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Sombras sobre Santos

Porque a razão dorme. Ela exige um esforço áspero de vigília,
enquanto à noite, o obscuro, o monstruoso, nascem naturalmente.
O homem é assediado pelas trevas.
Jorge Coli

I
A cidade de Santos é atacada por monstros dignos ou aparentados a Godzilla. Um lagarto chega pela praia e avança sobre o Gonzaga destruindo a Praça das Bandeiras; um polvo enfia seus tentáculos por entre os vãos da mureta da Ponta da Praia e as arranca facilmente, destruindo nosso símbolo preferido; uma tartaruga emerge do Estuário, destói um navio e cospe fogo sobre o cais. Esse é o marco inicial de Monstros! (2012), narrativa visual de Gustavo Duarte.

Chamo narrativa visual porque o autor não usa sequer uma palavra além do título pra contar sua história, até mesmo os balões nos fortuitos diálogos estão preenchidos pelos monstros que as palavras descrevem. Uma de suas estratégias é a utilização de sombras para anunciar seus monstros: o quadrinho imediatamente anterior à duas das três aparições é tomado pela escuridão, que contrasta com a suave monocromia das imagens. Abaixo, três miniaturas com a chegada do lagarto ao Gonzaga:

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Gigantescas como o mais recente Godzilla do cinema, as três criaturas são precedidas pelas sombras que as anunciam (o filme também se utiliza da sombra, mas sem contraste, a película é toda marcada por uma fotografia sombria, confira abaixo). As duas histórias exploram o arquétipo do assédio da humanidade pelas trevas.

II
O título de hoje é tomado emprestado de Sombras sobre Santos: o longo caminho de volta, livro-reportagem de Ricardo Marques da Silva e Carlos Mauri Alexandrino publicado em 1988, que conta a história política da cidade entre o golpe civil-militar de 1964 e a reconquista da autonomia política em 1984 com a posse do prefeito eleito Osvaldo Justo.

No livro, o período da ditadura é tratado como uma sombra sobre a cidade, ideia magistralmente ilustrada na fotografia de Rafael Dias Herrera escolhida para abrir o capítulo Tempos Sombrios: uma imagem de quepes militares que cobrem - fazem sombra - a mesa do salão nobre da Prefeitura no dia da posse do interventor imposto.

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Projetando todo o período, o livro traz o episódio do navio pintado de preto. o Raul Soares, despojado de suas funções de comunicação de porto em porto para transformar-se em um presídio fundeado no meio do canal do Estuário (esse mesmo pelo qual a tartaruga invade a cidade):

"... na manhã de 24 de abril de 1964, outro navio apontou sua proa em direção ao canal do estuário, arrastado por dois rebocadores. A não ser pelo casco pintado de preto, parecia um navio como outro qualquer. Porém, em vez de permancecer em um ponto do longo cais, ele fundeou sobre um banco de areia no meio do canal, perto da Ilha Barnabé, e ali mesmo ficou."


III
Voltando à invenção literária, quem tratou de forma poética a presença dessa sombra no cais foi Lídia Maria de Melo, em poemas de 1982 inseridos em seu livro Raul Soares: um navio tatuado em nós. O livro traz um relato jornalístico sobre as trajetórias de alguns dos prisioneiros; já os poemas são feitos a partir da perspectiva da menina que teve o pai sindicalista preso no local.

O poema Apenas um navio, como já tive a oportunidade de escrever em outra ocasião, carrega no próprio título toda a singularidade do episódio, um texto que evoca a infância à beira do cais como muito comum, por exemplo, nos versos de Ribeiro Couto, mas uma infância marcada pela incerteza do Estado de Exceção após o golpe.

Apenas um navio

"No ano de meia quatro,
no meio do estuário
em frente ao porto de Santos,
o porto de minha infância,
Das barcas e das catraias,
dos navios e rebocadores,
Dos trens e dos armazéns,
onde os botos,
às cinco e meia da tarde,
viraram cambalhotas
enquanto as gaivotas
fisgavam peixes no mar,
avistava-se um navio
velho, preto,
ancorado
próximo à Ilha Barnabé,
que os menos informados
confundiam com um navio comum.
Mas eu e muitas crianças,
que ansiavam
para verem os pais
(confinados),
sabíamos que ele era bem mais
que um navio qualquer
e o culpávamos
pela ausência paterna
nos almoços de domingo,
pela angústia disfarçada nos olhos de nossas mães,
pela melancolia que abraçava
todas nossas brincadeiras,
pela vontade de chorar
sem saber bem o porquê.
Nós já sentíamos tudo
e éramos tão crianças!
Só o que não entendíamos
é que o Raul Soares
era apenas um navio
e não tinha culpa de nada.
Não tinha culpa de ter virado
instrumento repressivo
no ano de meia quatro."

Mais para o final do livro, ao narrar a retomada da vida comum (???) do pai, Iradil, após a anistia em 1980, que lhe propiciou voltar a trabalhar, Lídia ergue um brinde em sua homenagem com um poema cujos três versos finais são assim:

"Até parece piada.
Te arrebentaram...
Te matar não conseguiram."

Versos que conversam com outras citação de Jorge Coli: "Afastar o obscuro - eis o desejo primordial".

Epílogo
Além da capacidade de narrar visualmente, Monstros! também faz uma viagem pelo tempo e mostra uma Santos, a julgar pelos carros nas ruas e programas de TV que as personagens assistem, da primeira metade da década de 1980, quando assistíamos a seriados japoneses como Spectreman, tanto que o livro é dedicado ao Dr. Gori, o arqui-inimigo do protagonista.

Mas o livro não traz referências apenas à cultura pop japonesa: logo no início, antes do "Gonzaguizila" (invenção minha esse nome) surgir do oceano, a superfície da água vai turbilhonando-se e o agito produz uma onda que é praticamente uma citação da famosa A Grande Onda de Kanagawa (1830-1831), xilogravura de Katsushika Hokusai.

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Seu Pinô, dono de um bar que vai enfrentar os monstros, tem todo um jeitão de um Merlin do Macuco que prepara poções mágicas em um caldeirão sobre o balcão de seu estabelecimento. Na Ponta da Praia, um pouco antes de enfrentar o polvo, Pinô retira do local um senhorzinho bem míope que estava pescando por ali e que acaba indo embora em uma lambreta italiana.


E isso para não falar da estante de Pinô na cena final, repleta de troféus conquistados em aventuras anteriores. Para citar apenas dois: estão ali a Jules Rimet e Excalibur.

Estante
Gustavo Duarte. Monstros!. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Ricardo Marques da Silva & Mauri Alexandrino. Sombras sobre Santos: o longo caminho de volta. Santos: Secretaria Municipal de Cultura, 1988.

Lídia Maria de Melo. Raul Soares, um navio tatuado em nós. São Paulo/ Santos: Pioneira/ Universidade Santa Cecília dos Bandeirantes, 1995.

Jorge Coli. "Da luz e da sombra". In.: O corpo da liberdade. Reflexões sobre a pintura do século XIX. São Paulo: Cosac Naify,  2010. 


 

 

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.