28/01/2026

'A Voz de Hind Rajab' não deixa morte de menina palestina ser silenciada

Por Patrícia Campos Mello/Folhapress em 28/01/2026 às 12:22

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Em muitos filmes, cenas e imagens se eternizam na consciência do público. Em “A Voz de Hind Rajab“, são os sons dos pedidos de socorro de uma menina palestina de 5 anos que jamais silenciarão.

Usando gravações das conversas entre a menina Hind Rajab e atendentes do centro do Crescente Vermelho Palestino em Ramallah, a diretora e roteirista tunisiana Kaouther Ben Hania reconstrói o horror de 29 de janeiro de 2024 que teve repercussão mundial na época, mas logo acabou esquecido em meio à matança crescente no conflito em Gaza.

Naquele dia, Hind viajava com quatro primos e seus tios para o norte da cidade de Gaza, seguindo as orientações de evacuação das forças israelenses. O carro da família Hamada foi atingido e os tios e três dos primos morreram. Sobraram Hind e Layan, sua prima de 15 anos, que falou com o serviço de resgate do Crescente Vermelho. A ligação não durou nem um minuto, porque o veículo foi alvejado novamente e Layan morreu.

O atendente do Crescente Vermelho consegue entrar em contato com Hind, a única sobrevivente no carro. Ela implora para ser resgatada.

Para reconstituir a tragédia, a diretora usa trechos das gravações originais das conversas pelo celular de Hind com os atendentes da ONG palestina, ao longo das excruciantes três horas e meia em que a menina estava dentro do carro com seus familiares mortos, cercada por tanques israelenses abrindo fogo.

As forças israelenses (IDF, na sigla em inglês) invadiram Gaza após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, que deixaram mais de 1.200 israelenses mortos. De acordo com o ministério da Saúde de Gaza, mais de 73 mil pessoas foram mortas no território desde então, sendo mais de 20 mil crianças.

“Vem me buscar. Por favor. Estou sozinha. Vem agora”, diz Hind no filme, para um dos funcionários do centro do Crescente Vermelho em Ramallah, que fica a cerca de 83 quilômetros de Gaza.

Rana, uma das atendentes, tenta tranquilizar a menina, dizendo que seus tios e primos estavam cansados, dormindo.

“Eles estão mortos. Só tem corpos aqui. Minha família toda. Todo mundo morreu”, responde Hind.

No filme, veem-se apenas os atendentes na sala de controle do Crescente Vermelho e fotos de Hind mostradas por eles. O que está acontecendo em Gaza naquele momento vai sendo imaginado por quem assiste ao filme.

A sensação de urgência se exacerba na medida em que a voz de Hind vai ficando mais fraca e ecoam tiros e explosões ao fundo. A menina estava ferida e sangrava.

“O tanque está perto de você?”, pergunta uma atendente angustiada.

“Sim”, diz Hind, com um fiapo de voz.

“Está se movimentando?”

“Sim, está vindo, em frente de mim.”

A ambulância do Crescente Vermelho está a apenas oito minutos do posto de gasolina onde está o carro. Mas os socorristas não podem sair até que tenham sinal verde das forças israelenses, que garantiria sua segurança. A menina não entende por que está demorando tanto para alguém ir buscá-la.

“Aqui no Crescente vermelho, eu, meus irmãos e irmãs temos um pai, e os soldados nos tanques também tem um pai. O nosso pai precisa falar com pai deles, para a gente poder mandar nosso irmão te salvar e o filho deles não atirar”, tenta explicar Rana.

“Mas agora eles estão atirando…”, diz Hindi.

A certa altura, o coordenador, Mahdi, mostra uma série de fotos de socorristas que foram mortos pelas forças israelenses.

“Tenho que seguir à risca esse procedimento, senão podem atirar em nossas ambulâncias e dizer que foi nossa culpa”

Depois de horas, finalmente as forças israelenses autorizam que os socorristas saiam para o resgate. Mas a ambulância nunca chegou até Hind.

Só ao final vemos imagens reais de como ficou o carro da família Hamada, atingido por mais de 350 tiros, e a ambulância calcinada, destruída por munição pesada disparada de tanques, segundo seis especialistas ouvidos pelo Washington Post. A ambulância estava a 50 metros do carro.

A diretora Ben Hania opta por um híbrido entre documentário e reconstituição. Atores interpretam os quatro funcionários do Crescente Vermelho que atuaram na tentativa de resgate e conversam com a voz real de Hind obtida nas gravações. Em determinado momento, imagens em um celular mostram o vídeo real dos socorristas naquele instante, gravado pela equipe de mídia do Crescente Vermelho. Wesam, a mãe da menina, é entrevistada no final.

O filme, vencedor do Leão de Prata do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, foi o mais ovacionado da história do festival —o público aplaudiu, de pé, durante 23 minutos.

Os atores Brad Pitt, Rooney Mara, e Joaquin Phoenix, além dos diretores Alfonso Cuarón e Jonathan Glazer, tornaram-se produtores-executivos do filme.

É o representante da Tunísia na disputa de uma vaga para concorrer ao Oscar de melhor filme internacional, concorrendo com “O Agente Secreto”.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) não admitiram seu envolvimento nas mortes de Hind, sua família e os paramédicos. Em um comunicado, o IDF afirmou que suas forças “não estavam presentes perto do veículo ou dentro do alcance de disparos” do carro da família Hamada. As forças disseram, também, que não passaram aos socorristas uma rota segura para ambulância, nem deram o sinal verde, porque não tinha sido necessário.

Mas reportagem do Washington Post mostrou, a partir de imagens de satélite, documentos e depoimentos, que havia ao menos quatro tanques a uma distância de 300 metros do carro onde estava a família morta e que os danos nos veículos condizem com munições usadas pelas forças israelenses.

A reportagem relata também que um membro da divisão do Ministério da Defesa de Israel que faz a coordenação para tráfego de ambulâncias confirmou ter repassado aprovação de rota e sinal verde para a ambulância.

Um relatório da Comissão Independente da ONU para Investigação no Território Palestino Ocupado, publicado em setembro de 2025, concluiu que “as forças de segurança israelenses tinham conhecimento claro da presença de civis palestinos ao longo das rotas de evacuação e dentro das áreas seguras, mas, mesmo assim, atiraram e mataram civis.” O relatório inclui o caso de Hind Rajab como exemplo.

A voz de Hind Rajab

  • Avaliação: Muito bom
  • Quando: Qui. (29)
  • Onde: Nos cinemas
  • Classificação: 14 anos
  • Elenco: Amer Hlehel, Clara Khoury, Motaz Malhees
  • Produção: Tunísia, França, 2025
  • Direção: Kaouther Ben Hania
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