PIB acelera no 1º trimestre e cresce 1,1% com destaque do agro e impulso do consumo
Por Leonardo Vieceli e Eduardo Cucolo/Folhapress em 29/05/2026 às 13:01
A economia brasileira acelerou no primeiro trimestre de 2026, com crescimento de 1,1% em relação aos três últimos meses do ano passado, apontam dados do PIB (Produto Interno Bruto) divulgados nesta sexta-feira (29) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Houve destaque da agropecuária e impulso do consumo das famílias.
A alta de 1,1% é a maior em quatro trimestres, desde o primeiro do ano passado (1,3%). O resultado veio após três trimestres consecutivos de relativa estabilidade, com variações do PIB próximas a zero.
O desempenho de janeiro a março de 2026 ficou praticamente em linha com a mediana das projeções do mercado financeiro, que era de 1%, conforme a agência Bloomberg. O intervalo das estimativas ia de 0,6% a 1,7%.
Pela ótica da produção, o IBGE destacou em nota crescimento da agropecuária (2%), que ficou acima da indústria (1%) e dos serviços (0,5%).
O PIB do início do ano concentra o efeito da safra de grãos como a soja. É um impacto que tende a desaparecer no indicador ao longo de 2026.
Além da agropecuária, o instituto citou o auxílio da extrativa mineral (3,6%) e de outras atividades de serviços (0,8%). A extrativa integra a indústria, enquanto as outras atividades fazem parte dos serviços.
Elas incluem, por exemplo, serviços pessoais, alimentação e alojamento, além de saúde e educação nas redes privadas.
Quando a análise considera o PIB pela ótica da demanda, o IBGE chamou a atenção para o consumo das famílias, cuja alta acelerou a 1% no primeiro trimestre.
Foi a maior taxa desse componente em seis trimestres, desde o terceiro de 2024 (1,4%). O consumo responde por cerca de 65% do PIB pelo lado da demanda.
“Ele [consumo das famílias] é o agregado com mais peso e contribuiu para o maior crescimento da economia este trimestre”, disse o novo coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Ricardo Montes de Moraes.
Outro impulso veio dos investimentos produtivos, que cresceram 3,5%. A nova taxa, porém, veio após uma queda de 3,4% no quarto trimestre de 2025. Foi praticamente uma devolução das perdas anteriores.
PIB deve perder ritmo
Analistas dizem que o crescimento em 2026, ano de eleições no país, tende a ser maior no período de janeiro a março do que nos trimestres seguintes.
Ao longo do ano, o PIB não terá a mesma contribuição da safra, e as projeções indicam juros ainda elevados para conter a inflação.
No início de 2026, o mercado de trabalho deu novos sinais de força, com desemprego baixo e renda em alta.
Isso, segundo analistas, beneficiou a atividade econômica, assim como o estímulo de medidas do governo Lula (PT) antes das eleições.
A lista de incentivos do governo incluiu liberação de crédito, valorização do salário mínimo, manutenção de programas sociais e isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5.000 por mês, indica o economista Rodolpho Sartori, da agência classificadora de risco Austin Rating.
“Tem um cabo de guerra. Por um lado, há os estímulos vindos do governo federal e, por outro, uma taxa de juros que prende a atividade.”
Na visão de Sartori, o nível elevado dos juros é o “mal necessário” para conter a inflação, que passou a ser pressionada pela guerra no Irã.
O conflito iniciado em 28 de fevereiro gerou disparada das cotações do petróleo, afetando os preços dos combustíveis no Brasil. O impacto da guerra é visto como um desafio para a economia no restante de 2026, assim como o endividamento das famílias.
A carestia em ano eleitoral preocupa o governo, que lançou ações para conter o aumento dos preços dos combustíveis. Lula deve tentar a reeleição em outubro.
A taxa básica de juros (Selic) começou 2026 em 15% ao ano, caindo a 14,75% em março e a 14,5% em abril. A pressão inflacionária da guerra, contudo, tende a prejudicar o processo de redução da Selic pelo BC (Banco Central), dizem analistas.
Na mediana, as projeções do mercado financeiro apontam alta de 1,89% para a economia brasileira no acumulado de 2026, conforme a edição mais recente do boletim Focus, publicada pelo BC na segunda (25). O Ministério da Fazenda trabalha com uma expectativa maior, de 2,3%.
Os estímulos do governo em ano eleitoral acenderam alerta de uma parcela dos analistas que vê riscos de prejuízos à política do BC de combate à inflação.
A divulgação do PIB desta sexta é a primeira com uma nova equipe do IBGE responsável pelos cálculos.
No início do ano, a gestão do presidente Marcio Pochmann anunciou a exoneração da pesquisadora Rebeca Palis do cargo de coordenadora de contas nacionais.
O departamento é o responsável pelo PIB. Rebeca foi substituída pelo servidor Ricardo Montes de Moraes. Com a mudança, outros técnicos da mesma área pediram exoneração.