Alinhamento de cada prédio torto em Santos pode custar até R$ 22 milhões
Por João Pedro Feza/Folhapress em 27/04/2026 às 10:00
Realinhar prédios tortos de Santos, no litoral de São Paulo, teria um custo estimado entre R$ 7 milhões e R$ 22 milhões cada um, estima a Acopi (Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados).
Causado pelo solo arenoso e fundações insuficientes nas construções, o problema vem desde a década de 1950, quando a cidade da Baixada Santista vivenciou seu primeiro grande impulso imobiliário.
Ao todo, 319 edifícios apresentam alguma inclinação em Santos. Desses, 65 são casos mais acentuados (com até 2,2 graus) –dos quais 64 estão na orla. No momento, 37 estão associados à Acopi, que atua para ter mais adesões.
Fundada em 2024, a Acopi atua com apoio da prefeitura no objetivo de conseguir financiamento a longo prazo. O foco é o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que aguarda apresentação formal de projetos.
“Sabemos que há soluções em engenharia, mas a engenharia financeira é a complicada”, afirma a presidente da Acopi, Eliana de Mello. “Apesar de os prédios inclinados serem quase um cartão postal, há a necessidade de tomarmos providências.”
Monitorados pela prefeitura por meio do Pisa (Programa de Prédios Inclinados de Santos), os imóveis não oferecem riscos imediatos, conforme atestam inspeções e medições estruturais periódicas, mas os desafios são diários.
Um exemplo, segundo a presidente da Acopi, é o alto custo de manutenção dos elevadores. “Eu mesma moro no Condomínio Conjunto Tertúlia [bairro do Gonzaga], um dos prédios inclinados, onde sou síndica. Temos seis elevadores em cada uma das duas torres e a manutenção mensal dos equipamentos chega a R$ 12 mil.”
“Elevador foi criado para andar verticalmente, não inclinado. Com certeza o custo de manutenção seria menor se não houvesse o problema e nem sequer precisaria ser mensal”, acrescenta. Como consequência, o condomínio também fica mais caro. “No nosso caso, é de R$ 2.000 por mês.”
Gavetas que abrem sozinhas e dificuldades para escorrer água até os ralos são outros episódios que fazem parte da rotina dos moradores. Reuniões com eles ocorrem desde 2024, e uma nova rodada está confirmada para 11 de junho, às 19h, na Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos.
O engenheiro Paulo Pimenta, que apoia a Acopi, integrou a equipe técnica de reaprumo dos dois blocos do Condomínio Núncio Malzoni, na orla do bairro Boqueirão –único corrigido até hoje, entre 2001 e 2011, com recursos dos próprios moradores.
Uma das técnicas foi a implantação de estrutura secundária externa com estacas de concreto nas laterais do bloco A e profundidade de 56 metros. O custo total na época foi de R$ 1,5 milhão (cerca de R$ 90 mil para cada apartamento).
“Cada prédio é um caso: há largos, estreitos, com muitos andares, com poucos pilares. São variáveis que entram na solução final”, diz Pimenta.
Resolvida a desvalorização imobiliária, que chegava a 50% na época da inclinação, um apartamento de 147 metros quadrados no Malzoni hoje é anunciado em imobiliárias da cidade por R$ 1,6 milhão.
Problema histórico
Diretor de relações institucionais da associação, Fernando Borelli explica que o reaprumo ocorre sem que os moradores precisem deixar os apartamentos. “Sabemos que as técnicas para esse serviço, que incluem uso de macacos hidráulicos, estão avançadas.”
Questionado se não valeria mais a pena demolir e construir um novo no mesmo local, Borelli concorda que a resposta pode ser “sim”, mas que tal medida precisa contar com 100% de aprovação dos condôminos.
“Por diferentes motivos, como questões documentais, familiares e até apego pessoal, não temos essa unanimidade em nenhum prédio.”
Em nota, o BNDES informa que “aguarda a apresentação formal de projetos pela Prefeitura de Santos conforme as regras do banco para apoio a municípios”.
Afirma, ainda, que o ente público (prefeitura) deverá detalhar, entre outros itens, “o projeto de engenharia (para obras civis), orçamento, cronograma físico-financeiro e aspectos jurídicos como regularidade fundiária e licenciamento ambiental”.
O prefeito Rogério Santos (Republicanos) diz que mantém um canal de diálogo com a associação e o BNDES. “É um problema histórico”, afirma. “Esses prédios fazem parte da nossa paisagem urbana e, uma vez arrumados, podem valorizar a cidade como um todo.”
Paralelamente, o BNDES financiará R$ 200 milhões para Santos investir em adaptações às mudanças climáticas. Na prática, o dinheiro será usado em obras de combate ao avanço do mar, redução de alagamentos e proteção da orla.