Briosa apresenta resgate de troféus da Fita Azul, conquistada há 60 anos


84 dias atrás
Por: Ted Sartori e Rodrigo Martins/#Santaportal - Em 29/05/2019 às 13:11
Briosa apresenta resgate de troféus da Fita Azul, conquistada há 60 anos Ted Sartori/#Santaportal

FITA AZUL - Uma grande surpresa aconteceu na comemoração dos 60 anos da conquista da Fita Azul do futebol brasileiro pela Portuguesa Santista, realizada na noite desta terça-feira (28), no salão do Conselho Deliberativo da Briosa: dois troféus alusivos àquele momento foram resgatados, incluindo o ofertado pela então CBD (atual CBF), entidade responsável pela premiação, depois repassada ao jornal A Gazeta Esportiva.

Nem o presidente Emerson Coelho sabia das buscas. Apenas tomou conhecimento na hora do evento. O jornalista Walter Dias e o pesquisador José Roberto Brandi, vice-presidente da Assophis (Associação dos Historiadores e Pesquisadores do Santos Futebol Clube), guardaram segredo até o último instante a respeito da descoberta histórica. "Comentei a história com ele, que correu atrás", contou Dias.

Em meio às pesquisas sobre a Fita Azul de 1972, recebida pelo Santos, para o livro Memorial das Conquistas - A sala de troféus do Santos Futebol Clube, escrito por Brandi e pelo jornalista Fernando Ribeiro, o pesquisador descobriu, ao ver fotos de uma matéria antiga de jornal, troféus que eram os do feito da Briosa. Eles estavam em uma associação ligada a uma pastoral em uma comunidade de São Paulo na qual Filpo Nuñez, técnico argentino da equipe rubro-verde na famosa excursão, morou por alguns anos - ele morreu em 1999.

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As peças, porém, eram de posse da viúva do treinador. Brandi, então, procurou pessoalmente o pastor Carlos, responsável pela entidade, e explicou a história. Foram meses de negociações e conversas.

A ideia inicial era o empréstimo das taças, visando o aniversário de 60 anos da Fita Azul, além de fotografa-las. Porém, a viúva autorizou a doação do material, incluindo artigos pessoais de Filpo Nuñez, como placas de homenagem e até uma réplica da Taça de Portugal de 1961, conquistada pelo Leixões, que o argentino dirigia na ocasião, diante do Porto.

"Foram até noites sem dormir, se ia ou não chegar o material. Tudo chegou em uma caixa e estamos muito felizes", revela Brandi.

A Fita Azul
A marca da Portuguesa Santista foi atingida durante excursão para a África, entre abril e maio de 1959. Na ocasião, a Portuguesa Santista obteve 15 vitórias em 15 jogos, conquistando 11 taças de prata e outras premiações.

A campanha que rendeu a Fita Azul para a Briosa foi a mais vitoriosa da história do futebol brasileiro, ao lado da do Corinthians, que havia tido o mesmo retrospecto em 1952, quando excursionou por Turquia, Suécia, Finlândia e Dinamarca.

O time-base foi formado por Grilo, Guilherme, Gonçalo, Valdo, Nenê, Perinho, Atílio, Bota, Jorge, Pichú, Chamorro, Nivaldo, Raul, Gerolino, Carlito, Adelson e Nicola. "Tinha 19 para 20 anos e acabado de sair do Exército. Conhecia o Estado de São Paulo e, quando fui relacionado, foi o máximo. Até os veteranos ficaram muito satisfeitos", lembra Adelson, atualmente com 80 anos e que esteve presente na homenagem ao feito da Briosa.

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Reprodução

Na chegada a Santos, a Briosa foi recepcionada com grande festa. Uma multidão tomou as ruas para ver o time, que desfilou em um carro de bombeiros. Foi um momento inesquecível, tanto para os jogadores, que foram responsáveis pela conquista, quanto para a Portuguesa Santista, que ganhou mais destaque com o título. "O Cais de Santos era um formigueiro. Acho que nem o Santos conseguiu isso em uma volta de excursão, até porque aquele time ganhava tudo", relembra Adelson.

Contra o Apartheid
Durante a excursão que fez ao continente africano, em 1959, a Portuguesa Santista tinha a África do Sul no seu itinerário. Na época, o Apartheid, regime de segregação racial, estava em pleno vigor naquele país. Dentre outros adversários, a Briosa enfrentaria, na Cidade do Cabo, um combinado do município. Com problemas para desembarcar logo que chegou ao seu destino, as coisas só pioraram antes do início do jogo.

Já no vestiário, prontos para a partida, os jogadores Nenê, Bota e Guilherme foram impedidos de entrar em campo por serem negros. A diretoria da Briosa bateu o pé e disse que só aceitaria disputar a partida se o trio também pudesse jogar.

"Houve uma passagem com os três em que eles foram ao hotel - eles ficavam no navio - para uma refeição e foi avisado que eles não comeriam junto com os hóspedes em função da cor. Então falaram ao comando da excursão para que levassem eles para que comessem na cozinha, no refeitório dos empregados. Um troço degradante", conta Adelson.

Sem acordo, a Portuguesa Santista não entrou em campo, seguiu viagem para disputar jogos em outros países africanos, e teve sua atitude apoiada pelo então presidente brasileiro Juscelino Kubitschek. Pela primeira vez, o Brasil se posicionava oficialmente contra o Apartheid. O clube rubro-verde, por outro lado, entrava para a história do esporte brasileiro e sua postura teve repercussão mundial na época.

"É o maior orgulho que a Portuguesa tem, não só como campeonato como posicionamento político. Para nós, algo muito bom. Para o mundo, muito ruim. Mas só tenho a agradecer e comemorar", afirma o presidente Emerson Coelho.