23/01/2026

Como o Psirico, com Márcio Victor, revolucionou a batida do pagodão baiano

Por Lucas Bredê/Folhapress em 23/01/2026 às 18:06

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Em 2003, o Psirico gravou o show que fez em sua primeira apresentação no Festival de Verão Salvador. A banda de Márcio Victor, que toca na edição deste ano do evento ao lado da cantora Rachel Reis, estava promovendo transformações profundas na sonoridade do pagodão baiano, com especial destaque para o som agudo e rufado da bacurinha na percussão .

Quando Márcio Victor ouviu a mixagem do álbum gravado no show de 13 anos atrás, havia algo de errado -as bacurinhas estavam muito mais altas que os outros instrumentos. “Ficou alto, teve o erro, mas me mandaram antes. Aí eu fiz assim, ‘vou perder isso aqui?’. O [percussionista] Jadsom está dando show. É metralhadora do começo ao fim. Falei que íamos lançar assim mesmo”, ele diz.

Essa sonoridade se tornou parte indissociável da identidade da banda, cuja batida envolvente depois foi adotada por estrelas do pagode baiano, de Leo Santana a Igor Kannário, de Tony Salles a O Kannalha. A batida também levou o pagodão a superar o axé como o estilo mais tocado no Carnaval de Salvador, ao ponto de ser adotado por Ivete Sangalo nos últimos anos.

O Psirico cristalizou sua sonoridade em 2004, quando foi banda revelação do Carnaval e estourou “Sambadinha” como a música da folia naquele ano. Mas a revolução percussiva de Márcio Victor vem de antes -e não muito depois que ele nasceu.

Sobrinho de Ninha, ex-vocalista do Timbalada, o músico já tocava no bloco afro Badauê, de seu bairro, o Engenho Velho de Brotas, aos três anos. Ainda criança, tocou bongô com o cantor Lazzo Matumbi, percussão com o Ara Ketu e era marcador de quadrilha de festa junina. Aos 13, era regente na Timbalada e já tinha o Psirico, banda da qual virou vocalista antes de completar 20.

Foi na Timbalada que ele conheceu a bacurinha, instrumento inventado pelo criador do grupo, Carlinhos Brown. Ela já era usada no pagode baiano, mas de maneira mais tímida, em outra levada, pelo Harmonia do Samba. Depois dos anos 1990 dominados por É o Tchan e Terra Samba, a banda de Xanddy era o paradigma no gênero baiano.

O líder do Harmonia abusava da dança e seu estilo era seguido por grupos como Pagodart e Oz Bambaz. Todos eles tinham uma sonoridade de BPM (batidas por minuto) mais acelerado e mais alinhada ao samba de roda tradicional, calcada em pandeiro, tamborim, surdo e conga ou timbal.

Márcio Victor não tinha a sensualidade de Xanddy, não queria fazer música para esse tipo de dança e começou a experimentar. “O Psirico fez um caminho de laboratório”, diz o cantor. “A gente entrou em estúdio e ficou lá meses estudando a nossa batida.”

As fitas do tipo Digital Audio Tape (DAT) dessas sessões eram mostradas por Márcio Victor aos músicos com quem ele tocava -incluindo 13 anos como percussionista de Caetano Veloso-, em busca de opinião.

“Ramiro Musotto, Cesário Leony, Alfredo Moura, Marcelo Brasil… tive esse apoio. E colocava o Caetano de cobaia para ouvir. Quando a gente ia tocar na Europa, eram os caras eruditos, tipo Jaques Morelenbaum ou Joathan Nascimento, ouvindo a batida. No ônibus, quem ia na frente era o condomínio, e atrás era a favela. Caetano só vinha na favela, ouvindo as fitas 500 vezes. Paula Lavigne já não aguentava mais.”

A primeira vez que se gravou um protótipo da batida do Psirico, diz Márcio Victor, foi na música “Groove da Baiana”, lançada no disco “Sol da Liberdade”, de Daniela Mercury, no qual ele tocou, em 2000. “Ali você já ouve bem baixinho”, ele afirma.

O resto foi criado em estúdio, com colaboração dos músicos do Psirico à época. “Os três surdos foi [Carlinhos] Brown quem criou, e eu trouxe, assim como os timbales mais apertados e os atabaques junto às congas. O trio de congas é cubano, mas eu trouxe o atabaque para ter a representatividade da gente. Os surdos com afinação mais grave era para simbolizar aqueles [máquinas de batidas, muito usadas no rap] 808s, que eu não tinha dinheiro para comprar.”

Entre outras inovações o Psirico retirou o pandeiro e o trocou por torpedos, mudou o jeito de se tocar bateria, retirando protagonismo do chimbal, e refez a levada das congas para distanciá-las do samba de roda -e do pagodão que era feito na época. Foi assim também com o baixo, que ficou mais grave e livre para fazer harmonias mais complexas e riffs -numa pegada que remete ao reggae de Bob Marley, como na música “Se Pique pro Dique”, de 2006.

Márcio Victor também introduziu sons de megafone, ele diz, para emular os efeitos eletrônicos que ele ouvia no pop, mas não tinha condições financeiras de acessar, além de teclados e, mais recentemente, sons da música eletrônica de rave. “Trouxemos alguns elementos do pop para dentro da música do povo, mantendo a raiz do candomblé e a essência da gente de descoberta de ritmos”, ele diz. “Sem medo.”

Mas se as bacurinhas rufadas e executando viradas são a face mais perceptível da sonoridade do Psirico, talvez a grande revolução venha na mudança da levada. Se o pagodão era tocado, diz Márcio Victor, em torno de 150 batidas por minuto, ele fazia a mesma música desdobrada -ou seja, pela metade, com 75 batidas por minuto.

Tratava-se na verdade de um truque, em que paradoxalmente era necessário desacelerar para deixar ainda mais rápido, e ao mesmo tempo abrir mais espaço para serem preenchidos pelas novas harmonias e frases de percussão. “É porque é, digamos, 75 BPM tocado com pulsação de 150 BPM. A gente toca desdobrado, mas o povo entende dobrado. Tanto é que eles pulam. É por isso que hoje nos trios o axé não consegue, a gente chega dominando. É como música eletrônica, temos aqueles breaks que tira todo mundo do chão.”

Há mais que apenas características percussivas no sucesso longevo do Psirico. Ele passa pelo modo de se vestir, pela coleção de hits e também pelo discurso. Márcio Victor faz questão de frisar que sua banda é política, e que há uma mensagem social por trás de cada letra. “Toda Boa”, diz, é sobre a valorização da mulher, indo na contramão das músicas que destratam o gênero feminino. “Lepo Lepo”, afirma, é um hino pela felicidade simples contra a ostentação.

A batida gestada pelo Psirico na metade da década de 2000 foi ganhando ramificações e especificidades nas mãos de outros grupos e instrumentistas, mas segue a mais influente do gênero neste século. A vertente mais atual é o pagodão feito para tocar no paredão, mais eletrônica, com letras e erotismo mais explícito e bastante influenciada pelo funk.

É desse ritmo o sucesso “O Baiano Tem o Molho”, de O Kannalha, que virou a trilha sonora dos prêmios conquistados pelo ator baiano Wagner Moura, com o filme “O Agente Secreto”, nos Estados Unidos. Márcio Victor diz que gosta dessa música, especialmente os versos “Nós já nasce com a pimenta na cabeça da chibata/ E o dendê que molha o corpo todo”. “É maravilhoso. A gente está assumindo que somos baianos”, diz.

Mas não tem a mesma visão sobre parte da produção atual. “Não adianta a gente querer entrar num hype de Spotify e TikTok. Eles não prestam atenção na gente”, diz. “O pagodão é um dos ritmos que menos tem playlist, mas quando surge um pagodão com uma letra bem pesada, eles conseguem ter muita visibilidade porque o público jovem hoje presta mais atenção nisso.”

Márcio Victor confessa que queria que essas letras mais “pesadas” ou de ostentação “já não estivessem rolando mais”. “Quando vem cantando assim ‘sua sua mãe é vagabunda, sua mulher não presta, você está com doença’, aí é foda. Eu reclamo. Na minha casa não toca essas músicas -tocam outras. Porque minha mãe é legal, minha vida é legal e eu não quero essa energia dentro da minha casa.”

Ele compara esse tipo de letra a programas policiais transmitidos na TV aberta na hora do almoço. Para o cantor, as plataformas de streaming e redes sociais só alimentam esse ecossistema, em que um jovem periférico, para fazer dinheiro rápido, precisa de hits imediatos e cede à lógica dos algoritmos, num jogo em que “se você fizer uma pior letra vai conquistar a nova geração”.

“Estão lá clássicos e merdas. Você escolhe o que você quer”, diz o cantor. “O que chamo de merda é porque é muito feio você tirar o valor da mulher, tirar o valor conquistado pelo povo preto, tirar os valores da nossa periferia.”

Márcio Victor afirma que essa “baixaria” são “as mazelas que passam ali na periferia”. “Falta de governo, de informação, de tudo. Como por exemplo a falta de opção de ouvir músicas boas”, diz. “O povo gosta de música boa, quando se tem acesso. Quando não se tem acesso, só tem aquilo, porque é o que está ganhando mais publicidade e notoriedade.”

Somado a isso, ele diz, há a falta de espaços e representação de pessoas negras. “Chamam o público da gente de pessoas feias. E o que as ‘pessoas feias’ fazem? Se reúnem e vão para o paredão. Muitas vezes, o cara é massacrado pelo sistema e só tem acesso àquilo. Então é a música que eles ouvem. ‘Ah, mas tem a internet’. Claro, cabe à pessoa buscar, mas a informação, e a educação, são coisas que deveriam ser para todos, mas não têm sido divididas dessa forma.”

O cantor ainda provoca dizendo que gosta de música, enquanto tem gente que gosta de modinha. Seu projeto mais recente, chamado “Molho Lambão”, reúne abordagens e vertentes diferentes do pagodão ao longo da história. Entre as parcerias, há uma inédita -seu encontro com Xanddy, do Harmonia do Samba, de quem no passado ele quis se diferenciar.

Para Márcio Victor, a história do Psirico sempre foi de ir na contramão. Fora do hype, longe do like, ainda que essencialmente feito para o povo. “Sempre quis mostrar um som diferente. Sabia que ia demorar a chegar porque era diferente. E toda a diferença no começo causa essa estranheza. Eu queria algo estranho”, ele diz. “Fujo dessa coisa de ter que fazer sucesso, estar estourado. Quero fazer umas paradas que fiquem para sempre.”

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