Meio século depois, Argentina ainda luta para fechar feridas da ditadura
Por Sylvia Colombo/Folhapress em 24/03/2026 às 08:50
Nesta terça-feira (24), milhares de argentinos vão às ruas marcar os 50 anos do golpe de Estado de 1976, que inaugurou no país vizinho a ditadura mais cruel e com o maior número de vítimas de todas aquelas do Cone Sul calcula-se entre 20 mil e 30 mil pessoas desaparecidas no período de 1976 a 1983.
Meio século depois, a data impacta e divide. Para uma geração que nasceu depois da volta da democracia mais da metade da população argentina, o passado já não carrega o peso de uma vivência direta, mas de um relato transmitido: distante, embora muito utilizado pela retórica da militância esquerdista e kirchnerista.
Com efeito, os atos desta terça devem reunir milhares de pessoas nas ruas de Buenos Aires, com mobilizações organizadas por diferentes setores. A principal concentração está prevista para as 14h, na interseção das ruas Piedras e Avenida de Mayo, de onde partirão colunas de organismos de direitos humanos e agrupações políticas rumo à Praça de Maio.
Em paralelo, o espaço Encuentro Memoria, Verdad y Justicia convocou uma marcha própria a partir das 13h30. Outras organizações definiram percursos distintos pelo centro, incluindo uma mobilização liderada pelo grupo La Cámpora, que sairá da ex-Esma (Escola de Mecânica da Armada, centro de detenção clandestino e hoje museu) e seguirá até a residência da ex-presidente Cristina Kirchner.
A Argentina se diferencia das outras ditaduras do Cone Sul por sua brutalidade, pelo número de vítimas e por crueldades como os “voos da morte”, em que os chamados “subversivos” eram jogados no Rio da Prata, sedados e com pesos atados aos pés, para que logo afundassem e jamais fossem recuperados.
Por outro lado, também se trata do país que mais julgou seus repressores dos que restaram, muitos continuam atrás das grades, mesmo tendo passado dos 90 anos.
Os julgamentos foram rápidos. A derrota das Forças Armadas na Guerra das Malvinas (1982) contra o Reino Unido desprestigiou os fardados e acelerou o famoso Julgamento das Juntas, em que os repressores, assim como os guerrilheiros que cometeram crimes contra a humanidade, foram julgados e condenados ainda no governo Raúl Alfonsín (1983-1989).
“A Argentina é um caso único”, diz à reportagem Luis Moreno Ocampo, promotor-assistente do Julgamento das Juntas e ex-procurador do Tribunal Penal Internacional. “Mas isso só ocorreu porque as atrocidades foram repercutidas mundialmente, por meio de organismos internacionais, das gestões de Jimmy Carter [nos Estados Unidos] e dos ativistas que, no exílio, deram visibilidade a elas”, afirma o advogado, vivido no filme “Argentina, 1985” pelo ator Peter Lanzani.
“Hoje a Argentina é um case no sentido de ter rapidamente e até hoje mantido detrás das grades repressores de alto e menor graus”, diz Ocampo.
A Argentina condenou e aprisionou mais de 900 repressores dos mais distintos escalões. Jorge Rafael Videla (1925-2013), líder da primeira junta ditatorial, morreu na cadeia. Porém, esses avanços convivem com outro fenômeno: a ausência de uma autocrítica mais profunda sobre o que ocorreu, cujas consequências ainda atravessam a política do país.
Segundo o historiador Federico Lorenz, esse distanciamento geracional não é em si um problema. O desafio está em evitar que a data se transforme em um ritual desconectado do presente. “Não se trata de sacralizar o 24 de março”, diz, mas de entender de que maneira o que aconteceu continua influenciando a sociedade argentina.
Essa influência é mais profunda do que costuma aparecer em leituras ligeiras. A democracia argentina foi construída sobre as bases deixadas pela ditadura e sob suas limitações. O período marcou o ponto mais extremo de um processo de autodestruição política, em que um setor buscou se impor sobre outro por meio da violência. Muitas dessas marcas permanecem, ainda que nem sempre sejam reconhecidas como tal.
Entre elas, Lorenz destaca, está a fragilidade do Estado de Direito. Direitos que formalmente existem, mas não se aplicam de maneira igual para todos, e práticas de violência estatal ou de funcionamento opaco das instituições continuam presentes. Para Lorenz, essas são sequelas diretas da ditadura.
O historiador vê ainda outro efeito dessa memória incompleta: a ausência de uma autocrítica mais profunda, especialmente no campo progressista, contribuiu para cristalizar identidades políticas e alimentar uma lógica de polarização. Setores da direita encontraram nesse vácuo um terreno fértil para retomar argumentos e narrativas já presentes nos anos 1970 nesse contexto, o discurso negacionista que elegeu Javier Milei ganha terreno.
Isso não significa que nada tenha sido feito. Ao contrário, a Argentina avançou mais do que a maioria dos países na memória institucional sobre o período. Prova disso é a sobrevivência de entidades dedicadas a remontar os abusos da época, como a Equipe de Antropologia Forense, que até hoje busca e faz trabalho de reconhecimento de ossos há décadas abandonados; a fundação H.I.J.O.S., formada por filhos de desaparecidos; além das Mães e das Avós da Praça de Maio.