15/04/2026

Como Filho do Piseiro transformou uma batida em símbolo pop do forró atual

Por Lucas Brêda/Folhapress em 15/04/2026 às 08:45

Reprodução/Instagram @filhodopiseiro
Reprodução/Instagram @filhodopiseiro

As instruções são simples. Primeiro, você imita uma baleia com a boca. Depois, “joga a sílaba bu”. Foi assim que o cantor Filho do Piseiro, fenômeno atual do forró, explicou em um vídeo viral sobre como fazer a sonoridade da batida da caixa da bateria, em frequência médio grave, que marca a maneira como o gênero é feito hoje para ser tocado nos paredões de som.

Desde a virada do ano, Filho do Piseiro despontou como um dos artistas mais ouvidos do país no streaming. Mas além de suas músicas terem estourado, ele ficou famoso pela destreza com que reproduz essa sonoridade seca e cortante com a própria voz. O “buh” que pode também ser “tuh” ou “puh”, virou febre como onomatopeia, símbolo de uma estética que vem se consolidando no forró há anos.

“Quando estou cantando, boto isso na música e é o que a galera gosta”, diz Everton da Silva, o nome de batismo do cantor. “O povo pede faz o médio. É como em uma rapariga é bom, três rapariga é bom demais, buh, buh. Aí pronto, foi o que consolidou.”

Ele se refere à música “Raparigas”, seu maior sucesso, ao lado de um medley de forrós antigos puxado pela canção “Meu Pai Paga Minha Faculdade”. Durante a entrevista, Filho do Piseiro reproduziu com a própria voz o som do médio grave sem cerimônia, como se o instrumento estivesse dentro dele.

A abordagem é parecida com a que ele dá ao próprio canto, em que viaja por notas agudíssimas numa dinâmica acelerada de vai e vem. “É um suingue que parece uma sanfona balançando”, diz. “Tenho um trabalho de diafragma muito bom, uma resistência pulmonar. A galera acha que é só fingir que estou cantando, mas tem técnica. Vou na métrica da banda, imaginando que sou o fole de uma sanfona.”

O “amazonense mais nordestino do Brasil”, como se define, por ser filho de cearenses e pela afinidade com a música da região, passou uns seis anos cantando em festas e eventos de Manaus, às vezes por oito horas seguidas, antes de despontar para a fama. Ele diz que começou a fazer o som do “buh” depois de ver os vídeos do influenciador Xandinho Médio Humano, o Boca de Médio Grave.

Carismático, ele encaixava o “buh” no repertório da época, dominado pelo piseiro de teclado de Barões da Pisadinha e João Gomes, além de sertanejos, arrochas e bregas, no esquema de voz e violão, às vezes com playback no sintetizador. Tudo mudou, diz, quando começou a mirar um estilo específico de forró, informalmente chamado de forrozão, em que o som do médio grave é dominante há mais de uma década.

“Foi quando ouvi falar em em Junior Vianna, Forró de Qualidade, Claudio Ney & Juliana”, afirma o cantor. “Quando escutei, me apaixonei por aquela levada, porque é muito acelerada, é suingada, uma coisa que vem de mim mesmo, um balanço, um negócio.”

Com os três artistas citados, Filho do Piseiro faz uma radiografia de sua estética e também uma linha do tempo desse forrozão. Do primeiro deles, pegou o estilo de canto vai e vem que emula a sanfona; do segundo, os agudos sustentados no diafragma; e da dupla, a divisão das sílabas de um jeito veloz que carrega influência das emboladas.

Em comum, todos usam o som do médio grave para fazer suas músicas soarem bem nos paredões. É uma história que começa nos primeiros anos deste século e por engano.

As competições de som automotivo já eram uma cultura no Nordeste quando o grupo Lagosta Bronzeada lançou o álbum “Ao Vivo em Ipaporanga”, gravado no interior do Ceará, no ano 2000, em que a mixagem foi mal feita, dando destaque exagerado a certas frequências médias e graves.

É o que diz Robson Cavalcante, ou Rob Som, fabricante de paredões e um dos maiores especialistas em som automotivo do Ceará. “Aquele CD tem uma caixa de bateria muito ressonante na frequência 277 hertz, que o pessoal gosta muito. Quando bota no paredão, arrepia a pele da gente. Era uma caixa muito na cara, mas não era proposital, era um erro.”

Naquela época, ele diz, os sistemas de som tinham mais caixas graves. Com o crescimento dos rachas de som automotivo, passou-se a adotar mais cornetas, responsáveis pelos agudos. Por volta de 2005, Rob Som já começou a explorar um som mais plano e encorpado, incluindo caixas de médio grave e tweeters. “Mas ainda tinha excesso de grave”, diz. “Dóia, tremia os peitos da gente.”

Em 2007, ele e Lano Gama, dono do Lagosta Bronzeada, participaram de uma competição tocando aquele CD da banda, especificamente a faixa “Pétalas Neon” uma versão em português de “Hero”, de Mariah Carey. Eles botaram o sistema de som para tocar logo depois de outro carro que se destacou com os graves, tocando um funk carioca.

“Tinha umas 5.000 pessoas naquele evento. E o que comeu o som mesmo foi o médio grave, tocando o nosso forró”, diz Rob Som. “A gente engoliu aquela vozona encorpada e cheia, com a caixa de bateria arrepiando o corpo do cara todinho.”

A propagação dessa batida também aconteceu de maneira casual. Então pintor na loja de som automotivo de Rob Som, o pirateiro quem vende CDs e pen-drives com as gravações do forró conhecido como Black CDs passou a gravar vinhetas com seu nome e a mexer nas músicas antes de vendê-las. Rob Som deu as instruções a ele, em hertz e decibéis, que ensinavam a realçar a caixa da bateria de maneira precária no computador.

O técnico de som Jordy Kennet, citado nas músicas como Jordy Produções, já pegou esse mercado com o bonde andando. Hoje uma referência nas gravações e mixagens do forró feito para paredão, ele decidiu refinar o trabalho que era feito de maneira simples por pessoas como Black CDs.

“Eles não pegavam o áudio cru, não criavam o áudio, só remixavam e colocavam em execução no mercado”, diz Jordy. “Alguns ficavam bons, já em outros não dava certo. A minha ideia era justamente criar algo que não desse errado. Pensei em construir do zero.”

Ele se inspirou em Romim Mahta, cantor que se apresenta com a banda Forró Estourado e foi pioneiro em produzir discos com o médio grave em destaque, na virada para os anos 2010. Na época, diz Jordy, esse tipo de som não era bem-visto na indústria, sobretudo entre profissionais de estúdio. “Eles não aderem muito a essa ideia por achar que foge dos padrões. É distorção, meio que só rola em paredão e tal.”

Se firmou naquela época uma tradição que, de diferentes formas, segue até hoje. O mainstream forrozeiro, formado por artistas de alcance nacional, como eram os Aviões do Forró, por exemplo, aderiu a esse estilo de mixagem em produções paralelas aos trabalhos principais.

Saíam duas versões dos CDs uma voltada para o rádio e consumo caseiro, e outra com os médio graves realçados para os paredões. Hoje acontece algo parecido no streaming, com a mixagem mais comportada indo para serviços maiores, como o Spotify, enquanto a agressiva chega ao Sua Música, plataforma brasileira popular no Nordeste.

Jordy fez seu nome trabalhando tanto com artistas de obra voltada aos paredões quanto produzindo essas mixagens paralelas, mas de maneira oficial. “Se eu queria aumentar só a caixa, não tinha esse recurso na época”, diz. “Agora posso trazer o projeto para o estúdio. Gravo em multipista [com cada fonte sonora em faixas separadas] nos shows e também direto no estúdio, depois faço a mixagem com calma para poder aprimorar.”

Com a evolução das tecnologias, passou a ser possível mexer em frequências e instrumentos específicos na mixagem, e os sistemas de som passaram a ter caixas próprias para dar conta dessas sonoridades.

“O grande diferencial hoje é o som ser todo divididinho e ter a flexibilidade de tocar vários ritmos musicais sem nenhuma perda na qualidade”, afirma o técnico de som. Para ele e para Rob Som, hoje os paredões feitos no Ceará são adequados para tocar qualquer estilo musical, como o funk de Rio de Janeiro e São Paulo. Há exceções, como Goiás, em que se ouve a música eletrônica internacional e o destaque fica nos graves.

Há cerca de 30 anos, diz Rob Som, quando ele começou a trabalhar com os paredões, havia uns dois ou três CNPJs desse tipo de empresa no Ceará, que se tornou polo de confecção desses sistemas de som. “Hoje temos 1.800 CNPJs cadastrados somente aqui no estado.”

Atualmente, um paredão de som tem sua estrutura dividida entre as caixas de grave, as de médio grave, os tweeters e as cornetas. Cada um desses grupos pode ter dezenas de caixas, que também podem variar de tamanho.

Rob Som mostrou à reportagem um sistema de mais de quatro metros de altura que está construindo. Eram 70 caixas de médio grave para 24 de grave. O projeto saiu por R$ 5 milhões.

“O grave é responsável por aquela pancada que você sente no peito, onde fica o contrabaixo”, diz Jordy. “O médio é onde sai a voz, o som da caixa [da bateria], a guitarra e a batida seca de conga que tem no funk. A corneta traz a agressividade, a sujeira do som, que dá dor no ouvido. É onde está a parte alta, gritada da voz, além do acordeom e um pouco da guitarra. Nos tweeters, saem o som do chimbal [da bateria], o S da voz e eles dão brilho ao som.”

Nessa arquitetura sonora, artistas pop nem sempre se destacam. A pisadinha feita no teclado, como no caso de João Gomes, não soa tão bem no paredão, eles afirmam. “Não tem gravação pior que a de Nathanzinho Lima”, diz Rob Som, citando um dos mais famosos cantores de forró atual.

Por outro lado, nomes como Rey Vaqueiro e Forró Medôin estão em alta nesse circuito. “Quando um disco toca bem em um paredão, é uma espécie de de um trabalho orgânico —ele se espalha por si só”, afirma Jordy.

Com a ascensão do som do médio grave, até mesmo vídeos antigos de Junior Vianna, um dos cantores que se destacou na década passada com a chamada “caixa cachorro” outro apelido para o “buh” voltaram a viralizar na internet.

No YouTube, muitas faixas miram essa estética com títulos como “caixa alterada”, “lenhada de médio grave”, “lapada de médio grave” e por aí vai. Também é possível achar clássicos antigos dos Aviões do Forró nessa mesma pegada, com os nomes de “relíquias” ou “baú” —alguns com a vinheta de Black CDs.

Ainda hoje, Jordy conta que faz versões alternativas de músicas de gigantes do forró para os paredões, a pedido desses artistas, e remunerado por eles. Mas as músicas são publicadas apenas em seu próprio canal, e não nas páginas oficiais dos cantores.

Considerado sujo e agressivo demais para o mainstream, esse forró de paredão com o médio grave em destaque agora ganha visibilidade nacional através de Filho do Piseiro.

É uma mudança de paradigma para Jordy, que no fim da década passou chegou a cogitar desistir. “Não de fazer o que faço, mas de fazer disco para paredão, porque parei para pensar que nunca veria um álbum meu com essa caixa alterada tocando na TV ou numa rádio”, afirma. “Só que Deus é tão bom, e eu tinha tanta convicção, que pensei vou persistir nisso, vai dar certo. Hoje o Filho do Piseiro é prova viva disso.”

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