10/02/2026

Trump quer desmembrar a União Europeia, diz Macron

Por Igor Gielow/Folhapress em 10/02/2026 às 10:14

O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou nesta terça-feira (10) que o governo de Donald Trump é antieuropeu e que o americano busca “o desmembramento da União Europeia”. Para o líder, os países do continente devem esperar novas agressões de Washington, e a crise em torno da Groenlândia “não acabou”.

Os comentários foram feitos em uma caudalosa entrevista a jornais europeus, como o britânico Financial Times e o francês Le Monde, em antecipação a uma cúpula de líderes da UE prevista para a quinta (12).

Nela, Macron afirmou que é importante que os 27 países que integram o principal grupo geopolítico do mundo se unam e reforcem sua competitividade no mercado global não só contra a dominante China, mas também ante os antigos aliados do pós-guerra.

É preciso aproveitar, disse ele, “o momento Groenlândia”, em referência à investida de Trump para tomar controle de alguma forma da ilha autônoma pertencente ao Reino da Dinamarca. O americano mudou recentemente seu foco belicista para o Irã, mas Macron adverte que o problema com a Europa não acabou.

“Quando há um ato claro de agressão, eu acho que o que devemos fazer não é abaixar a cabeça ou buscar um acordo. Nós tentamos essa estratégia por meses, e não está funcionando”, afirmou.

O francês é um dos principais alvos de Trump, e um dos modelos de “líderes fracos” que ele acusou em sua Estratégia de Segurança Nacional de estarem destruindo a civilização europeia em oposição aos populistas como o americano, que defendem políticas anti-imigratórias e posições direitistas.

Contra Macron há o fato de que ele é um líder em declínio, cuja habilidade em conduzir o país até o fim de seu segundo e último mandato no ano que vem é colocada em dúvida diuturnamente na França. Acuado e ainda com o controle da política externa em suas mãos, Macron fala grosso.

Ele antevê uma nova frente de atrito com Washington: o campo da regulação das chamadas big techs, algo que já gerou diversas críticas. Trump considera que as ofensivas europeias contra empresas de tecnologia, particularmente em proteção de dados e formação de oligopólios, atenta contra os EUA.

“Os EUA vão, nos próximos meses e isso é certo, nos atacar no campo de regulação digital”, afirmou, prevendo mais tarifas de importação caso a Europa coloque em efeito uma nova legislação sobre o tema.

Macron voltou a dizer que os europeus estão espremidos entre a pressão de Trump e “o tsunami da China” no campo econômico. Pediu reformas estruturais e fez um ataque ao dólar, que tem passado por uma onda de desvalorização global decorrente da instabilidade criada pelo republicano.

“Os mercados mundiais estão cada vez mais desconfiados do dólar. Estão buscando alternativas. Vamos oferecer a eles o débito europeu”, afirmou, propondo um aumento na emissão de títulos em euro para apoiar o aumento da competitividade industrial e comercial.

Essa tática foi tentada na esteira da pandemia de Covid-19, mas acabou esvaziada devido à resistência de membros mais austeros e conservadores do bloco, como os alemães e os países nórdicos. Voltou a criticar o acordo UE-Mercosul de livre comércio, que segundo ele é prejudicial para o agro francês e não contará com a aprovação do país.

Defesa era foco até aqui

Até aqui, a assertividade continental defendida por Macron e outros líderes em apuros domésticos, como o alemão Friedrich Merz, estava focada no campo da defesa. Trump está abertamente se afastando do comprometimento em defender a Europa por meio da Otan, aliança criada pelos EUA em 1949 para conter Moscou.

Isso levou a uma corrida por programas de rearmamento grandes, como o da Alemanha, mas também abriu a temporada de acusações mútuas.

O secretário-geral da Otan, o holandês Mark Rutte, por exemplo disse que a Europa precisava “parar de sonhar” de que é capaz de se defender sem os EUA.

A França, por sua vez, colocou em morte cerebral o programa de um caça de sexta geração a ser feito com os alemães e espanhóis, o FCAS. Isso porque a fabricante local, a tradicional fabricante de aviões militares Dassault, queria ficar com 80% da produção para si.

Berlim não topou, sugeriu parceria com os suecos da Saab e colocou um ponto de interrogação no futuro do projeto. Macron buscou se otimista: “O FCAS não está morto”, disse aos jornalistas.

Macron abre canal com Putin

Macron também está buscando algum movimento diplomático próprio em relação à Guerra da Ucrânia, conflito que passou a ter sua dinâmica dominada por Trump, que abandonou a defesa incondicional de Kiev e tenta forçar um acordo com Vladimir Putin.

Na semana passada, Macron havia dito que era importante a Europa “abrir canais” diretos com Moscou. Enviou seu principal diplomata para conversas na Rússia, algo que o Kremlin só confirmou nesta terça.

“Houve contatos de fato, que se for desejado e necessário ajudarão a rapidamente estabelecer um diálogo no nível mais alto. Até aqui, não recebemos nenhuma indicação desse desejo, embora tenhamos notado a fala de Macon sobre restaurar relações com a Rússia. Estamos impressionados”, disse o porta-voz Dmitri Peskov.

O francês foi o líder europeu que mais tentou evitar a invasão de 2022, sendo humilhado em episódios como aquele em que foi colocado na ponta de uma mesa gigante para falar com Putin. Depois, afirmou ter sido enganado e ficou até o ano passado sem telefonar para o colega.

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