Santos, berço do abolicionismo, tem tradição na luta contra o preconceitoREPRODUÇÃO

TRADIÇÃO - Com os acontecimentos recentes, tanto no Brasil quanto fora do país, o racismo virou uma pauta necessária. E assim como todo movimento, existe uma história por trás, uma tradição passada em diversos lugares e que pode ser revisitada ainda hoje.

Mas qual história foi vivida na cidade de Santos? É difícil contar todas, mas o historiador Sérgio Willians lembra que em 1824, José Bonifácio de Andrada e Silva, libertou os escravos da família (na imagem, a fazenda de José Bonifácio) e ainda proferiu um discurso considerado impactante na Assembleia Constituinte, denominando a escravidão como “cancro mortal que ameaça os fundamentos da nação”.

Foi um caso isolado mas que foi visto como inspiração, anos mais tarde, para os movimentos abolicionistas, que ganharam grandes proporções, já que a cidade sempre teve contato com ideias libertárias, por causa da movimentação constante de cidadãos de outros lugares do mundo no Porto de Santos.

Hoje em dia, é comum achar registros que mostram que a cidade era considerada abolicionista. Willians diz que isso aconteceu porque a maior parte dos santistas não apenas acreditava mas também colocou em prática a libertação dos escravos.

Foi assim que muitos Quilombos foram formados, como o do Jabaquara, do Pai Felipe e do Santos Garrafão. E isso foi possível não só porque os escravos eram libertos, mas sim porque tinham oportunidades.

Oportunidade essa proporcionada pelo português Benjamin Fontana, dono de boa parte das terras que ficam perto do trecho entre o Monte Serrat e os morros do Bufo e Fontana, e de todo o atual bairro do Jabaquara.

Fontana em 1886, abrigou e permitiu que os escravos fugidos do interior levantassem o Quilombo do Jabaquara. Tempos depois, o quilombo chegou a abrigar cerca de 10 mil pessoas, se tornando o segundo maior do Brasil.

Após 1888, quando houve a abolição da escravatura, os ex-moradores do Quilombo do Jabaquara, passaram a ocupar a região dos morros naquele trecho. O local foi escolhido estrategicamente para que ficassem próximo a cidade e das ofertas de trabalho.

Segundo Willians, Santos também entrou no centro do movimento abolicionista por conta do advogado Silva Jardim, um militante santista que publicava discursos acalorados que acabará indo para as páginas dos principais jornais brasileiros.

Sérgio Willians ainda destaca que não tem conhecimento de nenhuma estatua referente a um escravocrata na cidade. Mostrando assim, que Santos continua trilhando o caminho de sua origem, seguindo o seu lema: “À Pátria, Ensinei a Caridade e a Liberdade”.