Adolescentes da Fundação Casa de Guarujá se tornam pesquisadores em projeto da USP
Por Santa Portal em 07/01/2026 às 20:00
Dois jovens que cumprem medida socioeducativa na Fundação Casa Guarujá, no litoral de São Paulo, foram selecionados para atuar como pesquisadores em um projeto de iniciação científica voltado a estudantes do ensino médio. As bolsas, no valor de R$ 300, foram aprovadas em um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio da Universidade de São Paulo (USP).
Com vigência de um ano, o projeto teve início em agosto de 2025 e tem como objetivo pesquisar a exploração do trabalho infantil em Santos, a partir da realidade vivenciada pelos próprios jovens pesquisadores.
A iniciativa integra uma pesquisa mais ampla desenvolvida em Santos desde julho de 2024, intitulada “Crianças e adolescentes submetidos às piores formas de trabalho infantil em Santos: instrumentos de reordenamento do Sistema de Garantia de Direitos (SGDCA) para prevenção e priorização da proteção social à responsabilização infracional”.
O estudo é coordenado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pela Coordenadoria Nacional de Combate à Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente (Coordinfância), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por meio de edital específico.
O projeto conta ainda com a parceria das universidades Unifesp, UFABC e USP, além de órgãos como a Secretaria de Desenvolvimento Social de Santos, a Vara da Infância e Juventude, o Ministério Público do Trabalho e a Comissão Municipal de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (CM-PETI). A proposta visa ao reordenamento do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente (SGDCA) para jovens submetidos ao trabalho infantil em Santos, buscando aprimorar, de forma intersetorial, os mecanismos de prevenção e enfrentamento da violação de direitos.
Os adolescentes da Fundação Casa participam de uma das linhas de pesquisa que investiga as trajetórias de crianças e adolescentes pelos serviços socioassistenciais. A atuação envolve o compartilhamento de relatos pessoais, a análise de dados coletados e a investigação da exploração do trabalho infantil em seus territórios. Intitulada “Trajetórias de crianças e adolescentes no trabalho infantil: a perspectiva e as vozes dos que trabalham”, a pesquisa é coordenada pela professora Maria Cristina Gonçalves Vicentin, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP. Os jovens são acompanhados pelas pesquisadoras do Cebrap Marcela Garrido Reghin e Larissa de Alcantara Viana.
No primeiro estágio do projeto, os adolescentes cumprem uma carga horária de oito horas semanais, divididas entre atividades teóricas e práticas. Nesse período, são realizados dois encontros por semana com as pesquisadoras, que auxiliam os jovens na documentação de suas histórias e na relação com o objeto de estudo. Os encontros correspondem a quatro horas da carga total, sendo o tempo restante destinado à leitura e às atividades complementares, posteriormente debatidas nos próprios encontros.
A proposta prevê que, após o período de internação, os jovens deem continuidade à pesquisa, promovendo debates sobre o trabalho infantil, realizando acompanhamento etnográfico para compreender perfis e trajetórias de crianças e adolescentes submetidos a essa realidade, além de analisar os métodos utilizados pelos órgãos públicos para enfrentar e conter a escalada da exploração do trabalho infantil.
Como ação complementar, a equipe responsável pela iniciação científica, em parceria com professoras da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Camila D’Ottaviano e Fernanda Faust, e com as arquitetas Rafaela Costa e Laura Lourenção, realizou em 28 de novembro uma visita à FAU-USP para a realização da Oficina Travessias.
Na atividade, cinco jovens do Casa Guarujá, entre eles um dos adolescentes pesquisadores, conheceram o campus universitário, o Laboratório de Modelos e Ensaios, onde são desenvolvidas maquetes, modelos em escala reduzida e impressões em três dimensões, e o Canteiro Experimental, espaço destinado à produção de ensaios e protótipos construtivos integrados às disciplinas dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Design.
Na visita, os jovens analisaram um mapa impresso da baixada santista e do município de São Paulo, no qual mapearam as regiões e a paisagem observadas ao longo do trajeto. A atividade incentivou os participantes a refletirem sobre sentimentos e sensações em relação ao espaço visitado, com o objetivo de compreender o território a partir de uma perspectiva de afetividade. Durante o encontro, a arquiteta Rafaela Costa compartilhou sua trajetória de vida e profissional, sua formação e a relação da atividade com a pesquisa em desenvolvimento.
O jovem Guilherme (nome fictício), um dos jovens pesquisadores que participou da visita, está em período conclusivo da medida socioeducativa e dará continuidade ao projeto com acompanhamento das pesquisadoras Larissa e Marcela. Para ele, a experiência tem sido transformadora.
“Nunca tinha pensado em fazer algo do tipo. No começo, não entendia muito bem o intuito da pesquisa, mas, com as visitas, passei a compreender a importância dela. Por muito tempo da minha vida trabalhei vendendo bala e em lava-rápido, e nunca tinha pensado nisso da forma como a pesquisa me ajudou a enxergar. A pesquisa tem sido muito boa para mim e para minha família. Vou aproveitar bem a oportunidade lá fora, continuar no projeto e fazer outros cursos. Gostei bastante da experiência”, relatou.
O adolescente Miguel (nome fictício) segue acompanhado por Marcela Garrido Reghin nas atividades de pesquisa desenvolvidas dentro da Fundação Casa. O projeto terá duração até agosto de 2026, e os dados coletados pelos dois adolescentes serão incorporados à pesquisa do Cebrap, que tem como objetivo contribuir para o reordenamento do sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes submetidos ao trabalho infantil em Santos.
Segundo o diretor do Casa Guarujá, Alexander Pestana Vicente, a iniciativa tem gerado impactos positivos nos jovens. “O projeto foi extremamente positivo e despertou nos adolescentes uma expectativa de continuidade. Ser pesquisador da USP deu um ânimo especial, e eles estão bastante motivados”, afirmou.
Para a presidente da Fundação Casa, Claudia Carletto, oferecer oportunidades para que os adolescentes compreendam suas realidades por meio da educação é essencial. “A pesquisa representa o início de uma trajetória de descoberta de novas oportunidades. A inserção desses jovens no universo acadêmico e as experiências vividas como pesquisadores contribuem para a construção de uma sociedade mais justa e segura”, destacou.