O que esperar da nova fase da guerra do Irã
Por Fabíola Perez/Folhapress em 11/03/2026 às 16:51
A nova fase da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã anunciada por autoridades dos países envolvidos inclui promessas de “aumento drástico de poder” por parte dos norte-americanos, ameaça do Irã ao presidente Donald Trump e possíveis incursões por terra. Ao UOL, analistas internacionais explicam os rumos do conflito e as novas estratégias empregadas.
EUA e Israel anunciaram que entraram em uma nova fase da guerra contra o Irã. Segundo as autoridades dos países, a atual etapa envolve um “aumento drástico do poder de fogo” sobre o território iraniano, ataques sobre o programa de mísseis e bombardeios mais assertivos. Em contrapartida, o Irã continuará com a estratégia de retaliar aliados dos EUA para deixar a guerra mais custosa e manter o regime em pé.
Ataques mais assertivos terão como alvo a “infraestrutura do regime”, disse secretário de guerra norte-americano, Pete Hegseth. Segundo o comandante do Estado Maior das Forças Armadas dos EUA, o almirante Dan Caine, o Exército dos EUA mudará a estratégia dos bombardeios. Bombardeios em grandes ondas passarão a ataques mais precisos sobre determinados alvos.
Mudança é necessária pelos custos impostos aos EUA, diz especialista. “Ações organizadas com a inteligência americana e israelense geralmente são mais precisas e o custo de ondas muito extensas de ação é enorme”, diz Danny Zahreddine, professor de relações internacionais da PUC-MG e membro do grupo de estudos de Oriente Médio e Magreb (região norte da África). “Isso sinaliza uma diminuição da intensidade dos ataques.”
EUA não tiveram sucesso para atingir o objetivo pretendido de desmantelar o regime iraniano, dizem analistas. “A queda do regime não aconteceu como eles imaginavam e agora vão continuar buscando formas de controlar e atingir a Guarda Revolucionária”, afirma Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM. “O regime sobreviveu e está reunindo forças para esse enfrentamento”, afirma.
Aumento de poder de fogo é retórica norte-americana, acreditam analistas. “É muito mais um recurso discursivo porque a primeira semana não permitiu o avanço esperado. Os ataques já são precisos e violentos”, diz. “Os próximos seriam contra instalações de petróleo e civis e isso já começou a acontecer. A intensidade dos ataques já é elevada, percebo que a guerra continua nos mesmos termos.”
Troca de ameaças
“Trata-se de um duelo de quem vai recuar primeiro”, acredita Rudzit. Segundo o professor da ESPM, nenhuma das partes dá sinais de que está disposta a negociar. “Para Trump, negociar é um suicídio políticos depois de tudo o que ele colocou em jogo para mostrar a força dos EUA”, avalia. “Já o regime iraniano está disposto a sacrificar a população, que poderá passar fome e sede, para permanecer no poder.”
Chefe do Conselho de Segurança do Irã, Ali Larijani subiu o tom e ameaçou o presidente Donald Trump. “Cuidado para não ser eliminado”, escreveu ele, que era um dos nomes considerados para substituir o líder supremo assassinado, Ali Khamenei. O recado foi uma resposta à ameaça de Trump de atacar o Irã com uma ofensiva 20 vezes mais forte caso Teerã continuasse o bloqueio do Estreito de Hormuz.
Eleição de Mojtaba Khamenei deu um novo ímpeto ao Irã, diz Zahreddine. “A escolha de um novo aiatolá, filho de um líder martirizado, cria uma sensação de continuidade do pai pelo filho em prol da nação”, diz o professor. “Esse aspecto tem sido tratado como se Mojtaba fosse o pai 30 anos mais jovem, deu novo ímpeto ao sentimento de nacionalismo ao Irã -o que significa um movimento inverso ao esperado pelos EUA, de que o regime ficaria em ruína.”
Mais mísseis e novos armamentos
Os EUA querem desmantelar a capacidade de produção de mísseis do Irã, disse o almirante Brad Cooper, Chefe do Comando Central dos EUA (Centcom). Segundo o professor José Augusto Zague, pesquisador do IPPRI-Unesp e membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES-Unesp), o Irã tem uma elevada capacidade de produção de mísseis. “Não se sabe quanto dessa capacidade foi avariada, mas é muito difícil destruir todo o arsenal de mísseis iranianos.”
Alta capacidade de desenvolver mísseis é “grande trunfo” do Irã. “Os equipamentos produzidos pelos iranianos fazem curvas numa velocidade hiperssônica”, avalia Zague, da Unesp. Ele pontua que Israel tem o chamado Domo de Ferro -um sistema de defesa aérea projetado para interceptar foguetes, artilharia e drones. “Apesar disso, o acionamento constante das sirenes afeta psicologicamente a população.” Além disso, ele explica que os demais países do Golfo Pérsico não têm esse escudo e enfrentam dificuldades de interceptação.
Guarda Revolucionária Islâmica disse na última sexta que o país pretende introduzir armamentos mais avançados em combate. O brigadeiro-general Ali Mohammad Naeini disse que “os inimigos do Irã devem esperar golpes dolorosos” nos próximos dias. A fala ocorreu logo após o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, ter dito que o país está preparado para uma possível invasão terrestre por tropas norte-americanas.
Invasão terrestre é possível?
Trump disse que está “longe” de ordenar uma invasão por terra no Irã. Em entrevista ao jornal americano New York Post, o presidente dos EUA afirmou que falta consenso dentro do próprio governo sobre o envio das tropas, mas que a missão terrestre não deve ocorrer num futuro próximo.
Tomada do regime só ocorreria com incursão por terra, afirmam analistas. O professor Zague, da Unesp, explica que a chegada de soldados por meios terrestres faz parte da terceira etapa de um conflito. “A primeira fase costuma ser marcada pela observação por meio de satélites e aviões espiões, a segunda, por ataques aéreos e navais e a terceira, por incursão por terra.” A incursão por terra dependeria de uma espécie de coalizão entre países membros da Otan, diz professor da Unesp.
Novas estratégias em jogo
Governo Trump “tomou decisões políticas erradas” e “parece não ter estratégia”, dizem especialistas. “Não vejo uma guerra com começo, meio e fim por parte dos EUA. Trump está preocupado com a popularidade dele e como o conflito deverá se refletir internamente”, afirma Zague.
“Objetivo é destruir capacidade de produção, estocagem e mísseis balísticos do Irã como forma de justificar, mas a verdade é que eles buscam uma saída para uma condição política complexa criada com o ataque contra o Irã. O governo iraniano tenta manter a resiliência, ao mesmo tempo envolvendo os vizinhos e o mundo inteiro numa escalada do conflito”, disse Danny Zahreddine, professor de relações internacionais da PUC-MG.