Novo megabloco com Calvin Harris cria disputa pela Consolação e moradores temem caos no centro de SP
Por Clayton Castelani/Folhapress em 29/01/2026 às 12:40
O pré-Carnaval da cidade de São Paulo terá pela primeira vez dois megablocos ocupando no mesmo dia a rua da Consolação. O tradicional Acadêmicos do Baixo Augusta dividirá a via na região central da capital com o Bloco Skol, da cervejaria patrocinadora da folia paulistana, que terá atrações como o DJ escocês Calvin Harris e outros famosos com milhões de seguidores nas redes sociais.
A decisão anunciada pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) na semana passada gerou apreensão tanto para foliões tradicionais da vizinhança quanto para moradores que há anos pedem o fim dos cortejos carnavalescos no local. Há especialmente temor de dificuldade na dispersão das multidões que ambos podem levar para o asfalto na tarde do próximo dia 8 de fevereiro.
Nunes conversou sobre o tema com a reportagem e afirmou que há estrutura suficiente para garantir a ordem e a segurança. Já a patrocinadora Ambev disse seguir as regras dos órgãos competentes.
Fundado em 2009, o Baixo Augusta se consolidou como único grande ocupante, no domingo que antecede o Carnaval, dos quase dois quilômetros da rua da Consolação entre a concentração nas proximidades da avenida Paulista e o encerramento na praça Roosevelt.
Neste ano, porém, o Bloco Skol partirá cerca de 500 metros adiante na mesma rua, na altura do cemitério da Consolação, e fará um percurso de quase um quilômetro até o ponto de dissipação, nas ruas Caio Prado e Maria Antônia.
O trecho percorrido pelo megabloco da cervejaria está no caminho do trajeto do Acadêmicos do Baixo Augusta. Apesar dos horários de saída diferentes o primeiro cortejo terá início às 11h e previsão de encerramento às 16h, enquanto o segundo desfilará entre 13h e 18h, descompassos no andamento e dispersão podem resultar em transtornos.
Com menos de 40 metros de largura entre suas calçadas, a Consolação é cercada por prédios e muros. Trechos com possibilidade de escoamento do público, como a praça Roosevelt, costumam ser fechados com tapumes.
O espaço é inadequado para receber multidões, avalia Marta Porta, presidente Conselho Comunitário de Segurança dos bairros Consolação, Higienópolis e Pacaembu. “Com um único bloco já ficavam milhares de pessoas paradas no local de dispersão, imagine o que irá acontecer agora, com dois”, diz.
Marta, que também é vice-presidente de uma associação de moradores e comerciantes da av. Paulista e entorno, diz ter sido surpreendida com o anúncio da criação da autorização de um novo megabloco na região. “Ficamos satisfeitos de termos sido chamados para a reunião com os blocos na semana passada, mas acabamos frustrados ao perceber que tudo já estava decidido sem que fôssemos consultados”, diz.
“Há muito tempo nós pedimos que se procure outro local para esse megablocos, porque nossa região é muito impactada pelo trânsito e barulho desses grandes eventos que ocorrem aqui durante todo o ano”, diz ela.
A rua da Consolação está em uma área em que se permite ruído de até 65 decibéis durante o dia, o que é considerado muito permissivo, ficando abaixo apenas de áreas industriais da cidade. Mas a representante dos moradores afirma que medições realizadas no ano anterior apontaram para mais de 120 decibéis.
Marta disse que tem dialogado com o Acadêmicos do Baixo Augusta para que haja moderação do barulho, mas se queixa de não ter conseguido retorno dos representantes do Bloco Skol.
Em nota, o Acadêmicos do Baixo Augusta afirmou ter sido surpreendido com o anúncio de um outro bloco no mesmo dia e trajeto e que esta é uma situação inédita.
“Diante do fato, estamos aguardando a publicação do Diário Oficial confirmando o referido bloco e trabalhando em nossa produção em diálogo constante com os órgãos públicos competentes para realização de nosso desfile na rua da Consolação, como fazemos há 10 anos”, disse o bloco.
Informada sobre as críticas de moradores e foliões, a São Paulo Turismo, órgão ligada à prefeitura, alegou que os dois blocos têm horários e trajetos distintos, com o objetivo de garantir a realização segura dos desfiles.
A prefeitura ainda afirmou que “toda organização espacial e temporal dos blocos leva em consideração estudos técnicos realizados pelos órgãos municipais para evitar sobreposição de desfiles, minimizar impactos à vizinhança e garantir a segurança dos foliões, especialmente nos momentos de dispersão”.
Por fim, a nota da gestão Nunes diz que a Guarda Civil Metropolitana atuará no policiamento ostensivo dos dois megablocos, com atuação integrada com a Polícia Militar, CET e equipes de limpeza urbana.
Em sua resposta, a administração ainda informou que a inscrição do bloco patrocinado pela Skol consta na lista parcial de blocos publicada em 19 de dezembro de 2025.
Questionado sobre a concentração de dois megablocos em um trecho de densa ocupação urbana nesta terça-feira (27), o prefeito afirmou que o evento “vai ter toda estrutura de segurança e atendimento médico”.
Nunes também enumerou o aumento da quantidade de blocos na cidade, passando de 475, em 2023, para 630, em 2026. Ele também citou a festa de Ano-Novo na av. Paulista como exemplo da capacidade de organização da prefeitura. “Vocês têm acompanhado que esses grandes eventos na cidade tem trazido um grande resultado sem grandes problemas”, disse.
A Ambev disse também que é parceira do “Carnaval de São Paulo e todas as ativações seguem as regras e têm o apoio dos órgãos competentes.”