Como John Malkovich fez do mundo o seu personagem ao retratar conflitos humanos
Por Davi Galantier Kasilchik/ Folhapress em 18/03/2026 às 09:05
Certa vez, John Malkovich quis ser todo mundo. A convite de um amigo, o fotógrafo Sandro Miller, ele recriou retratos célebres de gente como o pintor Salvador Dalí, a atriz Marilyn Monroe, o cientista Albert Einstein e o revolucionário Che Guevara. Ao emprestar o próprio rosto, o artista americano reuniu gêneros, profissões, países e filosofias diferentes.
Anos antes, num inusitado filme de ficção científica, um sujeito descobria uma de possuir o corpo do ator. Virou moda, e todo mundo quis ser John Malkovich. Na época, o roteirista Charlie Kaufman o classificou como meio-termo entre celebridade e desconhecido, mas o sucesso de “Quero Ser John Malkovich” atraiu muitos fãs. Nada que tenha mexido com o ego do astro. Pelo contrário. Até hoje, ele insiste não ter nada de especial.
“Sou só um ser humano”, diz ele, que se prepara para apresentar a história de Ramírez Hoffman, um escritor fictício com mania de grandeza, que prega ideais de ultradireita onde quer que vá. Criado pelo autor chileno Roberto Bolaño, ele é ironizado na peça que leva Malkovich ao Theatro Municipal do Rio e à Sala São Paulo no final deste mês. Criador e intérprete já descreveram o personagem como alegoria a mais de um espectro político.
“Diferente de Hoffman, não sou uma pessoa extrema. Não me considero frio, nem calculista, e sequer um intelectual”, afirma ele, que às vezes é julgado por vilões da carreira ou comparado a figuras como o seu papa, da segunda temporada de “The New Pope”.
Do veterano de guerra que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar, em “Um Lugar no Coração”, de 1984, ao assassino em série de “The Infernal Comedy”, primeiro espetáculo que o trouxe ao Brasil, o artista já foi possuído pelas mais variadas personalidades.
Alvo da violência do pai, Malkovich buscou papéis para se refugiar da juventude conturbada. Ele se juntou ao grupo Steppenwolf em que dramaturgos como Tracy Letts encenaram suas primeiras tramas, em 1976, seis anos antes de questionar o sonho americano numa versão de “A Morte de um Caixeiro-Viajante”, sua estreia na Broadway.
Naquela época ele também participou de seus primeiros filmes, pouco antes de colaborar com cineastas como Steven Spielberg que fez dele um marinheiro oportunista em “Império do Sol” e Bernardo Bertolucci em “O Céu que Nos Protege”, de 1990. Sob direção do italiano, reconhecido pela forma como abordou o fascismo, o ator deu vida a um poeta, assombrado pela Segunda Guerra, que tenta restaurar seu casamento ao perambular pelo Saara.
Com o tempo, Malkovich também se habituou a não recusar projetos. Sua carreira vai de diretores cultuados como Manoel de Oliveira, com quem explorou temas como a fé e a mortalidade, até sucessos comerciais como “Transformers” e “Bird Box”, hit da Netflix sobre um mundo apocalíptico. Seja como for, defende, são tipos artísticos que exigem o mesmo esforço.
“Artistas têm uma visão de mundo baseada numa série de fatores. Tudo depende de onde nasceram, com quem cresceram e o que escolheram aprender. Penso que a arte pode fazer o que bem entender”, diz ele, ao comentar as relações entre arte e política que pautaram o último Festival de Berlim. No evento, muitos foram criticados pela recusa em se posicionar sobre assuntos como os conflitos no Oriente Médio.
Apesar de avesso a políticos o artista não vota desde as eleições de 1972, quando o democrata George McGovern foi derrotado pelo republicano Richard Nixon, ele responde com toda a calma do mundo. Entre longas pausas, num espaço que lembra uma igreja, o ator tenta escolher cada palavra com sabedoria. Ao final, afirma preferir a arte como meio de expressão.
“[William] Faulkner dizia muito bem ‘a voz do poeta não precisa ser apenas um registro do homem, mas um dos pilares que o ajudarão a perseverar’.”
A postura lembra a que o cineasta Paul Thomas Anderson adotou em sua recente campanha ao Oscar. Vencedor do prêmio máximo por “Uma Batalha Após a Outra” longa que questiona políticas imigratórias dos Estados Unidos, ele evitou o tema em entrevistas e depois em seus discursos de vitória no evento.
Embora não cite crises específicas, Malkovich parece um pouco mais à vontade em debater assuntos de que, em tese, procura se afastar. “A natureza humana não mudou e a morte sempre esteve às claras em nossa história. Nenhum jovem deveria ter que pensar sobre a morte. Eles não são obrigados a entendê-la.”
Não por acaso, o autoritarismo, especialmente em países da América do Sul, é um tema que o atrai há algum tempo. Em 2002, por exemplo, ele dirigiu “Guerrilha Sem Face”, suspense sobre um policial peruano que, em meio à instabilidade de um governo ditatorial, é forçado a caçar terroristas.
Mais de uma década depois, o ator subiu ao palco com “Just Call Me God”. Em cena, o artista encarna um ditador prestes a ser deposto, que pede à plateia que se lembre dele como um tipo de divindade.
Também no teatro, interpretou um magnata inspirado por Harvey Weinstein, que usa seu poder para assediar uma atriz. Ainda subverteu a romantização da guerra ao montar “Arms and the Man” que gerou revoltas em 2024 e retratou o Holocausto com sua versão de “Leopoldstadt”, clássico de Tom Stoppard.
Agora, e com base num capítulo de “A Literatura Nazista na América”, livro de Bolaño que satiriza a manipulação ideológica, “The Infamous Ramírez Hoffman” une narração e orquestra para seguir um homem que tenta se aproveitar do golpe que depôs o ex-presidente chileno Salvador Allende.
“Sou atraído pela América do Sul por não ter crescido lá”, afirma Malkovich. “Muitos insistem em separá-la da América do Norte, e parte da história se esqueceu que ela também pertence ao ‘novo mundo’. É um lugar muito rico e cujos autores parecem ter criado outro planeta.”
Ele cita “Wild Horse Nine”, filme previsto para novembro em que seu personagem vai à Santiago em meio a tensões de 1973. É o mesmo período em que Hoffman tenta usar a arte para perseguir os seus opositores. Apesar de ter sido imortalizado como crítico da direita, Bolaño defendia que seus livros não se restringiam a um lado.
Malkovich reforça essa opinião e traça relações entre seu espetáculo e a atualidade. “O extremismo está mais popular do que nunca e todos querem expressar seus sentimentos e ideologias. Estamos sendo tomados por decisões extremas.”
Numa era em que usuários são bombardeados pela internet, o ator ainda diz que a substituição do homem pela inteligência artificial seria uma espécie de derrame. É um receio que explica o hibridismo em que tem investido.
Ao dar continuidade a “The Music Critic” e “Their Master’s Voice”, peças em que suas interpretações são acompanhadas por músicas clássicas, ele descreve “The Infamous Ramírez Hoffman” como uma nova coletânea de talentos humanos.
“As pessoas podem estar viciadas em seus celulares, mas prestam atenção se tiverem um bom motivo. Se eu falhar em dar a elas uma razão para estarem ali, não posso culpar nenhum tipo de tecnologia. Tenho que fazer o meu melhor.”
Pronto para se apresentar com a pianista Anastasya Terenkova, o violinista Andrej Bielow e o bandoneonista Fabrizio Colombo, diz querer representar toda a humanidade. “Espero que as pessoas percebam que, além de sociopata, Ramírez Hoffman é um desperdício de talento.”
“O talento não pertence ao seu dono. Ele deve ser compartilhado com todos que desejam apreciá-lo. Todos os talentosos carregam essa responsabilidade.”
THE INFAMOUS RAMÍREZ HOFFMAN – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO:
- RIO DE JANEIRO:
- Quando: Dom. (29), às 17h
- Onde: Theatro Municipal – Praça Floriano, S/N, Rio de Janeiro
- Preço: De R$ 200 a R$ 800, ingressos em feverup.com
- Classificação: 10 anos
- Elenco: John Malkovich, Anastasya Terenkova, Andrej Bielow e Fabrizio Colombo
- Direção: John Malkovich
SÃO PAULO: - Quando: Ter. (31) e qua. (1), às 20h30
- Onde: Sala São Paulo – Praça Júlio Prestes, 16, SP
- Preço: De R$ 350 a R$ 550, ingressos em tucca.byinti.com
- Classificação: 10 anos
- Elenco: John Malkovich, Anastasya Terenkova, Andrej Bielow e Fabrizio Colombo
- Direção: John Malkovich