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Amores entre folhas de um livro de Vicente de Carvalho

... Eros sacudiu meus
sensos, qual vento montanha abaixo a desabar sobre as árvores...

Ó doce mãe, não posso mais tecer a trama –

domada pelo desejo de um menino, graças à esguia Afrodite...

...morta, honestamente, quero estar;
ela me deixava chorando... 

... Eros de novo – o quebra-membros – me agita,
doce amarga inelutável criatura...
Fragmentos 47, 94, 102 e 130 de Safo de Lesbos


Alguns livros são únicos pela excelência que alcançam; outros pelo que fazem dele leitores e leitoras. A história que segue é a de um excelente livro e do que fez dele uma leitora.

I
As notas
Em 17 de abril de 1971, um sábado, Rose, leitora do Poemas & Canções de Vicente de Carvalho, faz anotações na folha em branco entre as primeira páginas de um exemplar da 16ª edição do livro, publicada nos anos 60 pela Saraiva:

“Dois homens se encontram e um pergunta ao outro qual o caminho para o Oriente, o outro responde que todos os caminhos levam ao Oriente, o outro então põe-se a caminhar pelo meio do mato.
Entendeu?
Pois é... não tem explicação...
Ou talvez tenha várias.
Cada qual decifre com a mente mais fria.”
Rose
17/4/71

E logo em seguida:

“Vida...
O que é esse problema chamado vida!
É um enigma:”
17/4/71 (sábado)

Além dessas duas anotações com a mesma data, escritas em diagonal e com a mesma caneta fina de tinta azul clara, lemos outra nota com a mesma letra, porém com uma caneta de traço mais forte, tinta azul escura e orientação horizontal:

“O amor necessita de fatos e que as palavras sirvam para apenas para reforçar o esses fatos...” (as palavras com uma linha por cima representam as rasuras no original).

A disposição indica que a escrita em azul escuro é posterior e seu conteúdo revela o motivo das anotações: Rose reflete sobre um amor perdido, como fica claro em outra anotação em azul claro datada de 1971 na página 73:

“Pra mim ser feliz era ter você... de qualquer jeito... louco... inconstante... Era acreditar em você cegamente
(Era) fazer de você o meu Deus
Ser feliz era ter você...
Você tal como é, sem preocupar se você realmente me amava”
R 1971

II
Leituras e amores de Rose
Vamos primeiro tentar desfiar essa trama. São dezenas de anotações espalhadas pelas páginas do livro. Começam após o famoso prefácio de Euclides da Cunha e são mais esparsas nas seções que tratam de temas épicos ou mitológicos, como Fugindo ao cativeiro, que trata de uma fuga de escravos pela Serra do Mar em direção ao quilombo do Jabaquara. Rose desabafa e reflete sobre uma desilusão amorosa.

Além das anotações em azul claro e azul escuro, Rose escreveu no livro também a lápis, com data de julho do ano anterior, 1970. Em um esquema geral, podemos dispor as anotações da seguinte forma:

1)      A lápis, em julho de 1970, Rose está de coração partido, magoada. São as notas de maior número, geralmente no tempo presente. Há outras também a lápis no tempo passado, mais reflexivas, talvez escritas em outro momento;

2)      Em caneta azul clara, abril de 1971, o tom é de reflexão. São notas mais extensas e em menor quantidade;

3)      Em caneta azul escura, sem data, refletem e comentam as anotações a lápis, com certeza são posteriores a elas; a disposição em relação às notas em azul claro que abrem o livro indica que são posteriores a essas também.
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Na página 110, uma anotação indica quando tudo começou:

“Minha alma na tua alma
– Nuvem que trouxe o vento –
Passou por um instante,
Roçou por um momento.”

Ao lado dos versos de Vicente de Carvalho, lemos em azul claro “Antonio Carlos” e “janeiro de 1970”. Mas, como dizem, a trama se adensa: na página ao lado, ainda no mesmo poema, os versos “Mentias... E a mentira / Era um gorjeio de ave... Morresse eu enganado / De engano tão suave” estão acompanhados por outro nome, Vagner. O que terá acontecido? Havia Antonio Carlos e Vagner apareceu e despedaçou o coração de Rose? Vagner ou Antonio Carlos, qual dos dois partiu o coração de Rose, partiu. É o que ela anota (“Eu e tua partida”) ao lado dos versos “Pois que te vais tão contente / E me deixas tão sem nada...” (página 161).

Na seção Da carteira de um doudo – que tem início com os versos “Numa cova bem funda, em sítio agreste / E solitário, junto / Das severas raízes de um cipreste / Meu coração deitei como um defunto.” – Rose comenta:

“Pedaços da minha história (resumida)”

Em uma estrofe de Palavras ao mar temos anotações a lápis e com caneta: “Nosso amor” a lápis antecede os versos “– Beijo que se desfaz sem ter vivido. / Triste flor que já brota desfolhada”, seguidos pela reflexão em azul claro:

“Nunca + você no meu caminho
Nunca + (não gosto dessa palavra”

Na página seguinte, as linhas de Vicente de Carvalho “Versos, marulho! Amargos confidentes / Do mesmo sonho que sonhamos ambos” são acompanhadas por duas reflexões de Rose: “Seja bom ou mau, traga recordações boas ou más, os sonhos são os mesmos” (lápis) e “E mesmo de modos tão diversos, no fundo querem dizer a mesma coisa” (tinta azul escura).

Outras reflexões sobre sonhos estão na página 257, em que os versos “Sonho belo talvez, com certeza, / Feito de riso e pranto, / Feito de sombra e luz, de alegria e tristeza / De encanto e desencanto.” – da seção Sonho Póstumo – são acompanhados pelos três tipos de notas:

“Sonho confesso” (lápis);
“O meu sonho em relação a você” (em tinta azul escura, explicando a nota a lápis);
“O meu amor por você” (tinta azul clara).

Ao final da seção Oração Pagã, uma reflexão final de Rose sobre os sonhos. Os versos “Ó meu amor, porção de nadas! / Tu sonhas tanto... E eu vejo só / Sonhos que de asas fraturadas / Rojam no pó...” são seguidos pelo comentário: “Meu amor era muito grande para os teus sonhos tão pequenos”.

III
Rose e Vagner
Abrindo a seção Trovas, a escrita em diagonal em tinta azul claro, traz um alento:

“Hoje estamos separados e esquecidos. Mas não importa, eu sei que 1 dia você me amou”.

Na página 210, originalmente em branco por anteceder a seção No mar largo, Rose faz em tinta azul clara talvez uma das mais fortes declarações: “A última vez que nos vimos, foi a última que eu chorei”.

Em outra página em branco, no mesmo estilo, outra reflexão: “Você foi o único 1º homem pra quem eu me rebaixei, e foi também o último”. A rasura em “único” demonstra a atitude de reflexão, de reconsideração sobre as coisas do passado.

Na seção Deslumbramento, reflexões sobre a ilusão. Os primeiros versos, “Quanto durou essa ilusão perdida / Esse amor, esse encanto, essa alvorada?”, têm um nome sobre eles, Vagner, com uma seta direcionada para a palavra “perdida”.

IV
Rose e Lilian
Mas há ainda outra personagem nessa história, Lilian, que também escreve no exemplar. São poucas frases, não mais de cinco, que comentam notas de Rose. A relação entre as duas começa na página 221 e tem um tom bem mais carinhoso e terno do que as agruras com Vagner (ou Antonio Carlos). A letra de Lilian é mais miúda que a de Rose, ficando bem fácil identificar o “diálogo”.

Lembram de Deslumbramento, no qual o nome Vagner está ligado à expressão “ilusão perdida”? O poema termina assim:

“E hoje, que para toda a eternidade,
Eu despertei do sonho de um momento,
Hoje, na sombra, penso com saudade
Que o teu encanto era uma claridade
E o meu amor foi um deslumbramento.”

Os dois últimos versos são anotados por Lilian com intensidade: “o fim do nosso amor será assim”. Ao que Rose responde: “Talvez essa seja a nossa grande verdade. Vou dar-lhe o nome ‘momentos’. É igual ao que passou comigo e talvez o fim seja o mesmo”. A palavra momentos entre aspas é reveladora, não?

Parece invenção aqui da Estante, mas o fato é que a continuação da conversa entre as duas está na seção Rosa, Rosa de Amor. Antes dos primeiros versos, Rose escreve em um tom bem mais lírico do que sobre o passado:

“A vida é uma eterna poesia, é um eterno descobrir.
O amor... são todas as coisas verdes; só teus olhos não eram assim. Eles eram como as aves errantes, que procuram tanto sem saber ao certo ‘o quê’”.

Novamente as aspas. E Lilian responde:

“Tudo é poesia, em cada palavra uma dor, em cada pensamento uma saudade”.

Após o verso final do segundo poema da seção: “Alcança-a meu beijo. O noivado começa”, Lilian vibra: “Bela!!! Poesia em forma de sonho”. E Rose recomeça:

“O começa de uma vida nova. A esperança de um futuro maravilhoso. Um beijo com + gosto de amor”.

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Epílogo
O último diálogo entre Rose e Lilian ocorre na página 289, no qual voltamos aos fragmentos. Após os versos “Ai, eu só vivo, querida, / Pedaços da minha vida...”, Lilian comenta: “Essa poesia traduz a verdadeira ânsia de amar”. E Rose: “Pedaços que já satisfazem um amor muito grande”.

O último poema do livro leva o nome de Última Confidência, tendo por último verso a expressão “Até morrer... de amor”. Virando a página, a última declaração de Rose:

“Um amor muito grande, que mesmo na hora final quis ficar em silêncio. Um silêncio fatal...”

À parte, em um pedaço de folha de almaço encontrada no meio do livro, uma reflexão de Lilian: “A vida é feita de ilusões, nasce uma, morre outra, e assim vamos sentindo, que não é só de realidade, que vivemos”.
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Intuímos o final dessa história de amor, aproximamo-nos de Rose ao mesmo tempo em que a sabemos inalcançável. Esse amor pode ter ficado em silêncio, mas foi escrito, às margens de um livro, mas foi escrito.

Rose amou e um livro de Vicente de Carvalho traz os rastros de sua história.


Estante
Vicente de Carvalho. Poemas & Canções. São Paulo: Saraiva, s/data (1ª edição 1908).

Lira grega. Antologia de poesia arcaica. Organização e tradução Giuliana Ragusa. São Paulo: Editora Hedra, 2013.

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.