Jogos de Inverno têm início na Itália com obras inacabadas e críticas
Por Folhapress em 03/02/2026 às 19:46
Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão e Cortina, no norte da Itália, começam nesta quarta (4) com obras inacabadas e críticas de grupos ambientalistas. Com mais de cem eventos até 22 de fevereiro, a disputa ocorrerá em sete cidades e vai reunir cerca de 2.900 atletas de mais de 90 países.
Com disputas no curling, as provas desta quarta serão realizadas dois dias antes da cerimônia de abertura, na sexta (6), no estádio San Siro, em Milão, a partir das 16h (de Brasília). A ginasta Rebeca Andrade será uma das oito personalidades a levar a bandeira olímpica, a convite dos organizadores. O ministro do Esporte, André Fufuca, representará o governo brasileiro.
Com a maior equipe da sua história, o Brasil terá 14 atletas competindo em cinco modalidades -esqui alpino, esqui cross-country, bobsled, skeleton e snowboard. Desde 1992, a melhor colocação brasileira foi em 2006, com o nono lugar de Isabel Clark no snowboard.
Desta vez, há chance real de medalha, com Lucas Pinheiro Braathen, 25, nascido na Noruega de mãe brasileira, que competirá a partir do dia 14 no esqui alpino, nas provas de slalom e slalom gigante. Ele, que escolheu representar o Brasil em 2024, depois de ter competido pela Noruega, já conquistou 20 medalhas em Copas do Mundo. O país nórdico terminou os Jogos de 2022, em Pequim, em primeiro lugar, com 37 pódios.
A quarta edição olímpica sediada pela Itália -a terceira de inverno, após Cortina-1956 e Turim-2006- será a primeira invernal a ocorrer sob as diretrizes da Agenda Olímpica 2020, estabelecida pelo COI (Comitê Olímpico Internacional). Uma das intenções é tornar os Jogos mais sustentáveis, com o uso, por exemplo, de estruturas já existentes ou temporárias.
Mesmo assim, em Milão foi construída a arena Santa Giulia, que vai receber as disputas de hóquei no gelo. Nos últimos dias, o projeto do arquiteto David Chipperfield se tornou assunto menos pelo seu visual de “Coliseu do futuro” e mais pela correria para finalizar a obra. No fim de semana, o ginásio não estava concluído, com instalações inacabadas para camarotes, comidas e imprensa, além de áreas dentro e fora com material de construção e sujeira.
Em Cortina d’Ampezzo, o teleférico de Apollonio-Socrepes, projetado para transportar o público até as provas de esqui alpino feminino, corre o risco de não ser finalizado a tempo.
Segundo a Simico, sociedade que une o governo italiano e quatro administrações locais na realização das obras, são 98 intervenções ligadas aos Jogos, sendo 47 em instalações esportivas e 51 em infraestrutura de transporte. Do total, 40 obras foram concluídas, 29 estão em andamento, 27 em fase de projeto e duas em licitação. O custo até agora é 3,5 bilhões de euros (R$ 21,6 bilhões) -a arena de Milão não entra na conta, porque foi erguida com recursos privados.
As obras para os Jogos recebem críticas de organizações ambientais. A Legambiente, uma das mais reconhecidas da Itália, afirmou na segunda (2) que os Jogos devem ser “reprovados tanto pelo aspecto da sustentabilidade ambiental-econômica quanto pela pouca atenção à crise climática nos Alpes”. Um ponto considerado equivocado é a priorização de obras rodoviárias em detrimento das ferroviárias.
A ONG chama a atenção para o fato de o país ter hoje 265 instalações de esqui desativadas, quase o dobro do número de 2020, devido às mudanças climáticas. Com o aquecimento global, tem nevado menos nos Alpes, o que força o uso de neve artificial, com alto consumo de energia e água, e coloca em risco o futuro dos esportes de inverno.
A tentativa de minimizar o impacto na região foi o que motivou a descentralização das competições, que serão espalhadas por sete cidades. Para evitar a construção de estruturas, a intenção foi aproveitar aquelas existentes, ainda que reste o impacto dos deslocamentos por estradas. Milão e Cortina, as duas principais sedes, estão separadas por 400 km, um percurso que não é inteiramente feito por trens.
Milão receberá os esportes de gelo, como patinação e hóquei, em ginásios fechados. Cortina terá as disputas no esqui alpino, bobsled, curling, skeleton e luge. Tesero e Predazzo concentrarão esqui cross-country, combinado nórdico e salto de esqui. Livigno e Bormio ficarão com esqui estilo livre, de montanha e alpino, além de snowboard. Em Anteserva-Antholz, haverá biatlo e esqui cross-country.
Acostumada a eventos internacionais, como as semanas de moda e design, Milão sedia os Jogos com certa indiferença de parte dos moradores, em contraste com o entusiasmo de patrocinadores, que ocupam as principais praças do centro com megaestruturas provisórias. Ruas interditadas e escolas fechadas serão alguns dos transtornos dos próximos dias.
Outro termômetro é que bilhetes para a cerimônia de abertura ainda estavam à venda na segunda, com preços entre 260 euros (R$ 1.604) e 2.026 euros (R$ 12.499). Os organizadores lançaram uma promoção para jovens até 26 anos, com dois ingressos ao preço de um.
No sábado (31), os milaneses foram às ruas protestar contra a presença de agentes do braço investigativo do ICE, órgão que protagonizou cenas violentas contra imigrantes nos Estados Unidos. O governo italiano foi obrigado a esclarecer em nota, depois de consultar a embaixada americana, que os agentes não vão atuar nas ruas, mas dentro do consulado, na área de inteligência. Os Estados Unidos têm a maior delegação dos Jogos, com mais de 230 atletas. Para a abertura, são esperados o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.