Rykelmo, as histórias na Briosa de um garoto que só queria vencer no futebol


195 dias atrás
Por: Ted Sartori/#Santaportal - Em 09/02/2019 às 12:37
Rykelmo, as histórias na Briosa de um garoto que só queria vencer no futebol Reprodução/Facebook

PORTUGUESA SANTISTA - Marcos Martiniano, gerente administrativo da Portuguesa Santista, acordou estranho nesta sexta-feira (8), com um mau pressentimento. Ligou a TV e, ao ver a matéria sobre o incêndio no CT do Flamengo, telefonou desesperado para Cristiano Troisi, gerente das categorias de base da Briosa. “Pelo amor de Deus, fala com o Rykelmo e veja o que está acontecendo, por favor”, disse.

Troisi tentou acalma-lo, acreditando que já saberiam se tivesse acontecido algo de pior. Então começaram os contatos. Mas o garoto de 16 anos (que faria 17 anos em 25 de fevereiro) não respondia ao celular nem no Facebook. Foi ele quem levou Rykelmo de Souza Viana para o Flamengo em abril de 2016. As peças ruins começaram a se juntar. E veio a confirmação da morte, a última dos 10 garotos vítimas do fogo nas instalações rubro-negras.

Rykelmo nasceu em Limeira, filho de Rosana de Souza e José Lopes Viana, atualmente separados. Depois de revelado pelo Metalúrgicos e de ter atuado no Independente, ambos em sua cidade-natal, chegou na Portuguesa Santista aos 13 anos, para atuar como primeiro ou segundo volante.

O garoto integrou as categorias sub-13 e sub-15 da Briosa. Nesta última, despertou a atenção de Sérgio Guerreiro, observador do Flamengo, que tinha acompanhado um dos jogos “Foi pedido para que ele passasse uma semana de testes no Rio”, lembra Wladimir Mattos, parceiro da base da Briosa. “Ele sempre repetia que buscava o sonho dele, que seria chegar em um time grande e dar condição melhor para a família dele”, emenda Martiniano.

Três garotos foram levados para avaliações no Rubro-Negro. Apenas Rykelmo passou e ficou. Um prêmio à dedicação e ao bom comportamento do menino. “Ele virou capitão do time. Um garoto exemplar, nota 1000. Nunca reclamava de nada, nunca tinha tempo ruim. Era focado e não dava problema na escola. É até difícil falar dele. Estamos arrasados”, lembra Cristiano. No ano passado, foi campeão estadual sub-16 no Rubro-Negro. No início de 2017, levantou a taça da Copa Votorantim, equivalente à Copa do Brasil infantil Sub-15.

A boa conduta não impedia que Rykelmo virasse outro garoto no gramado, como lembra Marcos Martiniano, gerente administrativo da Portuguesa Santista. “Era um menino tranquilo. A gente até brincava que era sossegado demais, totalmente diferente do que se transformava dentro de campo. Parecia que era outro que estava lá: tinha qualidade, um menino inteligente. Desde que chegou na Portuguesa, muitas pessoas o viam com grande potencial”, conta.

Exames
Quando Rykelmo e os outros dois garotos estavam prestes a ir para o Flamengo, uma correria de providências às vésperas do embarque. Dentre elas, os exames médicos. Os que a Portuguesa Santista tinha em arquivo já estavam vencidos. E era necessário fazer um eletrocardiograma, por exemplo. Porém, Alexandre Augusto Monteiro Viana, médico das divisões de base, estaria atendendo naquela noite no Humaitá, em São Vicente, em uma unidade básica de saúde.

“Colocamos todos em uma Kombi e fomos até lá. Na volta, passamos no Rio Branco, comemos uma pizza, eu, o Carlinhos, que era o motorista, e os três garotos. Demos boas risadas. Foi bem divertido. Todos eles estavam animados porque, no outro dia, fariam avaliação no Flamengo”, recorda Martinano. “É difícil para a gente que convive com a garotada. Independentemente de serem jogadores, consideramos como nossos filhos e queremos sempre o melhor. É uma realidade triste e chocante”, afirma.

Carlos Rigueiral, que trabalhou como gerente administrativo na Briosa, chegou ao clube quando Rykelmo tinha acabado de sair. Mas houve um encontro. “Um dia ele foi lá e eu o conheci. Ainda brinquei, dizendo que não queria mais vê-lo por lá, que era para que ele nunca mais voltar para a Portuguesa e arrebentar no Flamengo”, conta. Ele realmente não retornou. Brilhou o quanto conseguiu. Ficaram as saudades do garoto. E um mau pressentimento de Marcos Martiniano que, infelizmente, se confirmou.