Entrevista: "Ser mãe foi uma opção de vida", Carla Greco, atleta de frescobol


127 dias atrás
Por: Ted Sartori/#Santaportal - Em 12/05/2019 às 09:37
Entrevista: "Ser mãe foi uma opção de vida", Carla Greco, atleta de frescobol Arquivo pessoal

DIA DAS MÃES – Imaginem uma esportista que interrompe por quase duas décadas sua trajetória de sucesso nas competições da modalidade para ser mãe. Foi o caso da santista Carla Greco, então com 29 anos e pentacampeã brasileira de frescobol na década de 1990. Nasceram Fabio, atualmente com 19, e Marina, com 16, filhos com o canoísta Fábio Paiva. Eles são divorciados, mas trabalham juntos na Canoa Brasil e seguem amigos.

Há quatro anos, a atleta retomou a carreira e seu maior título depois do retorno foi a quinta colocação na categoria Dupla Mista Profissional no Mundial de 2017, em Macaé, no Rio de Janeiro, com o parceiro Maurício Neto, dentre 29 equipes mistas. Nesse período, veio o Bolt, de dois anos e meio, o cão da raça Golden Retriever também considerado por ela um filho.

Como homenagem ao Dia das Mães, o #Santaportal conversou com Carla Greco para que relembrasse todos estes momentos inspiradores e emocionantes em sua vida pessoal e carreira no esporte.

#Santaportal: Como foi isso?

Carla Greco: Foi uma opção de vida mesmo. Não queria fazer esporte um pouquinho e um pouquinho ser mãe. Queria ser totalmente mãe. Há pessoas que continuam praticando esporte e acho mega bacana, mas eu não consegui porque eu queria ser a primeira na papinha, na escola, nas festinhas... Queria ser realmente a referência dos meus filhos em tudo e precisei me dedicar.

Santaportal: Quando você decidiu ser mãe, demorou muito entre o pensar e o agir em definitivo? Por que você tomou essa decisão? Houve pressão sua ou da família?

CG: Quando eu conheci o Fabio Paiva, em pouco tempo nós dois tivemos o mesmo desejo: ter um filho. Tomei a decisão porque tinha 29 anos, momento adequado para uma gestação saudável e porque tinha um parceiro que estava no mesmo momento que eu. Jamais teria um filho tomando uma decisão sozinha. Seria como enganar alguém, colocando essa pessoa refém de uma situação inesperada.

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Santaportal: Tentaram demovê-la da ideia de abandonar o esporte?

CG:
Eu estava finalizando a participação no quinto circuito Brasileiro de Frescobol. Eu precisava de um segundo lugar na última etapa para garantir os pontos para a conquista do pentacampeonato Brasileiro. Sabia disso. Eu engravidei mais rápido do que eu imaginava e, então, autorizada pelo meu médico – Dr. Alexandre Silva e Silva, que me monitorou durante o campeonato -, eu participei grávida e garanti o pentacampeonato, junto com o meu parceiro Eduardo Fernandes. Neste momento, eu já estava muito mais envolvida com a minha gestação do que com o meu esporte. Foi automático: eu não sofri, não senti falta, não percebi a transição, porque a sensação de estar grávida era soberana. A partir desse momento, minha única curiosidade era saber dia a dia o que acontecia dentro de mim, quantos centímetros ele tinha ou o que ele tinha desenvolvido. Eu estava simplesmente hipnotizada pela honra de gerar um ser humano dentro de mim.

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Santaportal: Você chegou a pensar em voltar atrás? Ou seja, chegou a bater algum arrependimento ou sofrimento em algum momento pela decisão, em especial antes do nascimento do primeiro filho?


CG: Nunca me arrependi. Não anunciei nada. Simplesmente não me inscrevi mais nas competições. Por uma coincidência, Oswaldo Felipe Junior, o grande organizador de eventos de frescobol da década de 90, parou de organizar torneios desta modalidade. Os eventos de frescobol tornaram-se espalhados, ficando mais concentrados no Estado do Rio de Janeiro. Eu não procurei mais saber de nada. Muitas vezes alguém me perguntava sobre o frescobol e eu respondia que não estava por dentro, o que era a pura verdade. Sabe, eu não sofria porque eu simplesmente virei a página de jogadora, competidora, professora de Educação Física. Eu resolvi ser mãe e ajudar o Fabio na fábrica de caiaques e logo mais com a Canoa Brasil. Eu estava aonde queria, como eu queria e da maneira que eu queria. As duas gestações foram totalmente planejadas.

Santaportal: O que a fez voltar ao esporte? Foram seus filhos também? Ou outra razão?

CG:
Filhos crescem! Tornam-se independentes. Existe uma frase assim: “Os filhos estão sempre nos planos dos pais, mas nem sempre os pais estão nos planos dos filhos”. Eu senti isso na pele. Eu já não precisava levar para a escola, ou buscar na festa ou convidar uma amiguinha ou amiguinho para brincar em casa. Eu já não precisava cuidar ou levar ao cinema para ver o desenho mais legal do momento. Eu fui me tornando obsoleta nos planos deles. Então eu percebi que precisava fazer algo para não me tornar um peso para eles. Uma vez, ouvi minha irmã Katia dizer: “A melhor herança que podemos dar para nossos filhos é não nos tornarmos dependentes deles”. Então, fui cuidar disso, fui buscar algo dentro de mim, lembrei do frescobol. Lembrei o quanto isso ficou guardado, como em uma caixa de tesouro escondida. Estou há quatro anos retomando a atividade física, obviamente não com o mesmo vigor e condições. Meu esporte não tem hierarquia de idades. Então dificulta bastante ter bons resultados. Enfrento atletas 30 anos mais novos do que eu e aposto na minha habilidade.

Santaportal: Como você definiria, agora, ser mãe e ser esportista ao mesmo tempo?

CG:
Eu nunca consegui ser as duas coisas plenamente. Quando eu era esportista, não era mãe. Quando fui mãe, não fui esportista. Hoje, sim... sou um pouquinho de cada coisa, e por isso, posso dizer que, como mãe, sou o suficiente para dois adolescentes, mas como esportista, me sinto muito mais uma incentivadora da modalidade. Porque meu parâmetro para me definir como atleta é bem diferente do que eu consigo alcançar hoje. Tenho inúmeras prioridades que me afastam dessas condições. No entanto, aproveito o restante desse vigor para participar dos eventos que posso. E tenho tido muita sorte, em ser convidada por atletas da atualidade para formar duplas provisórias e muito interessantes, entre eles: Herickson, Maurício, Wellington e Marcelo Silva (nosso atual campeão mundial). Sem contar com o meu eterno parceiro Eduardo Fernandes.


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