15/04/2026

Irã recruta crianças e amplia frente de violações na guerra

Por Diogo Bercito/Folhapress em 15/04/2026 às 12:00

Juca Varella/Folhapress
Juca Varella/Folhapress

Sob a ameaça dos Estados Unidos e de Israel, o Irã recorre a crianças para se defender. Segundo relatos preliminares de organizações humanitárias, menores de idade participam, por exemplo, de patrulhas e postos de controle.

O recrutamento de crianças constitui crime de guerra. Uma das razões é que as expõe à violência. Foi o caso de Alireza Jafari, 11. De acordo com a Anistia Internacional, ele morreu em março enquanto atuava em um posto de controle. Seu pai o havia levado até o local, argumentando que não havia soldados suficientes.

A dimensão desse fenômeno ainda é incerta. Blecautes e censura dificultam o trabalho de investigação, afirma Bill Van Esveld, diretor da área de direitos da criança na ONG Human Rights Watch (HRW). Muitos temem falar sobre esse tema, receando sofrer represálias.

Há hoje, no entanto, uma série de evidências desse recrutamento. Uma das mais importantes é um anúncio veiculado pela imprensa estatal, que reduz a idade mínima para o alistamento na organização Basij. Passou de 15 para 12 anos.

O anúncio foi feito por Rahim Nadali, líder de uma das brigadas da região de Teerã. Disse que muitos jovens estavam interessados em se alistar. Acompanhando o anúncio, há um pôster de recrutamento que mostra o que parece ser um menor de idade ao lado de um homem adulto vestindo trajes militares.

A Basij, oficialmente chamada de “organização para a mobilização dos oprimidos”, é um braço da Guarda Revolucionária. Atua como uma força paramilitar de voluntários, frequentemente mobilizada para reprimir protestos populares. Entre suas funções também está a de polícia moral.

Organizações internacionais verificaram relatos e fotografias de crianças manejando armas pesadas em postos de controle. Um desses relatos, citado no relatório da Anistia Internacional, diz que o menor estava sem ar, pois mal conseguia segurar a arma.

Esse não é um fenômeno novo no Irã. Nos anos 1980, o país enviou dezenas de milhares de crianças à guerra contra o Iraque. É conhecido o caso de Mohammad Hossein Fahmideh, morto aos 13 anos ao se jogar debaixo de um tanque, detonando uma granada. Mais recentemente, segundo relatos, Teerã enviou jovens afegãos para defender o regime sírio de Bashar al-Assad.

Esse fenômeno, ademais, não é exclusivo do Irã. Organizações internacionais documentam casos semelhantes em países como Mianmar, Sudão do Sul e República Democrática do Congo.

Para Van Esveld, da HRW, não há fator que atenue o recrutamento de menores de idade. “A lei internacional é clara. Crianças não podem dar seu consentimento”, afirma. “Aos 12 anos, entendem o risco de morrer ou de perder um membro? É claro que não.”

Segundo o Human Rights Watch, o Irã está sujeito a uma série de convenções e protocolos internacionais que proíbem o recrutamento e o uso direto de menores em conflitos armados.

Nos anúncios que recrutam crianças, há chamados não apenas para servir em postos militares, mas também para funções que podem parecer menos perigosas, diz Van Esveld. Entre elas, participar de patrulhas e até preparar comida. Ainda assim, afirma que elas estariam expostas aos frequentes ataques dos Estados Unidos e de Israel. “Deveriam estar na escola, não ali.”

Ir à escola, no entanto, não protege crianças no Irã. Já no primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro, um bombardeio matou ao menos 175 pessoas em uma escola para garotas no Irã. As investigações apontam para a autoria dos EUA.

A escola estava próxima a uma base da Guarda Revolucionária. Mas, diz Van Esveld, as imagens de satélite mostravam com clareza que não se tratava de um alvo militar. Tinha até um campinho de futebol. “Não basta dizerem agora que foi um erro. Deveriam ter feito tudo o que estava ao seu alcance para evitar.”

A disputa com o Irã e seus aliados também tem ameaçado crianças em outros países. Ataques israelenses mataram mais de 20 mil crianças e destruíram 92% das escolas de Gaza. Já no Líbano, os ataques de Tel Aviv forçaram mais de 1 milhão de pessoas a deixar suas casas — entre elas, 400 mil menores. A situação das crianças na região, afirma Van Esveld, é “sombria”.

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