14/03/2026

F1 fica mais elétrica, mas segue sem a China, gigante do setor

Por Luciano Trindade - Folhapress em 14/03/2026 às 11:11

Foto: Jay Hirano / Shutterstock
Foto: Jay Hirano / Shutterstock

A F1 desembarca neste fim de semana em Xangai para a segunda etapa da temporada de estreia do novo regulamento da categoria, que ampliou a eletrificação dos motores, investindo justamente em uma área da indústria automotiva na qual a China é líder global. Ironicamente, o país asiático segue quase ausente do grid.

Embora o país tenha uma base de mais de 220 milhões de fãs e tenha registrado o maior crescimento de público em 2025 (+39%), a presença chinesa na categoria se resume praticamente à corrida disputada no circuito internacional de Xangai desde 2004 – neste ano, marcada para as 4h (de Brasília) da madrugada de domingo (15). Não há no Mundial equipes, pilotos nem fabricantes de motores chineses.

Ao longo da história, a bandeira chinesa só foi vista no grid durante três temporadas, de 2022 a 2024, quando Guanyu Zhou se tornou o primeiro piloto chinês a correr na categoria. Com 68 etapas disputadas, seu melhor resultado foi o oitavo lugar, alcançado nas etapas do Canadá (2022) e Qatar (2024).

Mas não se trata apenas de uma questão de talento. A ausência chinesa no circuito mundial reflete a política definida pelo governo chinês, conforme observa o pesquisador Simon Chadwick, especialista em geopolítica econômica do esporte. “O engajamento das corporações chinesas com o esporte não é uma decisão que elas tomam unilateralmente, tudo é ditado pelo governo central”, disse o britânico à Folha.

Editor fundador do GeoSport, uma plataforma digital de esportes criada em parceria com o Instituto Francês de Assuntos Internacionais e Estratégicos, Chadwick disse não acreditar que esse cenário possa mudar em um futuro próximo. “Autoridades em Pequim divulgaram recentemente o mais recente plano comunista quinquenal do país, no qual não há menção específica à F1, portanto, não devemos esperar a iminente aparição de uma equipe chinesa no esporte”, explica.

De acordo com a Bloomberg, no entanto, a fabricante chinesa BYD demonstrou nos últimos meses interesse em se juntar à categoria. Com o aumento da importância da parte elétrica dos motores híbridos dos carros da F1, a gigante chinesa estuda trilhar o mesmo caminho feito por General Motors e o grupo Volkswagen, atraídas pela eletrificação dos monopostos.

A BYD poderia se juntar à competição como uma nova equipe, como fez a montadora americana por meio da marca Cadillac, ou comprar uma escuderia do grid atual, como os alemães fizeram ao transformar a Sauber em Audi.

Além das estratégias definidas pelo governo chinês, o principal obstáculo analisado pela empresa chinesa é o custo de cerca de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) por ano para manter uma equipe, sem falar nas longas negociações para a aceitação por parte das equipes que compõem a F1.

A entrada de uma fabricante da China é vista com bons olhos por Mohammed ben Sulayem, presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo). Em entrevista ao jornal francês Le Figaro, no ano passado, o dirigente demonstrou empolgação com a possibilidade.

“Foi meu sonho nos últimos dois anos que os grandes países tivessem uma presença na F1. Os Estados Unidos estarão com a General Motors [Cadillac]. O próximo passo é dar as boas-vindas a uma montadora chinesa”, disse o presidente da FIA.

A China é hoje o maior mercado automotivo do mundo e líder global em veículos elétricos. Em 2024, o país respondeu por cerca de dois terços das vendas globais do setor, segundo a IEA, a Agência Internacional de Energia. Ainda assim, sua presença na F1 atual, com mais ênfase na eletrificação, permanece basicamente indireta, limitada a patrocínios e parcerias tecnológicas, sendo a prova em Xangai sua única ligação direta com as disputas nas pistas.

Para o professor Shaowei He, especialista em internacionalização de empresas chinesas da Universidade de Northampton, na Inglaterra, o contraste também passa por fatores históricos e culturais. “A F1 surgiu há 76 anos no Reino Unido e muitas famílias têm gerações de envolvimento consistente com o esporte, enquanto a cultura do automobilismo na China ainda está por surgir”, afirma.

A relação dos chineses com a principal categoria do automobilismo mundial contrasta com a de seu principal concorrente estratégico, os Estados Unidos. Os americanos ampliaram sua presença na F1 nos últimos anos, com três corridas no calendário e, sobretudo, com o controle comercial da categoria após a compra pelo grupo Liberty Media.

A competição de raízes europeias também conseguiu ampliar sua presença no mercado americano a partir do sucesso da série Drive to Survive, da Netflix, atualmente em sua oitava temporada, que mostra os bastidores das equipes e os conflitos entre os pilotos.

Segundo He, a distância em relação ao centro tradicional da indústria também pesa. “Até mesmo alguns executivos chineses do setor automobilístico não têm uma compreensão básica do – vale do automobilismo – do Reino Unido”, diz, referindo-se ao polo de engenharia onde se concentram várias equipes da categoria.

“A F1 e o automobilismo em geral são dominados por uma hegemonia ocidental. Equipes, pilotos, expertise em engenharia, design de circuitos e governança continuam sendo dominados pelo Ocidente, apesar da crescente influência dos países do Golfo. As relações EUA-China, sanções e barreiras socioculturais à entrada servem como barreiras para equipes da China e da Ásia”, acrescenta Chadwick.

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