13/06/2026

Caneta emagrecedora ocupa lugar que já foi de videocassete e uísque no contrabando via Paraguai

Por Marcelo Toledo/Folhapress em 13/06/2026 às 16:57

Freepik
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As canetas emagrecedoras fabricadas no Paraguai passaram a ocupar recentemente um espaço que em décadas passadas foi de outros itens contrabandeados e requisitados por consumidores brasileiros.

O comércio na fronteira evoluiu de um polo de aparelhos como videocassete e toca-fitas automotivo, nos anos 1980, para um centro de eletrônicos na década de 1990 e de itens de tecnologia avançada nos últimos anos. Hoje, é fonte do contrabando de medicamentos de preços elevados.

Há em 2026 um crescimento acelerado das apreensões de canetas e ampolas emagrecedoras por órgãos como Receita Federal e Polícia Federal, principalmente em Foz do Iguaçu (PR), na fronteira com a paraguaia Ciudad del Este.

Proibidos de serem comercializados no Brasil, medicamentos à base de tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) vendidos no Paraguai se espalharam pelo país devido aos preços baixos, à facilidade de compra no país vizinho e a falhas na fiscalização.

Uma ação coletiva busca liberar no Brasil, para uso pessoal de pacientes com prescrição médica, a importação de emagrecedores paraguaios.

O processo mira medicamentos como TG, Lipoless, Tirzedral, Tirzec, Lipoland, Gluconex e Slimex, que, segundo a ação, são registrados na Dinavisa, a autoridade sanitária do país vizinho. Os cinco primeiros são facilmente encontrados em farmácias de Ciudad del Este. Mas a própria Dinavisa já emitiu alertas sobre a circulação de versões falsificadas de medicamentos paraguaios na região da fronteira e classificou a situação como de grave risco para a saúde pública.

As canetas ainda não ocupam o lugar do cigarro no topo da lista de produtos mais apreendidos, mas o crescimento do contrabando é um dos principais problemas enfrentados hoje pelos órgãos de repressão, uma vez que veem como risco à saúde o ingresso no país de medicamentos não autorizados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

“Quem perde? Todos. O consumidor, porque ninguém sabe que controle tem essa caneta. A indústria nacional perde, porque esse produto chega mais barato, é mais atrativo. E o erário, porque ele não paga imposto”, diz Edson Vismona, presidente do FNCP (Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade).

O perfil dos itens trazidos do país vizinho mudou de forma gradual nas últimas décadas, acompanhando a abertura econômica do Brasil e a evolução da tecnologia global. Na década de 1980, o comércio era marcado por bens de consumo que eram raros ou proibidos no mercado brasileiro devido à lei de reserva de informática e ao fechamento das importações.

Além de videocassetes e toca-fitas, sacoleiros e turistas buscavam produtos como walkman, TV portátil, relógio digital com calculadora e brinquedos como carrinho de fricção e com controle remoto, mas também uísque, perfume e roupas de grife.

Era uma época em que as excursões de sacoleiros ocorriam com viagens às sextas-feiras. No sábado, após uma rápida parada para banho e café da manhã, seguiam para as compras na fronteira, com retorno às cidades de origem ainda no meio da tarde.

Na década seguinte, já com a abertura econômica e, a partir de 1994, com a paridade do real com o dólar, o Paraguai virou um paraíso de produtos eletrônicos contrabandeados -microcomputadores, videogames (Mega Drive, Super Nintendo e PlayStation), CD player automotivo, TV e discman.

A década de 2000 consolidou o país vizinho como central de abastecimento de mercados como o da região da Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, com câmeras digitais, celulares e equipamentos de informática de alto valor agregado. Esse movimento ganhou fôlego extra com a chegada dos smartphones, decodificadores (receptores de TV paga), videogames modernos e notebooks.

O perfil dos compradores também mudou. Os sacoleiros, grande massa de contrabandistas de outrora, ainda existem, mas perderam espaço com o avanço do crime organizado no mercado de cigarros, cigarros eletrônicos e, agora, canetas emagrecedoras.

De acordo com a Receita, enquanto em 2025 foram apreendidas 7.479 unidades de ampolas e canetas paraguaias entre maio -quando teve início o veto ao ingresso no país- e dezembro, em 2026 já são 71.860 unidades apreendidas, 860,8% mais.

Todos esses medicamentos são incinerados, diz a Receita. As canetas apreendidas na fronteira pelos órgãos de repressão ficam armazenados em um galpão do órgão em Foz do Iguaçu até serem levados para destruição em uma empresa terceirizada em Goiânia.

Responsável pelo setor de destruição de produtos contrabandeados, o auditor fiscal Osvaldo Toshio Yamashita afirmou que as canetas e ampolas de tirzepatida são incineradas num forno com temperatura acima de mil graus e em hipótese alguma podem ter outra destinação.

“As canetas precisam ser destruídas por várias situações. Primeiro, não sabemos onde foram produzidas. Segundo, em que condições de higiene e saúde esses medicamentos foram produzidos? Outra questão é: será que o que se diz na bula é o conteúdo que está nas ampolas e seringas? E como são transportados esses medicamentos? Não sabemos como esse material chega.”

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