Ex-vereador preso por elo com PCC citava nome de advogado de Santos, aponta investigação

Por Santa Portal e André Fleury Moraes/Folhapress em 27/04/2026 às 20:00

Reprodução/Redes sociais
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A Polícia Civil de São Paulo identificou indícios de que um grupo suspeito de ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital) buscava expandir sua atuação política em cidades paulistas, incluindo Santos, como parte de um esquema de lavagem de dinheiro por meio de contratos públicos.

A conclusão aparece em mensagens extraídas de celulares apreendidos na investigação. Em uma delas, o ex-vereador de Santo André Thiago Rocha de Paula (PSD) (à esquerda), preso nesta segunda-feira (27), escreveu: “Santos no mapa. Nosso mapa eleitoral”, ao tratar da estratégia de avanço do grupo.

Segundo os investigadores, o objetivo era estabelecer conexões com agentes políticos e pessoas com influência institucional para viabilizar contratos entre prefeituras e a fintech 4TBank, apontada como peça central na operação financeira do esquema.

Em outro trecho das conversas, a polícia identificou referências, incluindo fotos, ao advogado Gabriel Miceli de Carvalho (à direita), candidato derrotado a vereador em Santos pelo PSB, em 2024, e atual diretor de Conselhos Municipais e Inovação da subseção local da OAB. Para os investigadores, há indícios de que o também secretário-adjunto da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Sustentabilidade de Santos “seria de interesse para o grupo político ou até mesmo para o PCC”.

Ao Santa Portal, Miceli afirmou que conheceu Thiago Rocha em encontros da Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), organização nacional voltada à formação de lideranças políticas. Segundo ele, o contato se deu nesse contexto institucional, a partir de 2016, sem relação posterior com atividades profissionais ou comerciais.

Encontro anual da Raps de 2018, com a presença de Thiago Rocha e Gabriel Miceli. Divulgação

O advogado relatou ainda que recebeu Rocha em uma visita ao Parque Tecnológico de Santos, entre 2021 e 2022, ocasião em que o ex-vereador apresentou um livro e mencionou uma startup. “É absolutamente corriqueiro no dia a dia do Parque Tecnológico receber pessoas com ideias, soluções e novas empresas. O Thiago foi uma dessas”, afirmou.

Miceli disse que, após esse encontro, não houve qualquer continuidade na relação. “Não há nenhuma relação estabelecida, seja entre o Parque Tecnológico, na época em que eu estava lá, e essa startup, seja eu pessoalmente com o Thiago ou com representantes dessa empresa”, declarou.

Ele acrescentou que já se colocou à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos. “Estou muito tranquilo e à disposição do Judiciário para apresentar todas as informações necessárias”, disse.

A subseção da OAB em Santos informou que não foi acionada oficialmente sobre o caso e, por isso, não irá se manifestar neste momento.

Relembre a operação

Uma operação da Polícia Civil de São Paulo prendeu na manhã desta segunda-feira (27) quatro pessoas suspeitas de se infiltrar no setor público para, por meio de contratos públicos, lavar dinheiro do tráfico de drogas para a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

A Justiça também autorizou 22 buscas e apreensões e determinou o bloqueio de mais de R$ 513 milhões em bens ligados aos investigados.

Os mandados foram cumpridos em sete cidades paulistas, São Paulo, Ribeirão Preto, Guarulhos, Santo André, Mairinque, Campinas e Santos, em Goiânia, Brasília e Londrina (PR).

Em nota, a Prefeitura de Santos esclareceu que não foi alvo da operação e que não possui relação, contrato ou parceria com a fintech investigada.

“A Administração Municipal informa ainda que foi comunicada pelo advogado Gabriel Micelli, assessor da Secretaria de Meio Ambiente, que seu nome foi envolvido na citada operação, fato que ocorreu devido ao contato com um dos investigados após a participação em um curso de formação política. Ele também informou que já constituiu defesa jurídica e que prestará todos os esclarecimentos necessários às autoridades competentes assim que tiver acesso aos autos, de modo que possa conhecer as acusações e exercer o seu direito de defesa”, diz o posicionamento.

As diligências desta segunda são um desdobramento de uma primeira operação, de 2024, e resultam da apreensão de dispositivos eletrônicos que armazenavam informações sobre o funcionamento da quadrilha.

Divulgação/SSP

A principal estratégia dos investigados estava no uso de contratos entre prefeituras e uma fintech, a 4TBank, responsável por operacionalizar o esquema de lavagem de dinheiro, de acordo com a Polícia Civil.

O objeto de negociação da empresa envolvia gerenciamento de pagamentos das administrações locais, uma movimentação financeira que permitia a ela dissimular a origem ilícita dos recursos.

“O que se apurou foi uma estrutura sofisticada, que buscava não apenas lucrar com atividades ilícitas, mas também se infiltrar em esferas do poder público para potencializar esses ganhos e dar aparência de legalidade aos recursos”, afirmou o delegado Fabrício Intelizano, responsável pela investigação.

Duas pessoas são apontadas como lideranças da rede de negócios.

A primeira é João Gabriel de Mello Yamawaki, criador da fintech 4TBank e responsável pela interlocução do grupo com a classe política. Ele está foragido, e a reportagem não conseguiu identificar sua defesa.

Era uma tarefa que realizava ao lado do ex-vereador de Santo André Thiago Rocha de Paula, preso nesta segunda-feira e braço direito de Yamawaki, segundo as investigações.

Thiago é suspeito de manter ligações com a principal liderança do PCC na região do ABC, conhecido como “Beiço de Mula”. A Folha não havia localizado a defesa do ex-vereador até a última atualização deste texto.

As investigações afirmam existir “indícios verossímeis de que uma das atividades criminosas executadas pela organização criminosa, senão a principal delas, é o tráfico de drogas”.

Além de suspeitos ligados ao criador da fintech, a Polícia Civil também cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços relacionados a agentes políticos.

Um deles é o ex-secretário de Finanças de Santo André Pedro Seno, atual diretor de Tecnologia da Fundação do ABC.

A FUABC, como é conhecida, é a entidade que mais recebe verba pública em contratos na saúde em todo o estado de São Paulo.

No ano passado, a entidade foi citada nas investigações que levaram o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) a afastar o prefeito de São Bernardo do Campo, Marcelo Lima, em decisão posteriormente revertida.

A entidade afirmou ter afastado Seno de suas funções após o contato da reportagem para “assegurar a devida apuração dos fatos, bem como garantir ao profissional o pleno direito ao contraditório e à ampla defesa”.

“Adicionalmente, importante ressaltar que, com base nas informações preliminares divulgadas pela imprensa, não há nenhuma relação da operação policial mencionada com a Fundação do ABC e suas atividades.”

Já a Prefeitura de Santo André afirmou que “não possui qualquer contrato vigente com empresas ou pessoas físicas cujos nomes tenham sido citados na operação”.

Endereços ligados a outros agentes políticos também foram atingidos pela decisão.

Um deles é ligado a Matheus Tognella, presidente do PSB de Nova Odessa, no interior de São Paulo, que já ocupou cargo na Prefeitura de Campinas, de acordo com a polícia.

Segundo as investigações, ele teria mantido contato com o ex-vereador Thiago Rocha, preso nesta segunda, para levar a 4TBank ao município.

A reportagem ligou e enviou mensagens a Tognella, mas não obteve resposta. A Prefeitura de Campinas disse em nota que o caso não guarda relação com a atual gestão.

Diálogos encontrados por investigadores apontam para outras ligações entre a organização criminosa e o PSB.

Em uma das conversas entre o ex-vereador de Santo André e o criador da 4TBank, por exemplo, a Polícia Civil identificou fotos entre o advogado Gabriel Miceli de Carvalho, candidato derrotado do PSB a vereador de Santos em 2024 e atual diretor de Conselhos Municipais e Inovação da subseção da OAB de Santos.

O PSB disse em nota não ser investigado e afirmou que vai aguardar o trâmite do caso.

Numa outra mensagem, Rocha disse a Yamawaki, a quem se referiu como “líder”, que “entramos em Ribeirão [Preto]”. Seria uma referência a Marcos Papa, na época vereador do município do interior de São Paulo, que também teria demonstrado interesse pelos serviços da 4TBank.

Marcos Papa não atendeu nem respondeu às mensagens encaminhadas pela reportagem tanto pelo WhatsApp como pelas redes sociais. O Santa Portal não localizou as defesas de Yamawaki e Rocha. O espaço segue aberto.

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