"É importante reforçar o uso de máscaras para toda a população", Flávio Alcantara, patologistaReprodução Santa Cecília TV
CORONAVÍRUS - Flávio Alcântara, médico patologista clínico e pesquisador, participou do Bom Dia Cidades, da Santa Cecília TV. O profissional, que é médico-diretor do IACS (Instituto de Análises Clínicas de Santos) e médico-assistente do Hospital das Clínicas, na Capital, no Laboratório de Biologia Molecular - Divisão de Laboratório Central, também conversou com o #Santaportal a respeito das medidas para que se evite a propagação do coronavírus e o sistema de testagem para comprovação da existência da doença.

O que tem achado das medidas tomadas pelo Governo Federal contra a propagação do coronavírus?
Acho que ainda estamos navegando em um horizonte de muitas incertezas. Nós não sabemos muitas coisas a cerca da infecção e do agente. Acho que o Ministério da Saúde está tomando atitudes que parecem razoáveis à luz das informações que eles dispõem. Acho também que, talvez, a quarentena da maneira como ela está sendo feita possa sofrer alguns deparos e buscar-se uma quarentena mais focada em idosos e grupos de risco. E especialmente reforçar o uso de máscaras cirúrgicas para toda a população.

E na Baixada Santista?
Tenho visto um pouco das medidas tomadas pela Secretaria da Saúde Municipal (Santos) e tenho ficado particularmente bem impressionado com a condução. O secretário de Saúde (Fábio Ferraz), na minha impressão, está buscando fazer o melhor. Ele está efetivamente focado nesse problema, debruçado em cima disso. E estão buscando o melhor. Inclusive agora ele já tinha implamentado essa campanha via drive thru, que me pareceu bem inteligente. Agora está buscando testagem em mais larga escala. E acho que o IAC, quem sabe, vai poder contribuir com isso.

Falando em testagem, esse talvez seja o grande problema, além, é claro, do próprio vírus? Digo porque a demanda é muito grande em pouco tempo...
De fato a demanda surgiu do nada. Até pouco tempo, ninguém no mundo testava coronavírus. É um vírus novo. E, de repente, temos 7 bilhões de pessoas buscando fazer o teste. Nos dois laboratórios nos quais eu trabalho, a gente está fazendo os testes, tanto no Hospital das Clínicas, para todo o Complexo, quanto no IAC de Santos, para toda a região. O teste envolve um pouco de conhecimento mais profundo em Biologia Molecular. Não existem ainda kits comerciais padronizados para PCR (Proteína C-reativa), embora a gente imagine que eles vão chegar ao mercado brevemente. No Hospital das Clínicas, nós desenhamos os primers (iniciadores). Conseguimos o controle positivo diretamente do Centro de Virologia do Hospital Charité, de Berlim. Esse é o mesmo primer que estamos usando aqui em Santos. Então envolveu um pouco de pesquisa a gente conseguir implementar isso dessa maneira. O Sistema de Saúde tem o desafio de não ter sido montado para essa larga escala. Entáo os laboratórios de vigilância fazem um trabalho para um número infinitamente menor de amostras. E o Adolfo Lutz, conheço bem, está sobrecarregado, com dezenas de milhares de testes para fazer. Mas agora houve uma oportunidade deles automatizarem o processo e estão buscando isso. Mas é uma corrida contra o tempo.

E as curas que vêm acontecendo?
Tratamento não é minha especialidade. Sou patologista clínico, então sou um homem do diagnóstico. Acompanhando a literatura, a gente vê que a hidroxicloroquina é uma esperança efetiva. Já foi demonstrada em alguns testes clínicos ainda pouco limitados em tamanho, mas repetidamente reproduzidos em mais de um centro. Então parece que é uma medicação que vai trazer benefícios. O manejo desses pacientes em UTI, com estratégias de ventilação não exclusivamente com entubação, também tem se mostrado efetiva, com apenas cânula de oxigênio. Então tem sido melhorado o tratamento. A busca do aumento da capacidade de atendimento desses pacientes tem tido algum sucesso. Ainda assim é uma doença que vai continuar a trazer risco, mesmo nos grandes centros, para aqueles indivíduos mais idosos ou com comorbidades graves.

A doença ainda deve atingir patamares mais altos?
Não temos certeza. É uma afirmação que guarda um caráter especulativo significativo. Nós começamos, por exemplo, a fazer na região o teste na sexta-feira. Fizemos uma rotina na sexta, sábado, segunda e terça-feira. Tivemos já um número significativo de positivos nesses dias e que ainda não estão nas estatísticas. Estamos comunicando agora a Vigilância. Então a gente imagina que o número de pessoas que carrega o vírus e pessoas assintomáticas que estão normais andando pela rua, sem sentir nada, é um número bem maior do que o antecipado. Acho que o vírus já está bem espalhado entre nós. Por isso é importante que cada um de nós use máscaras para evitar que nós que não sabemos que temos o vírus o transmitamos para outras pessoas.