EUA não recomenda 3ª dose da Janssen, mas infectologista da região diz que doses devem ser aproveitadas
Por Marcela Ferreira em 18/12/2021 às 07:30
Médicos dos Estados Unidos votaram na quinta-feira (16) a favor de recomendar as vacinas da Pfizer e da Moderna para o reforço contra a covid-19, sobre a vacina da Janssen. Os especialistas justificaram a preferência com a menor proteção e maiores riscos. No Brasil, no entanto, é importante que a população se vacine com os imunizantes que estão disponíveis, sem preferência, segundo o infectologista Ricardo Hayden.
Nos EUA, a votação foi unânime e, oficialmente, desvia a população americana da vacina da Janssen. A decisão foi tomada após evidências surgirem relacionando o imunizante com uma forma rara de coágulos no sangue, especialmente em mulheres em idade reprodutiva, e por isso as autoridades suspenderam seu uso, e retomaram em abril. Desde então, os EUA tratam o imunizante da Janssen como terceira opção.
Outra justificativa seria que dados preliminares de testes em laboratório sugerem que a vacina tem pouca proteção contra a variante ômicron, ao menos contra a infecção.
Mortes por coágulos
Após a ocorrência de nove mortes por coágulos no sangue, os Centros de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) convocou a votação. As mortes ocorreram por coágulos com baixas plaquetas ou trombose com síndrome de trombocitopenia (TTS) até 9 de dezembro após a aplicação de cerca de 16 milhões de doses, segundo números divulgados pelo CDC.
Outras pessoas que tiveram o mesmo problema, mas não faleceram, tiveram efeitos de longo prazo, como paralisia. O risco maior foi detectado entre mulheres de 30 a 49 anos, mas não é limitado a este grupo, já que duas entre cada nove mortes ocorreram entre homens.
Mesmo assim, o comitê considerou que a vacina da Janssen deve continuar disponível para as pessoas que se recusarem a tomar os imunizantes da Moderna ou Pfizer nos Estados Unidos.
O que diz o especialista
O infectologista Ricardo Hayden explica que as vacinas da Pfizer e da Moderna têm vantagem sobre a vacina da Janssen pela capacidade de fabricação de anticorpos, de acordo com testes. Mesmo assim, ele acredita que o envolvimento com o financiamento de empresas americanas teve peso na decisão, já que a vacina da Janssen também é eficaz, apesar das adversidades.
“Inequivocamente, a capacidade de expressar a fabricação de anticorpos na média, trabalhando em todas as faixas etárias que isso foi testado, dá vantagem para as vacinas de RNA mensageiro, leia-se moderna e Pfizer. Ambas têm financiamentos de empresas americanas, uma da Pfizer e a outra tem o financiamento do Instituto Nacional de Saúde, fundação Bill e Melinda Gates, junto com uma Biotech, uma empresa de biotecnologia alemã chamada Moderna”.
“Então, são duas vacinas, assim como a da Janssen, que também têm nacionalidade americana, mas têm uma tecnologia totalmente diferente. A Janssen usa vírus vetor, assim como a AstraZeneca. Essas vacinas têm se mostrado mais reatogênicas negativas. Que pode provocar eventos adversos mais relevantes como tromboembolismo e outras coisas. E logicamente que quando você faz um vis-à-vis, isso vale muito para uma população mas não vale pra outra, porque as populações não são homogêneas, você tem respostas desiguais”, explica o especialista.
Isso significa que a decisão pode fazer sentido para a população americana, e ter mais incidência de eventos adversos, mas não necessariamente o mesmo resultado poderia ser observado no Brasil. “Por exemplo, tem trabalhos feitos na Espanha que mostram claramente que todas as vezes que você faz intercambialidade de vacinas, e você coloca a Janssen no meio, a resposta é melhor. O resultado da Espanha foi muito superior ao dado apresentado nos Estados Unidos”, exemplifica.
“A não recomendação advém muito mais da possibilidade de acidente tromboembólico numa quantidade maior, tanto que eles desaconselham também a AstraZeneca pelo mesmo motivo, mas a Janssen tem se mostrado capaz de ter bons resultados. Implica-se em fazer uma segunda dose de Janssen, coisa que não se sabia de início, porque isso tudo é muito novo. A hora que você começa a aumentar o número de pessoas que tomou aquela vacina e começa a medir o que aconteceu depois de quanto tempo aconteceu, você tem que acabar fazendo uma segunda dose daquela vacina”, diz.
“Se você tem três vacinas melhores, tem duas que se destacam, que são as duas de RNA mensageiro, Pfizer e Moderna, é óbvio que a Janssen fica por último, mas ela é uma vacina excelente. Não podemos desqualificar a vacina, ela é ótima e pode ser usada”, completa.
Ainda assim, o infectologista explica que o importante é que ninguém deixe de tomar a vacina, sendo da Janssen ou não, como primeira ou segunda dose neste caso. Além disso, ele também comentou a respeito da importância da vacina da gripe. “Ficou muito sonegada por causa desses dois anos de pandemia, mas também vale a pena insistir pela vacina da gripe”.