Depressão pós-parto traz dor silenciosa que exige acolhimento e fim dos julgamentos
Por Laura Andrade em 10/05/2026 às 07:00
A depressão pós-parto não é apenas uma tristeza passageira após o nascimento do bebê, é um sofrimento profundo que se instala e permanece. Poucas pessoas compreendem o que de fato é essa condição, e a falta de consciência sobre o tema muitas vezes impede que as mulheres busquem o cuidado necessário nesse momento tão delicado.
Segundo a psicóloga Adriana Moncorvo, os sintomas diferem das oscilações emocionais comuns do início da maternidade. No quadro depressivo, a mulher se sente atravessada por um vazio, cansaço emocional e, frequentemente, por um estranhamento de si mesma. “A maternidade chega, mas nem sempre vem acompanhada do que se esperava sentir”, explica.
Peso da idealização
Nesse cenário, o vínculo com o bebê pode não se estabelecer com facilidade, dando lugar a uma culpa insistente e à sensação de incapacidade. A idealização da maternidade atua como um silenciador: o sofrimento psíquico, a solidão e a sobrecarga da rotina, somados a relações pouco sustentadoras, intensificam o quadro.
Para lidar com essas emoções, a rede de apoio é indispensável. Contudo, essa ajuda precisa ser qualificada, pessoas dispostas a escutar sem corrigir, auxiliar nas tarefas cotidianas e, principalmente, manter-se presentes sem julgamentos. “Sem pressa de consertar, mas com disposição para estar. O tempo não é igual para todas, mas quando existe acolhimento, existe possibilidade de reconstrução”, afirma Adriana.
Tratamento
O tratamento profissional permite que a mulher se reencontre gradualmente, aprendendo a lidar com as transformações. Em casos mais severos, o acompanhamento médico inclui o uso de medicamentos.
Infelizmente, a dor ainda é frequentemente invalidada por preconceitos sutis. Muitos acreditam que a maternidade deveria ser naturalmente feliz e, ao perceberem que a mulher não reage conforme o esperado, partem para um julgamento silencioso que isola ainda mais a mãe.
“O mundo esquece de você”
Victoria Sassanovicz enfrentou a depressão pós-parto aos 22 anos. Para ela, o período foi conturbado e exaustivo. “Fui mãe muito jovem e foi um baque na minha vida e rotina. O fato de não ter estabilidade financeira prejudicou ainda mais minha saúde mental”, recorda.
Victoria percebeu a gravidade da situação ao perder 20 quilos em apenas três meses, além de desenvolver problemas estomacais ligados à ansiedade. Como já realizava acompanhamento psicológico antes da gravidez, intensificou as consultas. Na época, optou por não usar medicamentos para manter a amamentação prolongada, iniciando a medicação apenas depois.
A culpa foi um dos sentimentos mais presentes, especialmente pela dificuldade inicial em amamentar e pela sensação de imaturidade. “É como se o mundo se esquecesse de você, mas, ao mesmo tempo, condenasse todas as suas ações”, desabafa. Mesmo com uma rede de apoio sólida formada por pais e avós, a depressão foi um desafio real. “Eles me deram suporte emocional e financeiro; sem eles, acredito que não teria sobrevivido.”
Reconstrução
Durante a recuperação, Victoria encontrou refúgio nos exercícios físicos, na leitura e, principalmente, ao aprender a separar sua identidade como mulher de seus gostos pessoais da vida como mãe.
Para outras mulheres que atravessam esse momento, ela deixa um conselho: “A depressão pós-parto é silenciosa, muitas vezes disfarçada de cansaço. Saibam que tudo passa, nenhuma dor é eterna. Não deixem a culpa as derrubar”.
A psicóloga Adriana Moncorvo reforça que nada precisa ser vivido em silêncio. “Nem toda mãe se reconhece de imediato nesse papel, e está tudo bem. O vínculo também se constrói, e pedir ajuda pode ser o primeiro gesto de cuidado verdadeiro, não só com o bebê, mas consigo mesma.”