11/03/2026

Conheça Bodø e o Glimt, o improvável time norueguês que brilha na Champions

Por José Henrique Marionte em 11/03/2026 às 10:35

Foto: PIERO CRUCIATTI/AFP
Foto: PIERO CRUCIATTI/AFP

Começa pelo nome, Bodø/Glimt, que o resto da Europa chama de Bodo sem muita cerimônia. Para quem não quiser se arriscar na pronúncia de uma das nove vogais norueguesas, basta fazer como os locais: use apenas Glimt. Com um irresistível “jogo livre”, camisas amarelas, grama artificial e um tempo inclemente a seu favor, o Glimt, no norte da Noruega, faz história nesta semana ao disputar as oitavas da Champions, o maior interclubes do planeta.

O fato é inédito, adjetivo que se repete na história recente do clube com frequência incomum. Antes do Sporting, adversário desta quarta-feira (11), o Glimt eliminou a Inter de Milão, com um 3 a 1 em casa, que alguém até tentou imputar ao frio, ao gramado sintético etc, e um 2 a 1 fora, em que só restou a bola como explicação. Se alguém ainda apontava para uma zebra polar no primeiro jogo, na volta, no San Siro, não houve argumentos.

Semanas antes, as primeiras vitórias do time na Champions, sobre Manchester City (3 a 1) e Atlético de Madrid (2 a 1), colocaram a pequena Bodø no mapa do futebol europeu. Trajetória surpreendente para um time que, há menos de dez anos, amargava a segunda divisão de um país que não frequenta as listas de potências do futebol.

“O Monaco foi o único clube que não sofreu gol em Bodø nesta temporada. Nós ganhamos de 1 a 0 na fase de grupos. Eles têm uma lógica esportiva, o mesmo treinador há muitos anos e basicamente trabalhando o mesmo grupo de jogadores há muito tempo”, diz Thiago Scuro, CEO da equipe do principado.

Ex-Red Bull Bragantino, Scuro vê o Glimt como “um resultado esportivo que vem sendo construído há pelo menos três anos”. “Não é de agora, de forma alguma. Tem mérito, tem trabalho. É uma equipe muito organizada, com jogadores muito talentosos.”

Fora do cenário europeu, a história começa ainda antes, em 2018, quando o Glimt superou o rebaixamento e uma crise que, a despeito do sucesso recente, ainda habita a memória dos torcedores em Bodø. “Passamos por altos e baixos, principalmente baixos. Foram anos difíceis nas divisões inferiores. Agora estamos na Champions. É surreal”, descreve Robin Gundersen, que junto com o irmão gêmeo, Rudi, toca uma galeria de arte na cidade.

Paisagens marítimas e nórdicas abriram espaço, nos últimos meses, para visões sobre o estádio Aspmyra, retratado em cores vivas e com os “elementos naturais” da cidade _além das montanhas e da neve, aviões e helicópteros, integrantes da peculiar paisagem urbana de Bodø. “Não é mais sorte. Somos uma boa equipe e não nos concentramos nos resultados. Nosso foco é progredir e melhorar a cada jogo”, diz Robin, que se autointitula um ultra do Glimt.

Apesar do termo, não há notícia de violência em Bodø. O sucesso da equipe na Champions atrai visitantes, mas o estádio é tão pequeno (8.270 lugares) que os vários hotéis da cidade dão conta do recado. “É improvável que tanta gente decidisse vir a Bodø não fosse pelo futebol. E isso é muito bom. As pessoas estão animadas porque agora há um destino novo e completamente diferente [no calendário da Champions]”, afirma Anke Lange, responsável pelo escritório de informações turísticas da cidade.

Sim, Bodø (pronuncia-se “bodá”), 53.600 habitantes, é pequena, diferente, mas dentro de uma realidade de padrão norueguês. Ônibus e carros elétricos cortam o centro da cidade a despeito de breves caminhadas darem conta da maioria dos deslocamentos. Capital cultural da Europa em 2024, tem bibliotecas modernas, galerias, museus e a principal universidade da região.

“Não é mais apenas escala para Lofoten”, diz Anke, sobre o principal destino turístico da região, uma ilha conectada a Bodø por um eficiente serviço de balsas. Como prova da potencialidade da cidade além do futebol, ela saca o celular para mostrar uma foto da aurora boreal tirada do porto da cidade, a despeito da iluminação. “E eu nem sei tirar foto.”

Glimt, que quer dizer faísca ou brilho em noruguês, foi chamado de “relâmpago do norte” pelo jornalista Luís Aguilar, em um artigo publicado no periódico português A Bola. Era um alerta para os torcedores do Sporting sobre o tamanho da tarefa do time neste mata-mata. “As equipas pequenas costumam proteger-se. O Bodø ataca.”

“Os jogadores do Glimt nunca dão chutão. O time enfrenta os adversários como se fossem iguais”, diz Thiago Monteiro, ex-atleta do clube e hoje treinador das categorias de base. Dono de uma carreira improvável, que começou na MLS americana e terminou no clube nórdico então na segunda divisão, o “paulistano da Mooca” que mistura frases em inglês e português ressalta o trabalho de Kjetil Knutsen, o técnico do time principal.

“Demorou uns anos para ele colocar o sistema em prática, para os jogadores entenderem o sistema em que eles atuam agora. Demorou para crescer.”

Espécie de palavrão no futebol brasileiro, continuidade foi a chave para o sucesso do Glimt até aqui. Knutsen entrou como assistente em 2017, com o time rebaixado no campeonato nacional, mas em 2018 já estava de volta à elite. Sob seu comando, o Glimt alcançou quatro títulos e dois vice-campeonatos em seis temporadas a partir de 2020. “Ele não parou de treinar o time nem na pandemia”, conta Monteiro.

O sucesso na Noruega credenciou a equipe aos torneios europeus. A Champions é o último estágio dessa jornada baseada em um “jogo livre”, como o próprio Knudsen descreveu nesta terça-feira (10). À reportagem o técnico afirma não haver um cronograma para o sucesso total do time, um título europeu.

A pergunta era se o Glimt, pelo demonstrado na temporada, estava atrás ou à frente da programação.

“Acho que não temos esse tipo de cronograma. Acho que estamos vivendo o presente e trabalhando duro com os jogadores, desenvolvendo eles e o time. Não estamos pensando nisso. Mas, se olharmos para o panorama geral, acho que estamos sim um pouco à frente do cronograma.”
Bodø e a Champions agradecem.

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