Do quilombo ao grafite, Real Mocidade narra a alma cultural de Santos

Por Rodrigo Cirilo em 07/02/2026 às 02:59

Crédito: Julia Lanzilotti
Crédito: Julia Lanzilotti

A Real Mocidade Santista trouxe a cidade para o centro da narrativa já na madrugada deste sábado (7), na Passarela do Samba Dráuzio da Cruz. Com o enredo Santos 480 Anos: ‘Mundaréu’ do Povo, Cultura em Revolução, a escola do Marapé apresentou um desfile que exaltou a diversidade, e a ocupação da rua como espaço de criação e resistência.

Com cerca de 1,3 mil componentes distribuídos em 16 alas, a abertura trouxe o conceito de “Mundaréu”, termo eternizado por Plínio Marcos para definir um lugar onde todos cabem e podem se expressar. A comissão de frente, inspirada nas danças urbanas contemporâneas, representou o povo santista como artista de si mesmo, transformando a rua em palco.

Real Mocidade - Grupo Especial - Carnaval Santos - 2026
Crédito: Julia Lanzilotti

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Lucas Rodrigues e Angélica Paiva, surgiu com a fantasia “Rosa dos Ventos”, simbolizando a chegada dos diferentes povos que ajudaram a construir Santos ao longo de seus 480 anos. Em seguida, as baianas homenagearam Nossa Senhora do Monte Serrat, padroeira da cidade, enquanto as baianas mirins desfilaram como anjinhos, representando o acolhimento aos imigrantes que aportaram no município.

Coordenadora da ala das baianas, Izilda dos Santos Garcia, de 73 anos, falou com emoção sobre o trabalho desenvolvido ao longo do ano e a relação com a escola.

“Foi gratificante demais. Trabalhar com essas crianças é emocionante. Elas são muito são isso que todos viram na avenida, são de boa mesmo”, contou. Com 30 anos de desfile na Real Mocidade, Izilda resumiu sua ligação com a agremiação. “É um amor incondicional. Não tem explicação”.

Real Mocidade - Grupo Especial - Carnaval Santos - 2026
Crédito: Julia Lanzilotti

A primeira alegoria transformou a Pinacoteca Benedito Calixto em símbolo do espaço onde a arte faz morada. O carro celebrou o local como um templo democrático da criação, reunindo artistas do “Mundaréu” sob a condução simbólica de Plínio Marcos. O leão, símbolo da escola, surgiu imponente, sobre o nome da agremiação em azul, verde e branco.

No segundo setor, o desfile mostrou o momento em que o povo vira artista. O mar abriu caminho para a poesia de Vicente de Carvalho, reverenciado como o “Poeta do Mar”, enquanto o futebol apareceu como expressão artística popular. A bateria Swing do Leão, comandada pelo mestre Wagner Mimiu, representou o Memorial das Conquistas e a relação histórica entre Santos e o esporte.

Real Mocidade - Grupo Especial - Carnaval Santos - 2026
Crédito: Julia Lanzilotti

O artesanato caiçara, o teatro, a música, o cinema e a pintura completaram o setor, revelando uma cidade fértil em talentos e linguagens. A segunda alegoria trouxe um grande palco, reunindo manifestações culturais que marcaram a trajetória santista.

No último setor, a Real Mocidade apresentou a revolução cultural que nasce da rua. O desfile reverenciou o Quilombo de Pai Felipe, berço das manifestações afro e do carnaval santista. As alas celebraram a tradição do samba, com passistas e malandros, além do orgulho do pavilhão conduzido pelo terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, João Pedro e Beatriz Basílio.

Real Mocidade - Grupo Especial - Carnaval Santos - 2026
Crédito: Julia Lanzilotti

As manifestações contemporâneas ganharam força com o street dance, o hip hop e o grafite, mostrando como a arte urbana rompe o cinza do concreto e transforma a cidade. A alegoria final apresentou uma Santos em transformação, com construções pintadas com cores vibrantes e intervenções artísticas, simbolizando a virada cultural da cidade.

Destaque de chão com a fantasia “Herança de Pai Felipe”, Silas de Oliveira, de 49 anos, elogiou a homenagem, mas também fez uma reflexão crítica. “É uma homenagem muito bonita, porque mostra que a nossa herança é gigante. Muita gente não conhece essa história, como eu mesmo não conhecia a fundo”, afirmou.

Segundo ele, o desfile também aponta desafios. “Ainda tem muita desigualdade. Isso é nacional. A cultura sambista e a cultura popular precisam ser mais abraçadas, porque ainda são muito marginalizadas, mesmo gerando emprego e conhecimento”.

Mundaréu da Real Mocidade consagrado?

Na reta final de seu manifesto cultural, a Real Mocidade Santista reforçou a mensagem de que a arte nasce do povo e retorna a ele como identidade, representada em sua Velha Guarda.

Fundada em 1985, a Real Mocidade Santista já foi campeã do Grupo de Acesso duas vezes. Com um desfile muito animado, encerrado aos 54 minutos, a Realeza do Samba entra, em 2026, na busca de um título inédito no Grupo Especial.

O Carnaval 2026, com transmissão multiplataforma do Sistema Santa Cecília de Comunicação, tem o patrocínio do Grupo Yamam, Pedra Baiana (Aparecida) e Sabesp. O apoio da Piso Lessa e Praiamar Shopping.

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