Viúva chama de desprezível atendente de IML que fez Pix com celular de morto em Santos

Por Eduardo Velozo Fuccia/Vade News em 10/06/2026 às 10:00

Raimundo Rosa/Arquivo Prefeitura de Santos
Raimundo Rosa/Arquivo Prefeitura de Santos

“É um ser humano sem escrúpulo, sem amor ao próximo e desprezível, porque se aproveitou de uma situação trágica para levar vantagem sobre quem não podia se defender”. O desabafo é da viúva de um homem que, depois de morto, teve o seu celular violado para a realização de um Pix no valor de R$ 7 mil. Acusado do crime, o atendente de necrotério policial Daniel Nathan Ribeiro Andrade, de 36 anos, foi preso na segunda-feira (8). Ele está lotado no Instituto Médico-Legal (IML) de Santos.

O que torna a história ainda mais repugnante é que o acusado teria manipulado o dedo do falecido para, por meio de biometria, acessar o aplicativo bancário instalado no celular e realizar o Pix para a própria conta. A participação do funcionário do IML de Santos foi descoberta pela viúva, que registrou boletim de ocorrência no 3º DP da Cidade. Ela detalhou ao Vade News como chegou ao nome de Daniel.

“O nome do atendente de necrotério apareceu no extrato bancário como titular da conta para a qual foi transferida a quantia de R$ 7 mil. Fizemos uma pesquisa no Google e apareceu que ele trabalha no IML, para onde o corpo do meu marido foi encaminhado. A partir daí, deu para entender em que circunstâncias aconteceu a operação”, disse a mulher da vítima. Ela solicitou para ter o seu nome e o do cônjuge preservados.

Entenda o caso

A viúva contou que o marido trabalhava como operador de máquinas em um terminal portuário de Santos. No último dia 15 de maio, ele saiu do trabalho às 2h50 pilotando uma moto e morreu ao se chocar contra um poste na Avenida Governador Mario Covas Junior, na Ponta da Praia. O óbito foi imediato, sendo o cadáver removido ao IML por volta das 3h30. A vítima tinha 36 anos e deixou três filhos, de 12, 10 e 4.

A notícia da morte chegou aos familiares do trabalhador às 9 horas, sendo o corpo reconhecido pelo sogro e um cunhado às 11 horas. Eles compareceram ao IML, localizado na Rua Dr. Bernardo Browne, no Estuário, e receberam os pertences da vítima, entre os quais o celular. O aparelho estava quebrado, partido ao meio, e imaginou-se que as avarias fossem decorrência do impacto da colisão da moto no poste.

No entanto, a viúva chegou a outra conclusão posteriormente, conforme declarou à Reportagem. “O atendente quebrou o telefone como forma de apagar as evidências do crime. Porém, antes deletou a conta do WhatsApp. Até por volta das 8h30, ou seja, após o meu marido já estar morto, ele aparecia on-line no aplicativo de mensagens, mas depois a sua foto do perfil simplesmente desapareceu. Não dá para saber o que mais foi excluído, porque o aparelho não liga”.

Cronologia dos fatos

O acidente fatal aconteceu na madrugada de 15 de maio, mas a descoberta da realização do Pix só veio à tona nove dias depois. Em 24 de maio, ao realizar os procedimentos de encerramento da conta do marido em uma agência do Banco Itaú, a viúva soube da operação indevida, tendo Daniel como beneficiário. A transação foi efetuada às 6h49 da data do falecimento, antes da chegada dos parentes ao IML para a formalização do reconhecimento do corpo. No dia 25 de maio, a mulher registrou boletim de ocorrência.

O delegado Wagner Camargo Gouveia capitulou o delito como peculato. Segundo o artigo 312 do Código Penal, comete esse crime o funcionário público que se apropria de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou o desvia, em proveito próprio ou alheio. A infração é punível com reclusão, de dois a doze anos, e multa.

Por envolver um atendente de necrotério policial, Gouveia acionou a Corregedoria. O órgão sensor abriu inquérito e pediu a prisão preventiva do acusado, deferida pela Justiça. O VN não conseguiu contato com a defesa de Daniel, mas o espaço segue aberto para ela se manifestar. A Polícia Civil informou em nota não compactuar com desvios de conduta e que também adotará as medidas administrativas e disciplinares cabíveis.

*Texto por Eduardo Velozo Fuccia/Vade News

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