Como 'Peaky Blinders', agora com filme, virou fenômeno nas periferias do Brasil
Por Alessandra Monterastelli/Folhapress em 21/03/2026 às 10:45
Com seu sobretudo e boina clássicos, o gangster Thomas Shelby entra em um pub, desliga a música e enfurece um soldado que aproveitava a festa. Sem saber de quem se trata, o militar zomba do outro e encosta a pistola em seu pescoço, mas Shelby é mais rápido. Saca uma granada, retira o pino, e a enfia na camisa do adversário, que sai correndo antes de explodir nos ares.
A cena do filme “Peaky Blinders: O Homem Imortal”, lançado nesta sexta-feira na Netflix, marca o retorno de Thomas “Tommy” Shelby, líder da gangue Peaky Blinders na série homônima que, em seis temporadas, de 2013 a 2022, extrapolou a fronteira do Reino Unido, onde era produzida pela BBC, para se tornar um fenômeno mundial no streaming. No Brasil, a trama que se passa na Inglaterra dos anos 1920 teve forte capilaridade nas periferias de capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, enquanto Tommy se tornou um arquétipo masculino nas redes sociais.
Nos primeiros episódios, lançados há quase uma década, Tommy Shelby e seus irmãos, Arthur e John, eram ex-soldados britânicos traumatizados pelos horrores da Primeira Guerra Mundial. Ao retornarem a Birmingham, a cidade está destruída e empobrecida pelo conflito.
Para sobreviver e prosperar, eles fundam os Peaky Blinders, inicialmente envolvidos com apostas ilegais, que se fortalecem ao longo das temporadas seguintes. Com seus próprios valores, eles ajudam uns aos outros e enfrentam o sistema que os condena a marginalidade.
“Esses homens foram cuspidos de volta à sociedade após a guerra, e estavam lidando com traumas terríveis. Cada um lidou com isso de uma maneira diferente. Alguns se afundaram na bebida. Alguns enlouqueceram. E o Tommy, por outro lado, é obstinado. Ele transforma isso em uma ambição implacável”, diz, por videochamada, Cillian Murphy, que dá vida à Tommy Shelby.
Conhecido antes do papel, o ator irlandes foi catapultado para a fama mundial depois da série e venceu o Oscar em 2024, ao interpretar o cientista Robert Oppenheimer no filme de Christopher Nolan.
A história de Tommy parece muito distante do Brasil de hoje, mas a personalidade do mafioso ajuda a explicar sua fama por aqui. A resiliência frente a um ambiente violento e hostil, somada à ambição de enriquecer para proporcionar uma vida melhor à própria família, são características que ressoam entre homens jovens periféricos, segundo Marx Saraiva, pesquisador no Centro de Estudos Periféricos Unifesp. “Há uma identificação com esse homem que, apesar de todas as adversidades, precisa se recompor, vencer na vida e levar quem está com você adiante, ainda que restrito à extensão da família.”
Frases de efeito de Tommy da dublagem em português, como “não gosto nada dessa merda de vida” e “não vai ter briga” já foram sampleadas e inseridas em sets dançantes com milhões de visualizações no YouTube, como “Tropa do Shelby”, de MC PR, e “Beat dos Peaky Blinders”, do DJ Nescau. O termo “frio e calculista”, usado para sintetizar a filosofia de vida representada pelo personagem, se tornou um lema viral. O corte de cabelo dos personagens da série, raspado nas laterais, é popular nas barbearias.
“Peaky Blinders” também virou referência em músicas de rap, funk e trap. No clipe de “Arte Como Crime”, Salvador da Rima, Magrão e Janderson Fundação aparecem vestidos como a gangue inglesa, com ternos, gravatas, suspensórios e boinas, para rimar sobre a violência policial nas favelas paulistas e a criminalização do funk.
Já em “Jogos e Apostas”, Orochi, um maiores nomes do trap nacional, canta: “Entre jogos e apostas, eu vivo como Shelby/só entrei nesse jogo para virar o chefe/nóis é de verdade, sem máscara de foda/ minha mente é a mais cara das joias”. E depois “tropa te busca em casa, parecendo ‘Peaky Blinders’/geral todo de preto, as esquinas não dormem à noite”.
“Todo mundo no rap se considera um pouco um Peaky Blinders nesse sentido de fugir à regra. O lance é ser alguém que vai contra o sistema em prol de ajudar a família, de ter ambição de fazer dinheiro”, diz o rapper e ator Ami$h. Criado em São Gonçalo, ele fundou na Rocinha o coletivo musical Covil do Flow. “Alma”, uma de suas últimas faixas, tem um clipe em animação de Thomas Shelby em uma comunidade carioca.
Ele diz que as referências à série não incentivam o crime, mas confrontam uma situação que é real em grande parte das periferias –a presença de facções e a sedução de uma parcela de jovens vulneráveis e também a dificuldade de ascender socialmente. “A gente amadurece cedo, igual essa galera dos ”Peaky Blinders’. Tem que ajudar mãe, batalhar, não pode dar mole”, diz Ami$h. “No nosso meio precisa ser frio e calculista.”
Fora das periferias e dentro das redes sociais, Tommy Shelby dá cara a milhares de memes e vídeos, replicados especialmente por homens. Para Ellinton Noronha, sósia brasileiro do personagem, o sucesso da série entre o público masculino está ligado à temática da irmandade.
“Há fraternidade e confiança. [Tommy] também mostra como reagir a certas situações. É uma força, uma direção de olhar”, diz. Morador da zona norte de São Paulo, o influencer era operador de caixa antes de começar a publicar vídeos na internet imitando o gangster, e hoje acumula 4,5 milhões de seguidores no Instagram e 6,5 milhões no TikTok.
As gravações mostram pessoas reagindo a ele andando vestido como o personagem, com metralhadoras falsas a tiracolo, em locais como shoppings e parques. Em outros vídeos, ele avalia se o comportamento de outros homens é de um sigma.O termo, popularizado entre grupos com discursos misóginos na internet, refere-se a homens que, em contraponto ao macho alfa, são mais inteligentes, introspectivos, reservados e supostamente preferidos pelas mulheres. Para Noronha, sigma é uma atitude.
“São homens que não ficam babando ovo de ninguém. Você ajuda alguém, não como herói, mas como uma pessoa de bom senso e caráter. Antigamente, acho que os homens tinham mais esse senso de fazer uma boa ação”, diz.
Para alguns homens, Thomas Shelby virou um exemplo a ser seguido. Grupos com publicações que incentivam o ódio contra as mulheres são uma resposta reacionária às conquistas do movimento feminista e do avanço das mulheres na sociedade.
Por outro lado, diz Maria Carolina Medeiros, professora da Fundação Getúlio Vargas e especialista em socialização feminina, homens que não participam desses grupos podem procurar por figuras masculinas para admirar e sanar uma espécie de crise de identidade relacionada ao papel do homem na sociedade contemporânea.
“Os homens perderam, em alguma medida, o protagonismo que eles estavam acostumados a ter. Talvez esses personagens possam encarnar a dualidade que o homem moderno está sentindo”, diz a especialista. “Eles estão órfãos de modelos de masculinidade.”
Tommy é pragmático, viril, pouco adepto a falar de sentimentos ou ouvir os outros. E, claro, está disposto a fazer o que for preciso para defender seus interesses. São características geralmente relacionadas à masculinidade tóxica. Mas tudo tem um preço.
Tommy faz mal às pessoas ao seu redor e a ele mesmo, condenando a si próprio a solidão. O drama fica claro em sua relação com o filho, Duke, interpretado por Barry Keoghan, que ressente a frieza e ausência do pai e, ao mesmo tempo, herda seus traumas e trejeitos nocivos.
Em “Peaky Blinders: O Homem Imortal”, Tommy vai precisar acertar as contas com o filho antes que Beckett, um agente fascista, seja mais sedutor –e convença os Peaky Blinders a trabalharem para o lado obscuro da força.
- Peaky Blinders: O Homem Imortal
- Classificação: 18 anos
- Elenco: Cillian Murphy, Rebecca Ferguson, Barry Keoghan
- Produção: Reino Unido, 2025
- Direção: Tom Harper
- Onde: ver Disponível na Netflix