Dólar abre em leve alta com investidores avaliando desaceleração da inflação e aumento da tensão no Irã
Por Matheus dos Santos/Folhapress em 12/05/2026 às 11:10
O dólar abriu em leve alta nesta terça-feira (12) com os investidores avaliando os resultados da inflação de abril no Brasil e as novas ameaças entre EUA e Irã.
O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) desacelerou a 0,67% no mês passado, após subir 0,88% em março, quando houve os impactos iniciais da guerra no Irã. Os dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontaram que o grupo alimentação e bebidas seguiu pressionando o índice, assim como a gasolina.
Já no cenário internacional, os analistas avaliam as novas ameaças entre EUA e Irã, que levaram o preço do petróleo a subir nesta terça. O presidente norte-americano, Donald Trump, disse que o cessar-fogo está em “estado crítico” após classificar a proposta iraniana de paz como “um lixo”. Já o Irã disse que as suas condições são as únicas possíveis de serem aceitas.
Às 9h10, a moeda norte-americana subia 0,28%, cotada a R$ 4,9048. No dia anterior, ela ficou próximo da estabilidade, com queda de 0,06%, a R$ 4,892. Já a Bolsa desvalorizou 1,19%, a 181.908 pontos.
O pregão foi impactado pelas declarações de Trump sobre as negociações de paz e pela temporada de balanços, com destaque para os resultados do banco BTG Pactual e para a expectativa pelos números da Petrobras que serão divulgados após o fechamento do mercado.
O dólar, por outro lado, teve movimento mais tímido. A moeda norte-americana encerrou o dia próximo da estabilidade, com queda de 0,06%, a R$ 4,892.
Para Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, a negativa dos EUA à contraproposta do Irã reacendeu o temor da inflação global. “O noticiário internacional pesou mais, principalmente porque o avanço do petróleo influenciou o desempenho de companhias ligadas a consumo e transporte”, afirma.
Os preços do petróleo voltaram a subir. Na máxima, o barril Brent, referência mundial, chegou a US$ 105,97, alta de 4,62%. Por volta das 17h, a commodity avançava 2,91%, a US$ 104,24.
Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX, diz que o mercado reincorporou um prêmio de risco geopolítico que havia sido parcialmente removido. “A rigidez das exigências iranianas sugere que qualquer acordo segue distante, o que tende a manter o Brent em patamares elevados enquanto o impasse persistir”.
No domingo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou a resposta enviada pelo Irã à proposta americana para encerrar a guerra. “Acabei de ler a resposta dos chamados ‘representantes’ do Irã. Não gostei – totalmente inaceitável”, escreveu Trump na plataforma Truth Social.
Segundo a imprensa iraniana, Teerã propôs o encerramento imediato da guerra em todas as frentes, incluindo no Líbano, a suspensão do bloqueio naval imposto pelas forças americanas, garantias de que não haveria mais ataques, e o fim das sanções econômicas, incluindo as restrições de Washington à venda de petróleo do país persa.
O Irã também teria proposto diluir parte de seu urânio enriquecido e transferir o restante para um terceiro país. Teerã ainda teria exigido compensação pelos danos causados na guerra.
A proposta inicial dos EUA previa a interrupção dos combates antes da abertura de negociações sobre temas mais sensíveis, entre eles o fim do programa nuclear iraniano, o que Teerã rejeita.
A maior aversão ao risco pressionou o setor bancário brasileiro, com destaque para as ações do BTG Pactual, cujo balanço foi divulgado durante o pregão, e Santander. Os papéis dos bancos caíram 2,88% e 2,52%, respectivamente.
As indefinições também repercutiram em Wall Street, onde as Bolsas subiram discretamente. O Dow Jones avançou 0,19%, enquanto o S&P 500 e a Nasdaq avançaram 0,12% e 0,10%, respectivamente –o suficiente para esses dois últimos renovarem os recordes de fechamento.
Analistas da Ágora Investimentos destacaram, em relatório a investidores, maior cautela no pregão. “O cenário externo mais cauteloso limitou o apetite por risco, reduzindo o fôlego do real e do Ibovespa, ao mesmo tempo em que pressionou a curva de juros”.
No Brasil, o impacto da continuidade do conflito é misto. Por um lado, o real e a Bolsa brasileira são beneficiados pela distância do país em relação ao conflito e pela exposição do país ao petróleo. Por outro, o aumento das incertezas ligadas ao petróleo pode gerar um movimento global de fuga de ativos voláteis para ativos seguros.
Para Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, o mercado vinha esperando a redução das tensões nos últimos pregões. “[Analistas] talvez tenham precificado uma queda relevante do petróleo de maneira muito rápida nos ativos. O mercado não trabalha com a manutenção desses níveis mais elevados. O grande risco é justamente esse cenário não se concretizar, porque ele já está bastante implícito nos preços”.
Segundo ele, o Brasil, por ser um mercado emergente, acaba sendo considerado um ativo de maior risco. “Assim, uma reescalada do conflito provavelmente significaria dólar em alta, curva de juros no Brasil também para cima e Bolsa para baixo”.
Ainda no cenário doméstico, destaque para a temporada de balanços. Além do BTG, investidores aguardam resultados da Petrobras no 1º trimestre -as ações preferenciais da empresa fecharam em alta de 1,51%.
O pregão também teve a estreia das ações da Compass, companhia de gás e energia da Cosan. É o primeiro IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) em quase cinco anos na B3 (Bolsa de Valores brasileira).
As ações fecharam em queda de 2,17%, cotadas a R$ 27,39 cada. Na máxima da sessão, os papéis avançaram 1,25%, enquanto, na mínima, chegaram a recuar 3,57%.