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Os vinhos do Líbano

Para compreendermos o vinho libanês, precisamos entrar um pouco na rica história deste belíssimo país, que tantos descendentes deu ao Brasil

O Líbano é um país pequeno, cuja primeira ocupação histórica remonta aos fenícios, que por mais de 2.500 anos dominaram a região (notadamente os territórios do que hoje são o Líbano e a Síria), mas que também passa pelos gregos (Alexandre O Grande integrou a região à civilização helenística), egípcios, Império Selêucida (Seleuco era um dos generais que serviram a Alexandre e, com sua morte, acabou se tornando imperador de uma porção de terras, que ia do Mar Egeu até o atual Afeganistão, sendo considerado o maior e mais poderoso império da época), Império Romano (até hoje o Líbano tem exemplares importantíssimos da arquitetura romana) e Império Bizantino (que disseminou o cristianismo na região). Com a conquista da região pelos povos árabes já convertidos ao islamismo, por volta do Século VII, a região passou a adotar a língua e a religião, apesar de ainda haver uma minoria de cristãos e judeus. Por volta do Século XIV os turcos otomanos conquistaram a região, sendo que ao final do Século XIX e começo do Século XX, iniciou-se uma perseguição étnica e religiosa que fez com que muitos libaneses fugissem para outros países do mundo, dentre eles o Brasil, como acima anotado. Ao fim da Primeira Guerra Mundial, que redundou, também, na queda do Império Otomano, a região foi ocupada pela França e Reino Unido, mas, após tratados entre estes países, o país foi posto sob proteção francesa, até que em 1926 foi criada a República Libanesa, sendo ela, entretanto, ocupada durante a Segunda Guerra Mundial pela França. A independência veio em 1943, com uma grande prosperidade econômica ao país, que passou a ser conhecido como a Suíça do Oriente. Em meados de década de 1970, porém, o país se viu mergulhar em uma guerra civil violenta, tendo de um lado os cristãos e de outro os muçulmanos, e que durou uma década e meia. Atualmente o país vive um bom momento, apesar das graves tensões provocadas por guerras em países vizinhos, e que sempre ameaçam a estabilidade.

Essa digressão é relevante, pois registros arqueológicos dão conta de que os fenícios começaram a plantar uvas e produzir vinhos na região cerca de 3.000 anos a.C. E, os povos que os sucederam eram, também, grandes consumidores da bebida, o que nos dá a certeza de que o plantio e produção não retraíram, ao menos até o domínio muçulmano...

Daí termos um vácuo na história da vitivinicultura libanesa, que volta a se firmar a partir de 1930, com a fundação do Château Musar por Gaston Hochar, e que eleva o vinho libanês a um outro patamar, abrindo as portas para que outras vinícolas se estabelecessem e passassem a produzir vinhos de alta qualidade. Hoje estima-se haja cerca de 40 vinícolas no país, além de muitos outros produtores que vendem suas uvas para as vinícolas e para os produtores de arak (as mais importantes vinícolas também o produzem), bebida destilada típica da região e com sabor de anis.

Neste contexto é que a indústria vitivinícola se estabeleceu e se desenvolve com muita eficiência no Líbano, notadamente na região do Vale do Bekaa (a maior região administrativa do país) e proximidades. Estas regiões ficam, em sua maioria, entre duas cadeias de montanhas, a saber, o Monte Líbano e o Monte Antilíbano.

As regiões dedicadas à produção de uvas viníferas estão muito próximas da capital Beirute, que se encontra à beira do Mar Mediterrâneo, e chegam a ter plantio em áreas localizadas a 1.800 metros acima do nível do mar, sendo considerados vinhedos em maior altitude no mundo.

A geografia das regiões de plantio colabora muito para a qualidade das uvas, sendo certo que de dia há muito sol, enquanto as temperaturas caem significativamente durante a noite, principalmente nos vinhedos localizados em grandes altitudes.

As principais vinícolas do país, e que contam com importação para o Brasil, são Château Musar, Château Krefrya, Château Ksara e Ixsir. No que tange às castas utilizadas, apesar do Líbano ter suas cepas autóctones, as francesas dominam a maioria dos vinhedos.

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Château Musar
Esta vinícola, localizada na cidade de Ghazir, região administrativa (distrito) de Keserwan, a apenas 24 Km de Beirute, é responsável por grande parte do sucesso mundial alcançado pelos vinhos libaneses, fruto da obstinação de Gaston Hochar, que, aos 20 anos de idade, decidiu produzir vinhos de qualidade no Líbano, impressionando os oficiais do exército francês que, à época do início das atividades da vinícola, ainda promoviam a ocupação da região, cujas fronteiras ainda não haviam sido delineadas, e que era objeto de preocupação do jovem empresário.

O filho mais velho de Gaston, Serge Hochar, que desde cedo trabalhou na vinícola, ao retornar de seus estudos na prestigiada Universidade de Enologia de Bordeaux, em 1959, pediu ao pai para assumir a vinícola, pois queria fazer vinhos que fossem reconhecidos mundialmente, e, contando com a aquiescência do genitor, passou a comandar a produção da vinícola, enquanto seu irmão mais novo, Ronald, assumiu a parte comercial e de marketing. Vale anotar que Serge foi eleito em 1984 o primeiro “Homem do Ano” da revista Decanter, que passou a entregar desde então essa menção honrosa a grandes personalidades do mundo do vinho, anualmente.

Hoje a terceira geração dos Hochar já trabalha na empresa, que produz algumas joias da vitivinicultura mundial, como o Château Musar Red, o ícone da vinícola, um blend de Cabernet Sauvignon, Carignan e Cinsault provenientes de dois vinhedos localizados no Vale do Bekaa (Aana e Kefraya) com solos de cascalho sobre calcário. Da mesma linha, o Rosé e o Branco são dois vinhos especiais.

A vinícola ainda produz o excelente segundo vinho da casa, Hochar Père et Fils Red, que também é um blend, todavia utilizando-se das castas Cinsault, Grenache, e Cabernet Sauvignon, provenientes de um único vinhedo localizado na vila de Aana, no Vale do Bekaa, com solos profundos sobre calcário.

Há, ainda, a linha de entrada, o Musar Jeaune, um vinho jovial, como o próprio nome estabelece, fácil de beber, e que procura atrair um público menos preocupado com a complexidade, muito embora não abra mão da qualidade. Os vinhos do Château Musar são importados pela Mistral Vinhos (www.mistral.com.br).


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Chateau Kefraya
A história desta vinícola remonta a 1946, quando Michel de Bustros começa a construir a sede num monte artificial utilizado pelos romanos séculos antes para observar o movimento das tropas na região, e começa apenas com plantação de uvas viníferas em 1951. Somente a partir de 1979 Chateau Kefraya começa a produção de seu próprio vinho, com suas próprias uvas.

O sucesso da vinícola começa pouco tempo depois do início da produção de vinhos próprios, e atualmente os vinhos ali elaborados estão presentes em mais de quarenta países. O ícone da vinícola é o Comte de M, um blend de Cabernet Sauvignon e Syrah oriundos de um vinhedo de apenas 9 hectares, que se encontra a 1.100 metros acima do nível do mar. Também merece destaque o Chateau Kefraya Red, um corte de Cabernet Sauvignon, Syrah e Mourvèdre; o Chateau Kefraya Amphora, elaborado em jarros de argila, tal como os fenícios faziam cerca de 4.000 mil atrás; o Chateau Kefraya Millesima, um blend de tintas de diferentes colheitas; e, por fim, o Chateau Kefraya Adéenne, um branco elaborado apenas com uvas nativa libanesas (Mekssesse, Obeidi e Merwah).

A importadora oficial do Chateau Kefraya no Brasil é a Zahil Vinhos (www.zahil.com.br).

 

 

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Château Ksara
Trata-se da mais antiga vinícola libanesa, fundada em 1857 por monges jesuítas, que iniciaram o plantio de 25 hectares entre Tanail e Zahle. Padre Kirn teria sido o religioso que reconheceu o potencial das uvas ali plantadas para a produção de vinho, convencendo os demais para utilização da fruta com esta finalidade. Os religiosos se utilizaram de uma gruta que remontava ao tempo da dominação romana para deixar o vinho envelhecer em barricas de carvalho, atribuindo-se muito do sucesso da vinícola à temperatura e umidade constantes das cavas, durante todo o ano.

Em 1973, quando a vinícola já produzia cerca de 1 milhão e 500 mil garrafas de vinho por ano, o Vaticano estimulou os monastérios e missões mundo afora a vender seus ativos comerciais. Foi quando o Château Ksara foi adquirido por um consórcio de empresários locais, sendo que atualmente seu chairman é Zafer Chaoui.

A partir de 1991 a vinícola começa o plantio de uvas viníferas europeias, tais como Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Sauvignon Blanc, Semillon e Chardonnay. Os fazendeiros locais não acreditaram que estas castas sobreviveriam ao terroir do Vale do Bekaa, mas, ao contrário, o resultado foi extremamente satisfatório.

Os vinhedos da vinícola estão em média a 1.000 metros de altitude, e em solos que variam do giz, giz com argila e argila com calcário, mas sempre pedregosos.

O ícone da vinícola é o Cuvée do IIIème Millénaire, um corte de Petit Verdor, Cabernet Franc e Syrah. Há também um excelente Rosé, denominado Sunset, e produzido a partir de uvas Cabernet Franc e Syrah.


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Ixsir
Esta vinícola moderna, fundada em 2008, já foi idealizada para ser uma das melhores do Líbano, e já começa pelo nome, que significa Elixir, palavra definida como “a mais pura forma de todas as substâncias”. Seus sócios, o francês Ettiene Debbane e o franco-brasileiro de descendência libanesa Carlos Ghosn, que foi presidente da Renault, da Mitsubishi Motors e da Nissan, envolvendo-se recentemente em uma polêmica em razão de suposta fraude fiscal no Japão, onde chegou a ser preso, mas conseguiu uma fuga cinematográfica, indo para o Líbano, onde se encontra até o momento. Carlos é também sócio da vinícola libanesa Massaya.

Suas instalações foram erigidas nas colinas da cidade de Batroun, a cerca de 60 Km de Beirute, a partir de uma construção do Século XVII, mas com modernas e lindas instalações, tanto da área de vinificação quanto de recepção ao turista.

Os vinhedos ficam entre 400 e 1.800 metros de altitude, que estão espalhados de norte a sul do país, e que contemplam áreas próprias e parcerias com viticultores autônomos. Quase todos estão acima dos 1.000 metros de altitude, e com solos muito bons para o cultivo a que se destinam. O vinhedo mais alto é o Ainata, onde são plantadas as variedades Syrah, Cabernet Sauvignon e Caladoc.

O produto número um da vinícola é o El Ixsir, um corte de Syrah (55%), Cabernet Sauvignon (35%) e Merlot (10%), provenientes dos vinhedos Ainata, Yamoune e Kab Elias, compostos de argilas férricas com placas de calcário. O El Exsir branco é um corte de Viognier (70%) e Chardonnay (30%), provenientes dos vinhedos Niha e Kab Elias. O portfólio ainda é composto pela excelente linha Grande Reserve (tinto, branco e rosé) e a linha Altitudes, também com tinto, branco e rosé. Quem traz os vinhos da Ixsir para o Brasil é a importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br). 

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Bom, agora, com todas essas dicas acerca dos vinhos libaneses, escolha o seu e pense na harmonização. Mas, já que é pra entrar no clima, porque não encarar como entradas um labneh (coalhada seca), homus (pasta de grão de bico) e baba ghanoush (pasta de berinjela), quibe frito e de assadeira, esfihas (de carne!!!!), kafta e outros tantos pratos típicos da culinária árabe, todos deliciosos.

Fi sihtik (Saúde)!!! 







 

 

  • Publicado por: Fernando Akaoui
  • Postado em: terça-feira, 16 jun 2020 18:06Atualizado em: terça-feira, 16 jun 2020 18:12

Comentários (2)

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Duclerc

• 17/06/2020 11:51

Parabéns
Excelente abordagem dos vinhos libaneses, assim como da sua história. Obrigado Fernando por compartilhar conosco essa excelente matéria. ????????????????

Wagner

• 16/06/2020 20:14

Parabéns
Mais um artigo fantástico do professor Akauoui, sempre aprendemos!!!