30/05/2026

Alimentação saudável vira artigo de luxo na era dos influenciadores

Por Lara Flores em 30/05/2026 às 12:00

Reprodução/ Divulgação Agrolink
Reprodução/ Divulgação Agrolink

Optar por alimentos frescos e nutritivos deixou de ser uma escolha cotidiana e se transformou em um verdadeiro privilégio para a maior parte da população brasileira.

A era digital é fortemente marcada pela exaltação de estilos de vida saudáveis. Redes sociais como o Instagram estão saturadas de perfis divulgando rotinas impecáveis, práticas de múltiplos esportes e dietas perfeitamente equilibradas. No entanto, essa tendência cruza uma linha perigosa quando jovens passam a comparar suas vidas reais com recortes milimetricamente planejados, iniciando uma busca incessante por um padrão inalcançável para quem precisa conciliar trabalho, estudos e transporte público.

A grande realidade é que a maioria dos influenciadores que vivem em prol da atividade física transformou a própria rotina em profissão. Um exemplo claro é o de Manu City, que ganhou visibilidade nas redes ao compartilhar sua jornada de treinos e estudos. Ela cursava o 4° semestre de Medicina na UFRJ quando decidiu trancar a faculdade para focar exclusivamente nos esportes e em parcerias com marcas do nicho fitness. Hoje, ela exibe uma rotina intensa de autocuidado e receitas elaboradas, estimulando seus seguidores a adotarem os mesmos hábitos, omitindo, porém, o abismo estrutural que separa o seu cotidiano do de seus espectadores.

Ultraprocessados versus alimentos frescos

Longe das telas, as escolhas alimentares são ditadas pelo bolso, e consumidores de baixa renda são empurrados para hábitos menos saudáveis. Um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontou que 35% da população mundial, o equivalente a 2,826 bilhões de pessoas, não têm acesso a uma dieta ideal.

No Brasil, esse cenário é agravado pela inflação. O índice de preços dos alimentos in natura, como frutas, raízes e legumes, registrou altas significativamente superiores à inflação geral. Em contrapartida, os produtos ultraprocessados foram os que menos sofreram reajustes. A dinâmica do mercado reforça a barreira de acesso: o industrializado, nocivo à saúde, tornou-se a única opção economicamente viável para milhões de famílias.

Papel da escola e a ruptura na realidade

Para muitos alunos da rede pública, a merenda escolar representa a refeição mais completa e nutritiva do dia. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) foca na oferta de arroz, feijão, frutas e vegetais, restringindo severamente os itens processados. Contudo, o projeto ainda enfrenta gargalos de infraestrutura e severas disparidades regionais.

O problema maior se consolida quando o jovem deixa o ambiente escolar. Ao ingressar no mercado de trabalho formal ou informal, ele se depara com a escassez de tempo e dinheiro para manter o padrão nutritivo que recebia. Passa, então, a sobreviver de bolachas e refrigerantes, não por desleixo ou opção, mas por estrita necessidade de sobrevivência e conveniência financeira.

O Brasil atual se divide em dois extremos: de um lado, uma minoria que segue à risca dietas compostas por ingredientes frescos e selecionados; de outro, uma massa dependente de calorias vazias e baratas. A alimentação saudável deixou de ser um direito básico e virou um artigo de grife, comercializado junto a um estilo de vida idealizado e inacessível. É urgente refletir sobre os ideais de saúde pregados na internet, uma vez que eles ignoram a realidade econômica do país e dialogam com um público cada vez mais seleto.

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