Pais enlutados pelo suicídio dos filhos encontram forças em grupos de apoio
Por Noelle Neves em 01/09/2021 às 06:00
13 de março de 2014. Quinta-feira. Ivo Oliveira Farias acordou cedo e seguiu em direção à casa da ex-esposa para ver os filhos. Apesar da separação, o contato com os três filhos era bem próximo. Com a filha mais velha, Ariele, ainda mais. O sonho da menina era seguir a carreira do pai e ser oficial de justiça, inclusive, já até o ajudava com certidões digitais.
Além de matar a saudade, o motivo do encontro foi levar a CPU do computador do filho mais novo para o conserto. Ariele o acompanhou e passaram boa parte do dia juntos. Fizeram uma refeição caprichada, com direito à sobremesa, e conversaram sobre planos de fim de semana. A jovem contou sobre o quanto queria tirar a carteira de habilitação e cursar Direito. O momento familiar durou até mais ou menos 15h30. Esta foi a última vez que Ivo a viu.
“Eu recebi a ligação no fim do dia. Fui correndo para lá e, quando cheguei, tentei reanimá-la, sem sucesso, durante 30 minutos. Só parei, porque estava exausto. Hoje em dia, eu reconheço que ela já estava morta mesmo e não havia mais o que fazer. Mas a gente sempre tem uma esperança”, disse em entrevista ao Santa Portal.
Para Ivo, não houve sinal algum. Ariele sempre foi muito quieta e calada. Posteriormente, a família encontrou um bilhete que dizia que não tinham culpados e que era melhor estar morta do que causar decepções; e os materiais que foram usados no planejamento do suicídio. “Ela se despediu normalmente de mim naquela quinta-feira, mas planejou tudo. Pelo menos, acreditamos nisso, pelos indícios que achamos”, lembrou.
Já no caso da aposentada Maria Cristina da Silva Miguel, sua filha, Mariana, fez tratamento psiquiátrico e psicológico dos 14 aos 19 anos. O cuidado era tanto, que no período em que esteve depressiva, nunca ficou sozinha em casa.
Quando a jovem completou 20 anos, pediu a mãe para morar em São Paulo. “Ela era Cosplayer e tudo aconteceu lá. Começou a dividir um apartamento com uma amiga, fazia faculdade de fotografia, estava namorando… Mas no dia 26/01/2013, ela desistiu de viver”, contou Cristina.

Ressignificação para os pais
Por ano, mais de 2 milhões de pessoas são diagnosticadas com depressão, o que torna a doença muito comum. O transtorno pode atingir pessoas de qualquer idade e consiste em perda ou diminuição do prazer e interesse pela vida. Embora seja uma doença psicológica, depressivos sofrem com baixas no sistema imunológico e aumento de processos inflamatórios.
Para aceitarem a perda dos filhos, que sofreram por conta do transtorno, Ivo e Cristina recorreram a grupos de apoio a pais enlutados e a tentantes.
“Nos primeiros dias, foi tudo muito difícil. Eu gritava. Não consigo chorar. Só tive oito dias de licença. Acordava de madrugada e me dava conta que não era um pesadelo, era vida real. Depois de duas semanas, fiquei sabendo de uma irmã de uma colega de dança de salão, que também perdeu o filho para o suicídio, que existiam grupos de apoio. E comecei a frequentar. Foi muito bom. Ali a gente lida com outras pessoas enlutadas como eu, e consegui me situar melhor”, contou Ivo.
“Nós, mães que perdemos um filho, ficamos meio que isoladas, perdemos amigos, família, muitas vezes não somos convidadas para reuniões. Os amigos que estavam no velório e me deram um ombro naquela hora, nunca mais se fizeram presentes. Então, nada como os grupos para nos ajudar a seguir a vida”, reforçou Cristina.
E foi em um deles, no Vita Alere, que a história dos dois se cruzou. E encontraram um no outro e em outros pais, a força para seguir. Hoje, Cristina e Ivo se tornaram ativistas da causa da Prevenção e Posvenção ao Suicídio.
“O luto de um pai e de uma mãe é algo insuperável. É um luto pelo resto da existência. A perda de um filho para o suicídio ainda mais… Agrega dois fatores devastadores em termos de dor e torna tudo mais dilacerante. Essa foi a forma que encontrei para ressignificar minha existência“.

Luta em Luto
Em fevereiro de 2019, foi fundado um grupo de acolhimento chamado “Luta em Luto”. As reuniões presenciais aconteceram até o início da pandemia. Agora são feitos encontros online toda primeira terça-feira do mês. Há colaboração de duas psicólogas, Ionice Lourenço e Pollyana Vicência.
Mais informações sobre as reuniões podem ser encontradas na página do Facebook e também no perfil do Instagram. Podem participar não só pais, como também qualquer pessoa que tenha perdido alguém para o suicídio.
