Candidato a revelação do Brasileiro traça meta e cita distância de redes
Por Thiago Rabelo/Folhapress em 28/01/2026 às 10:03
Pedro Morisco tem reflexões interessantes para um jogador de 22 anos. Talvez isso explique por que ele é o goleiro titular mais jovem entre as 20 equipes que iniciam o Campeonato Brasileiro nesta quarta-feira. Nascido em 2004, ele é quatro anos mais novo que Gabriel Brazão, do Santos, e cinco que Hugo Souza, do Corinthians, os outros dois com menor idade na Série A.
Candidato a revelação do Brasileiro de 2026, ele é o principal nome no Coritiba, que retorna à elite do futebol nacional após o rebaixamento em 2023 e duas temporadas na Série B do Brasileiro. O precoce sucesso do jovem goleiro, que será titular na partida de estreia da equipe contra o RB Bragantino, no Couto Pereira, chega a surpreendê-lo, que esperava receber as primeiras chances só em 2030, quando completasse 26 anos.
“Meu sonho era ser profissional no Coritiba e jogar no Couto Pereira lotado. Mas eu tinha dúvidas se um dia eu ia viver essa emoção porque a vida do goleiro é difícil. Na minha cabeça, eu só ia jogar aos 26 anos. É difícil ser goleiro, sempre tem muita gente na sua frente. Mas para ser goleiro você tem de ser bom e ter muita sorte também”, explicou o goleiro à reportagem.
Apesar de creditar as chances que recebeu no time titular como sorte, Morisco fez por onde para ganhar as oportunidades. A decisão pela promoção, em 2023, no jogo contra o Botafogo, veio de Thiago Mehl, preparador de goleiros da equipe, que o comparou a outros profissionais com quem trabalhou no Athletico Paranaense, Vasco e seleção brasileira de base.
“Eu já trabalhei com vários grandes goleiros como Santos, Weverton, Martin Silva, mas o Morisco é o melhor de todos eles. Ele é um fenômeno e que impressiona no dia a dia. Quando ele subiu, ele chegou já intimidando. Ele não falava que era melhor que os outros, não era arrogante, mas ele mostrava que era muito melhor que os outros. Ele tem desafios pessoais. Enquanto os goleiros pegavam três chutes de seis no treino, ele pegava os seis. É um desafio dele mesmo e isso vai intimidando os concorrentes na posição”, contou Thiago Mehl.
Promovido ao profissional em 2023, disputando os três jogos finais do Coritiba na Série A antes do rebaixamento, Morisco teve oscilações com o clube, mas depois conseguiu se firmar como um dos xodós da torcida no último ano. Ele foi o destaque na campanha do acesso, titular em 30 dos 38 jogos da equipe e sem sofrer gol em 18 dessas partidas.
O bom desempenho despertou a atenção de equipes de maior poder financeiro no Brasil, com sondagens de Flamengo, RB Bragantino, Bahia e Grêmio. Mas ele prefere se manter distante dessas negociações e do rótulo de candidato a promessa do Brasileiro:
“Eu não gosto de pensar nesta expectativa porque isso te coloca um peso desnecessário. Mas eu gosto desse sentimento porque as pessoas começam a esperar algo de você. É sinal de que meu trabalho tem sido bem feito. Eu prefiro não falar e não pensar nessas notícias (sobre transferência). Meu foco está no Coritiba e no meu amor tremendo pelo clube”.
Nos últimos anos, Morisco tem se afastado das redes sociais. As críticas dos torcedores na internet começaram a incomodar o jogador, que chegou a ter dúvidas sobre o seu potencial para ser titular.
“Eu tenho me desligado cada vez mais da rede social desde o ano passado. O início foi bem complicado. Eu tentava largar, mas ainda ficava acompanhando. Eu queria saber o que as pessoas pensavam de mim e isso é muito ruim. Eu fiquei muito mal quando a gente perdeu na Copa do Brasil para o Águia de Marabá (em 2024). Muita gente dizia que eu não estava preparado para ser o goleiro titular do Coxa, que eu era muito jovem. Eu fiquei pensando nisso. Será que consigo jogar uma Série B? Mas agora eu consigo não ler as coisas e isso me ajudou muito. Eu sei que cometo falhas, mas eu sei o que eu preciso melhorar. Ser forte mentalmente é uma qualidade que eu tenho”, contou.
Desde 2024, o Coritiba implementou no clube a função de analista específico, com a contratação de Rafael Militão. A medida tem recebido elogios e também uma melhor preparação para os goleiros do clube:
“É um trabalho diferente que o Coritiba faz. Toda semana a gente tem reuniões e eu recebo um relatório bem detalhado dos adversários e também sobre o meu trabalho e meu posicionamento. Este relatório tem todas as informações que você possa imaginar”.
Criado no Coritiba, Pedro Morisco está no clube desde os nove anos de idade. Além de entender o lado do torcedor, ele também busca tentar passar um legado aos mais jovens, assim como Wilson e outros goleiros experientes fizeram no período em que ele jogava na base da equipe.
“Eu fui criado no clube, estou aqui desde criança. Eu acho bom ter essa conversa com os mais novos, tentar ajudar. Eu ganho muita luva da patrocinadora. Então eu pego umas que ganho ou algumas que já estão desgastadas e dou para os mais novos. É muito bom ver isso, você vê que o menino fica feliz da vida. Muitos deles não têm condição de comprar uma luva. O Wilson e o Gabriel Vasconcelos fizeram isso comigo. Eu tenho até nesta quarta-feira (28) essas luvas guardadas. Isso dá uma motivação maior para quem está começando”, disse.
Ao contrário do ano passado, quando era um dos favoritos ao acesso e conseguiu o objetivo, o Coritiba começa o Campeonato Brasileiro em desvantagem em relação aos adversários com maior poderio financeiro. Mesmo assim, Morisco não vê o clube em situação desfavorável no torneio e traçou uma meta ousada.
“Eu tenho minhas metas. Eu quero ser o goleiro com o maior número de clean sheets (jogos sem sofrer gol) do Brasileiro. Eu quero bater o meu recorde do ano passado de 18 partidas. E no fim das contas, são 22 jogadores em campo. Todo mundo aqui jogou em time grande e tem potencial. A gente tem de acreditar, se não quem vai acreditar em nós? Nós temos de trabalhar para conquistarmos nossos objetivos”, finalizou.