidade considerável de fornecimento… Os fluxos de GNL são o principal problema. Em tempos normais, seria mais administrável um ajuste nos fluxos comerciais do mercado de GNL. No entanto, com 110 de bilhões de metros cúbicos (bcm) por ano de (GNL do) Golfo paralisados, isso seria um desafio para a Europa”, disseram analistas do ING em nota matinal.
“A escassez no mercado global de GNL significa que compradores asiáticos estão buscando fornecimento alternativo”, afirmaram os analistas do ING.
A tarefa da Europa de reabastecer os estoques de gás para o próximo inverno, entre dezembro e março, ficou mais cara, já que as consequências da guerra dos EUA e Israel contra o Irã perturbam a produção e os embarques de GNL, restringindo a oferta e fazendo os preços dispararem. Os preços do gás na Europa subiram 53% desde o início das hostilidades no sábado.
Compradores na Europa precisam encontrar o equivalente a cerca de 700 cargas de GNL, ou 67 bcm, para encher os estoques neste verão, segundo analistas da Kpler, o que representa cerca de 180 cargas, ou 17 bcm, a mais do que no ano passado.
Os Estados Unidos, maior produtor mundial de GNL, têm pouca capacidade ociosa para aumentar rapidamente a produção de GNL e compensar o fornecimento perdido, segundo cálculos da Reuters e analistas do setor, já que as plantas já operam próximas da capacidade máxima, e a maioria das cargas está comprometida em contratos de longo prazo.
Preços do carvão disparam com empresas buscando alternativa ao gás
Os preços do carvão dispararam para o maior patamar em mais de dois anos, à medida que a alta dos preços do gás provocada pela guerra no Irã leva empresas de energia a buscar suprimentos adicionais de carvão para manter as luzes acesas.
Na Europa, os preços do carvão térmico usado em usinas de energia subiram 26% desde a véspera da guerra, atingindo US$ 133 por tonelada, com ganhos semelhantes nos mercados australiano e asiático, segundo dados de preços da Argus.
Os preços europeus do carvão térmico usado em usinas de energia subiram 26% desde a véspera da guerra, atingindo US$ 133 por tonelada, com ganhos semelhantes nos mercados australiano e asiático, segundo dados de preços da Argus.
“Sem dúvida, os mercados globais de carvão não viam uma pressão de preços assim desde a invasão russa da Ucrânia”, disse Tom Price, analista da Panmure Liberum. “É o maior choque no mercado de carvão em vários anos.”
Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, os países europeus queimaram mais carvão enquanto trabalhavam para se livrar do gás russo. Os preços do carvão atingiram recordes de mais de US$ 400 por tonelada após a invasão.
Embora a guerra no Irã tenha pouco impacto direto no movimento de carvão pelo mundo -muito pouco dele passa pelo estreito de Hormuz-, ela fez os preços do petróleo e do gás dispararem e levantou preocupações sobre o fornecimento de gás natural liquefeito.
Isso levou empresas de energia que normalmente dependem do gás a recorrer a usinas a carvão mais poluentes como alternativa, particularmente em lugares como Japão, Coreia do Sul, Taiwan e União Europeia.
Um conflito prolongado no Oriente Médio poderia elevar os preços do carvão para quase o dobro dos níveis atuais, para cerca de US$ 250 por tonelada, especialmente se a crise energética reativar usinas termelétricas a carvão desativadas, disse Alex Thackrah, gerente sênior de carvão da Argus.
Guerra no Irã gera apreensão em países e empresas de energia
O conflito no Oriente Médio também reverbera em negociações entre países e nas ações de empresas, que buscam se precaver contra ataques. Nesta quinta, a petrolífera BP se uniu a empresas como QatarEnergy, Saudi Aramco e DNO e paralisou atividades por temores de segurança.
A BP comunicou que retirou os funcionários estrangeiros que atuavam no campo petrolífero de Rumaila, no Iraque, após dois drones não identificados pousarem dentro da área do campo, segundo a Reuters.
Em paralelo, a Índia está intensificando negociações com os Estados Unidos para garantir cobertura marítima a navios que transportam petróleo do Oriente Médio.
“Até agora estamos confortáveis”, disse um funcionário que não quis ser identificado, acrescentando que o Ministério do Petróleo está em discussões com grandes produtores e comerciantes para garantir petróleo, gás liquefeito de petróleo (GLP) e GN).