REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

Novas luzes dão novas sombras

Para Jeanice

Os gregos contam que Teseu recebeu de presente de Ariadne um fio.
Com esse fio Teseu se orientou no labirinto, encontrou o Minotauro
e o matou. Dos rastros que Teseu deixou ao vagar pelo labirinto,
o mito não fala.
Carlo Ginzburg

A frase é simples: “Deitei-me sobre um leito depois de me haver despojado do manto e da túnica”. Quem a profere é Adriano, imperador romano, na carta-testamento endereçada a Marco Aurélio, seu sucessor. Isso ocorre no romance Memórias de Adriano (1951), de Marguerite Yourcenar, em que a autora belga reconstrói a vida dessa figura histórica por meio do relato ficcional em primeira pessoa.

No final de sua vida, aos 60 anos, doente, Adriano decide contar sua trajetória, decisões e contingências ao amigo que iria substituí-lo, senão como guia, ao menos como reflexão. A frase está no primeiro parágrafo do livro, logo após o “Meu caro Marco”, sinal claríssimo de que nos encontramos com uma carta. Nesse ato de despojar-se do manto e da túnica para realizar um exame médico, vemos a transformação do imperador em homem, que Yourcenar busca conhecer.

O simbolismo da túnica, do manto – bem como dos tapetes – e suas cores é corrente na Antiguidade. No ensaio Apolo Trágico, Yourcenar lembra do tapete púrpura que Clitemnestra estende a seu marido Agamênon, líder dos gregos, após retornar vitorioso de 10 anos da Guerra de Troia. Travestido de homenagem, o tapete leva a uma armadilha na qual a rainha e seu amante assassinam o rei como vingança por ter sacrificado a filha Ifigênia, antes mesmo da guerra, para conseguir bons ventos que levasse as naus contra o inimigo.

“No alto, no banheiro do palácio, os amantes adúteros afiam seus punhais como hospedeiros decididos a sangrar o estrangeiro, pois depois de dez anos de guerra, glória e ausência, Agamênon é apenas um estrangeiro para o coração de Clitemnestra”.

O próprio gesto de despojar-se do manto e da túnica, claramente visível em nossas mentes, é também uma operação textual. Com essa frase, Yourcenar também nos avisa: “Caro leitor, cara leitora, aqui eu despojo Adriano do manto e da túnica da História e o deixo nu, nu apenas como a Literatura pode fazer”. Essa triangulação entre imperador, homem e personagem tece o fio pelo qual a autora se orientou pelo labirinto da ficção.

É aí que quero me deter, no caminho que ela trilhou. Para despojar-se da História, Yourcenar teve que conhecê-la a fundo, saber de tudo sobre a Antiguidade que fosse útil para a construção de seu monumento. Foi um trabalho que durou décadas e que reúne árdua pesquisa, achados, acasos, reflexões e momentos de desespero, uma metáfora para a pesquisa científica, principalmente a não utilitária, que descobre mundos, que vislumbra e transforma, um paralelo que ouso julgar útil nesses nossos tempos anticientíficos.

Ela mesma conta essa história no Caderno de Notas que acompanha o livro, uma espécie de arqueologia de sua própria escrita. A primeira nota dá o tom do rigor com que Yourcenar trata o próprio trabalho: “Esse livro foi concebido, depois escrito, no todo e em parte, sob diversas formas, entre 1924 e 1929, dos vinte aos vinte e cinco anos. Todos esses manuscritos foram destruídos, e mereciam sê-lo”.

Nesses primeiros anos, porém, Yourcenar já havia encontrado o motivo de sua busca, um trecho de uma carta de Flaubert sublinhado por ela em 1927: “’Os deuses, não existindo mais, e o Cristo não existindo ainda, houve, de Cícero a Marco Aurélio, um momento único em que só existiu o homem’. Grande parte de minha vida ia passar-se tentando definir, depois descrever, esse homem sozinho e, no entanto, ligado a tudo”.

O projeto é retomado entre 1934 e 1937. Desse período, uma frase apenas permaneceu: “Começo a discernir o perfil de minha morte”. É quando ela encontra o “ponto de vista do livro”. A passagem da visita ao médico, remanejado, vem dessa época. Até 1939, o trabalho pouco avança. Durante a II Guerra e até 1948, talvez reflexos desses anos, ela vê o projeto com “indiferença” e “desânimo”. E a nota seguinte: “Mergulho no desespero de um escritor que não escreve”.

Mas, para ficarmos com a metáfora, a pesquisa continua porque a vida continua: em 1941, Yourcenar encontra por acaso gravuras de Piranesi, entre as quais Vila Adriana, de 1768. Novas luzes dão novas sombras: ela passa os anos seguintes contemplando diariamente a obra, apenas por gosto, sem dedicar-se a vinculá-la ao projeto: “Tais são os curiosos desvios daquilo a que chamamos esquecimento”. Também nunca deixou de ler autores da Antiguidade.

Escreve em 1943 o ensaio Mitologia grega e mitologia da Grécia em que, entre outros nomes, retrata Adriano como um mecenas que também buscava na Grécia um passado para sua Roma. No trecho a seguir desse texto, Yourcenar faz um breve histórico das relações entre a Grécia real e as Grécias imaginárias:

“... tal transfiguração já se produzira nos próprios gregos, o coro de Édipo em Colono, onde Sófocles contribui para a criação de uma Atenas lendária; na frisa do Partenon, onde os magistrados e recrutas quase não se distinguem dos deuses; no discurso que Tucídides empresta a Péricles e que faz de Atenas um lugar tão ideal quanto A República de Platão. Dessa Grécia de lenda, Pausânias será o turista, Plutarco o cronista, Adriano o mecenas benévolo”.

Em 1948, ela recebe de volta uma mala que havia deixado em depósito durante a guerra repleta de papéis de família e cartas velhas. Entre a correspondência com nomes que não mais importavam, ela encontra quatro ou cinco amareladas folhas datilografadas “Meu caro Marco...”. É o gatilho para retomar o texto: “Desde aquele momento, a questão era reescrever o livro, custasse o que custasse”.

Mais do que metáfora, talvez a literatura seja um espelho para a pesquisa científica. Dois caminhos em busca da verdade. É Marguerite Yourcenar mesmo que define:

“Refazer por dentro aquilo que os arqueólogos do século XIX fizeram por fora”.

blog20205812805.jpg

Pós Escrito
A fala em que Clitemnestra convida Agamênon a entrar no palácio (armadilha?) está na tragédia Agamemnon, de Ésquilo. O rei está reticente, não quer a homenagem, mas é convencido pela rainha:

“Não baste o muito que sofremos! Nada
de inveja! Agora, caro amigo, desce
do carro, sem pousar o pé no chão,
funesto à Tróia. Ó rei! O que esperais,
ancilas? Não mandei forrar a trilha
de seu percurso com alfombras rútilas?
Que a sua senda tinja-se de púrpura,
E Dike, a Justa, o leve ao lar sonhado!
Hipnos não dobra a mente que ao destino
Conduz o resta, reta. E o nume anui.”

Estante
Marguerite Yourcenar. Memórias de Adriano. Tradução Martha Calderaro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Marguerite Yourcenar. Mitologia grega e mitologia da Grécia. In: Peregrina e estrangeira. Ensaios. Tradução Myriam Campello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

Ésquilo. Agamemnon. Tradução, introdução e nota Trajano Vieira. São Paulo, Editora Perspectiva, 2007.

 

 

Leia Mais
  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 08 mai 2020 18:59Atualizado em: quinta-feira, 28 mai 2020 13:17
REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

Corujinha Bubu e Umberto Eco: Falso, mentira e invenção

No fundo, o primeiro dever da pessoa de cultura
é o de manter-se alerta para reescrever a cada dia a enciclopédia.

Umberto Eco

Quem gosta de documentários sobre vida selvagem já deve ter visto imagens de pássaros pousados tranquilamente dentro de escancaradas bocarras de crocodilos. Estão ali se alimentando de restos de comida presos entre os dentes dos répteis que, em troca da higiene bucal, nada fazem contra as aves.

I

No episódio Operação Resgate da série de animação infantil Bubu e as Corujinhas, Bubu, uma coruja criança passeando na mata com seu irmão e sua irmã, chega à margem de um rio e depara-se com um crocodilo de boca aberta com um passarinho ali dentro.

Bubu, que deve nunca ter visto um documentário sobre vida selvagem, chega à conclusão de que o pássaro está em perigo e convence os irmãos a participar de um plano de resgate, daí o título do episódio. A aflição de Bubu é tanta que, além dos irmãos (sua irmãzinha é tão pequena que ainda está com a casca de ovo entre as pernas como uma fralda) envolve também o macaco, a girafa e outros bichos na operação.

Ao final, a corujinha acaba aprendendo que o que parece às vezes não é. É a mãe de Bubu que dá a lição: “Corujinhas, a intenção de vocês foi boa, mas é preciso muito cuidado para não espalhar alarmes falsos. Vocês poderiam ter assustado muitos animais. Nunca devemos contar algo sem termos certeza de que é uma verdade”.

A fala acima parece ter sido escrita para alertar as crianças desde bem pequenas a não repassar notícias falsas ou boatos. Não é à toa que o episódio, da temporada de 2018, concorreu naquele ano a melhor curta de animação no Festival Internacional de Animação Ajayu, realizado em Puno, Peru.

II

Em A Força do Falso, Umberto Eco discorre sobre os motivos que forjaram tal força. Talvez o principal seja o erro, “motor de muitos eventos da história”, como no caso de Bubu ou no “descobrimento” da América por Colombo quando buscava as Índias navegando para o Ocidente. Mas o que ocorre quando a falsa mensagem é fruto da elaboração intencional?

Não faltam falsos inventados, como as Memórias para servir à história do jacobinismo, escritas entre 1797 e 1798, em que o abade Barruel, ao invés de tratar a Revolução Francesa como resposta ao Ancién Regime, inventa como causa um complô dos Templários envolvendo Voltaire, Turgot, Condorcet, Diderot e d’Alambert (os caras da Enciclopédia), confundindo iluministas com iluminatti.  Já no século XIX, esse manuscrito seria usado pelo romancista Eugène Sue em Os mistérios do povo (1849), em que o mesmo complô ganha nova dimensão, com os jesuítas no lugar dos iluministas e o clero como alvo da revolução. Alguns anos depois, em 1864, Maurice Joly publica Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu, no qual, ainda conforme Eco, o conspirador principal passa a ser Napoleão III. Esse é o momento dos libelos caluniosos ou mesmo fantasiosos, e o público meio que consegue se equilibrar com um pé na canoa da fantasia e outro na canoa do complô.

A coisa começa a se complicar quando os libelos passam a ser tomados por crônicas de fatos reais. E isso passa a ocorrer nas últimas décadas do século XIX, momento de ascensão do antissemitismo em que os conspiradores passam a ser identificados como judeus (para lembrar, era a época do icônico caso das falsas acusações do caso Dreyfus). Na Rússia, Pëter Ivanovich Rakovsky, um revolucionário ligado ao terrorismo de extrema-direita, reescreve o diálogo para acusar Elie de Cyon, inimigo político de seu protetor, e pronto: a conspiração judia está pronta.

Eco considera com o texto de Rakovsky é provavelmente a principal matéria-prima dos Protocolos dos Sábios Anciões do Sion, recheados também de romances populares franceses, mas que foi levado a sério e publicado por Serguei Nilus, um monge “obcecado pela ideia do Anticristo”. O resto é história: “Depois disso o texto viaja através da Europa até chegar às mãos de Hitler...”.

Em outro texto, o intelectual italiano alerta que mais perigoso do que figuras como Rakovsky ou Nilus é o fato de que se acredita neles: “Que um aventureiro ou aventureira teçam intrigas, ora sendo desmascarados, ora obtendo vantagens, é normal. Mas que uma pessoa presumivelmente de inteligência mediana, com deveres políticos e religiosos, se deixe convencer por tais intrigas, fascinada, obnubilada, e consiga passar à história como monumento de imbecilidade, isso não cessa de preocupar-nos”.

Quando a inteligência mediana sucumbe, temos o fascismo. Em O fascismo eterno (Ur-fascismo), originalmente uma conferência de 1995, Eco é claro: “O Ur-fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica porque uma das características típicas dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato autoexclui-se da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria o seu auditório”.

Auditório creio ser mesmo a palavra mais adequada para o contínuo deslocamento do discurso do líder fascista, pois “os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais”. Exemplo disso é como o presidente do Brasil trata a pandemia de COVID-19, ora uma gripezinha, ora uma doença que necessita de um canhão químico como a cloroquina. E mesmo a solução do canhão, ainda que aponte para essa esquizofrenia do discurso, ela mesma deriva do “pensamento mágico” (expressão usada pela historiadora Lilia Schwarcz em entrevista sobre a doença) de que há uma solução simplista anunciada pelo grande líder.

Voltando a Eco: “Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a ‘voz do povo’”.

III

Perpassa por praticamente todos os textos ensaísticos de Eco a ideia de Literatura como uma chave de compreensão do mundo. Nesse cenário de multiplicação do falso e do engano por meio do rebaixamento da inteligência mediana, a Literatura torna-se também antídoto. Ao conhecer ou pelo menos ter contato com os mecanismos narrativos da invenção, criamos em nossos cérebros anticorpos retóricos capazes de identificar ou pelo menos suspeitar de falsas promessas, falsas notícias e falsas esperanças, bem como falsos apocalipses.

“A função dos contos ‘imodificáveis’ é precisamente esta: contra qualquer desejo de mudar o destino, eles nos fazem tocar com os dedos a impossibilidade de mudá-lo. E assim fazendo, qualquer que seja a história que estejam contando, contam também a nossa, e por isso nós os lemos e os amamos. Temos necessidade de sua severa lição ‘repressiva’. A narrativa hipertextual pode nos educar para a liberdade e para a criatividade. É bom, mas não é tudo”. Os contos ‘já feitos’ nos ensinam também a morrer.”

“Creio que esta educação ao Fado e à morte é uma das funções principais da literatura. Talvez existam outras, mas não me vêm à mente agora”.

Estante
Umberto Eco. A força do falso & Sobre algumas funções da literatura. In: Sobre a literatura. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2003.

Umberto Eco. Entre a mentira e a ironia. Tradução Eliana Aguiar.Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2003.

Umberto Eco. O fascismo eterno. In: Cinco escritos morais. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2003.

100 dias que mudaram o mundo. Entrevista com a historiadora Lilia Schwarcz
https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/coronavirus-100-dias-que-mudaram-o-mundo/#100-dias-que-mudaram-o-mundo

Operação Resgate. Episódio de Bubu e as Corujinhas
https://www.youtube.com/watch?v=gHNT7yKgik0

 

 

Leia Mais
  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: segunda-feira, 13 abr 2020 14:16
REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

Não negociamos vidas, capitão!

Morrer bem jovem é um erro. Morrer bem velho, também. Em geral, morrer é sempre um erro. O mal é que se poderia dizer o mesmo a respeito de viver
                                                                                                                       Joan Fuster

O título da Estante desta semana veio do filme Vingadores – Guerra Infinita. É uma fala de Visão dirigida ao Capitão América. Visão, ferido e afastado da luta pelo líder dos Vingadores, volta ao combate a tempo de salvá-lo de um golpe mortal desferido por Thanos (Thanatos é morte em grego). No filme, a fala demonstra o esforço do cuidado recíproco; aqui na Estante, uma interjeição contra aqueles que afirmam que há mortes aceitáveis para que a economia continue andando.

I
Escrevi já algumas vezes sobre Gonçalo Tavares, escritor português nascido em Angola em 1970 e que já esteve duas vezes por aqui a participar do Festival Tarrafa Literária. Autor já de dezenas de livros apesar da pouca idade, é dele a série O Reino, de títulos como Aprender a Rezar na Era da Técnica ou A Máquina do Senhor Walser, romances em que personagens arquetípicos são afetados pelo totalitarismo técnico e político, pela ditadura e a guerra civil em um incerto país europeu em uma incerta data, ainda que atual.

Essa série se desenvolve em um ambiente literário que lembra um pouco Franz Kafka e um pouco Robert Musil, autor de O Homem sem Qualidades. Em Aprender a Rezar na Era da Técnica, por exemplo, um médico busca controlar o país com a precisão cirúrgica de seu punho, uma metáfora da técnica macabra que define como se dão as relações sociais no mundo administrado.

II
Se em O Reino nos deparamos com metáforas incertas, o punhal literário de Tavares torna-se mais contundente para os tempos de hoje em Os velhos Também Querem Viver, adaptação da peça Alceste, de Eurípedes. Nessa novela-poema, o incerto país ganha corpo: a trama se desenrola em Saravejo, capital da Bósnia, durante o cerco à cidade, quando Admeto, o protagonista, recebe um tiro na cabeça. Protegido pelo deus Apolo, Admeto ganha a chance de sobreviver se outra pessoa se dispuser a morrer em seu lugar. E é Alceste, sua esposa, que se oferece, daí o título da peça original.

Na adaptação do português, o peso da história – sua moral –, como indica o título, é inclinado em direção àqueles que não se sujeitam ao sacrifício, os próprios pais de Admeto. E a justificativa é mesmo uma apunhalada literária:

“Se os novos gostam de viver, os velhos também.

E por que razão a vida de um velho valeria menos

do que a vida de alguém que agora começa?

Que cálculos absurdos são esses?

E por que não o contrário?

Por que não proteger a sabedoria dos muitos anos,

em vez da excitação do jovem que ainda quer conhecer?”

III
Para encerrar, dois poemas de Gonçalo Tavares do livro 1 que servem de reflexão sobre os dias:


OS MORTOS

Não há mortos que morram tanto como os nossos.

Se um daqueles que nos pertencem morre sete

ou setenta vezes no coração,

de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,

e os que sempre viveram longe

morrem-nos metade ou um oitavo. E metade

de uma morte é quase nada, são casas

decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)


OS GRUPOS

Mas é estranho isto, e receio o que a vida vai

Fazendo de mim sem a minha autorização.

Com 18 anos adorava mesas grandes, divertia-me,

Via no grupo movimentos e excitações que

Não chegava sozinho. Como se a alegria entre

Vinte pessoas fosse uma língua que um ser vivo

Isolado não conseguisse formular.

Não morrerei ignorando essa língua, mas agora

Fujo dela: cinco pessoas numa mesa me assustam

Como um assalto: dá-me!, sinto que dizem,

E a expectativa dos outros em relação à frase,

Ao silêncio ou à minha imobilidade,

Encosta o frio à camisa que trago,

Como o punhal discreto de um bom assaltante.

Não gosto de grupos, de aglomerações intermédias

Entre a amizade e o exército. A amizade faz-se de um

Para um, por vezes de dois para um; em matéria de sinceridade

O número quatro assusta-me.

Estante
Gonçalo M. Tavares. Aprender a rezar na era da técnica. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Gonçalo M. Tavares. Os velhos também querem viver. Rio de Janeiro: Editora Foz, 2014. Gonçalo M. Tavares. 1 – Poemas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. Joan Fuster. Diccionari per a ociosos I (Dicionário para ociosos). Barcelona, Espanha: El Observador, 1991 (1ª edição 1963).

 

 

Leia Mais
  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 03 abr 2020 18:06Atualizado em: sexta-feira, 03 abr 2020 18:24
REPRODUÇÕES REPRODUÇÕES

A bondade frágil

Salve, Posídon sustentáculo da terra, deus de negra cabeleira,
bem aventurado e de coração benévolo, socorrei os navegantes
Hino Homérico 22

Começo com um pedido de desculpas: jornalista da Secretaria de Saúde de Cubatão, fui tomado nos últimos dias por uma série de tarefas e atividades de produção de material informativo sobre a COVID-19. Se não houvesse tanta fake news para desmentir, talvez conseguisse entregar o texto na quinta-feira, como combinado, mas escrevo apenas agora, sexta-feira à noite.

I
Talvez já tenha lido isto há mais de dez anos. Foi em uma coluna de Olgária Matos no Estado de S. Paulo. Do assunto do texto já não me lembro, cristalina em minha memória está uma frase ensinada ali pela professora de filosofia: “etiqueta é a ética das pequenas coisas”. Essa imagem cristalina (até releio a frase na folha do jornal um pouco abaixo da foto da colunista) voltou das gavetas das memórias por causa justamente de algumas peças de informação sobre prevenção, com cuidados que as pessoas devem ter ao espirrar, tossir, manter distância, ações, entre outras, que são reunidas sob a expressão “etiqueta respiratória”.

Se pensarmos em ética como a responsabilidade do cuidar de si e dos outros, não seria também uma manifestação de etiqueta os aplausos aos profissionais de Saúde que ecoaram por cidades de todo o país agora há pouco? Uma pequena coisa, esse gesto de bater as palmas das mãos, um carinho para uma série de profissionais que estarão nos próximos meses na linha de frente dos cuidados com a população frente à situação calamitosa na qual nos encontramos.

Mas enquanto parte da população bate palmas, também surgem casos de agressões a funcionários da Saúde como os relatos de hoje à tarde no metrô de São Paulo, onde pessoas foram maltratadas por estarem vestindo uniformes de hospitais do Centro da cidade.

blog20203242528779.jpg

II
A Fragilidade da Bondade – Fortuna e Ética na Tragédia e na Filosofia Grega, de 1986, é o livro em que a filósofa Martha Nussbaum discute a ação ética (a ética é sempre uma ação, uma responsabilidade que se toma). No prefácio à edição revista, publicada em 2001, a professora escreve algo que talvez ilumine essas agressões: “... há o fato de que alguns valores humanos expõem o ser humano ao risco. O cuidado com as crianças, os amigos, as pessoas amadas; o cuidado para com a cidadania política e a ação política; o cuidado, em geral, quanto à capacidade de agir, e não apenas de ser – todas essas preocupações colocam a pessoa que as estima à mercê da fortuna, pelo menos em alguns aspectos”.

As pessoas que evitaram o embarque de um grupo de funcionários de um hospital em um carro de metrô ou aquela outra que xingou e jogou uma torta (ou um bolo, não faz diferença) em uma técnica de enfermagem numa plataforma de outra estação, essas pessoas, com seus atos, afirmam que não estão dispostas a ficar “à mercê da fortuna” ao dividiram o espaço público com alguém que saiu de um hospital. Logo depois, a filósofa afirma: “... a indolência, o erro e a cegueira ética causam inúmeras tragédias”.

O livro de Nussbaum, publicado no Brasil em 2009, é duro, bem difícil, ainda que não abuse de linguajar técnico (sua dificuldade é a do tema espinhoso que nos aponta o título). Um dos grandes méritos da obra é mostrar como os temas morais e éticos de filósofos como Platão e Aristóteles já estavam entranhados em tragédias como As Troianas de Eurípedes e Filoctetes ou Antígona de Sófocles.

Ao tratar de Filoctetes, por exemplo, Nussbaum reflete: “O clamor de Neoptólemo, as agonias sempre vigilantes do coro, não são meios para uma apreensão de que se encontra no intelecto; são peças de identificação e reconhecimento de realidades humanas difíceis. Há um tipo de conhecimento que opera pelo sofrimento, porque o sofrimento é o reconhecimento apropriado do modo como é, nesses casos, a vida humana”.

Filoctetes é um arqueiro grego que por uma chaga fétida na perna causada por uma mordida de cobra é deixado por seus companheiros na ilha de Crisa, onde passa a viver como um eremita. Isso quando os contingentes gregos ainda se dirigiam à Troia. Quando, após dez anos de batalhas, um oráculo revela que a guerra contra a cidade de Hécuba – a rainha, uma das troianas da peça – só será vencida com a participação de Filoctetes, Ulisses, um dos que o havia deixado para trás, arma um ardil para que Neoptólemo, filho de Aquiles, que era o melhor amigo de Filoctetes, use o nome do pai para convencê-lo a se juntar ao conflito.

A peça gira em torno das dúvidas do filho de Aquiles, que passa a sentir afeto pelo moribundo, e das certezas de Filoctetes, que repudia unir-se novamente aos seus, o que só ocorre por intervenção divina. Antes, porém, Filoctetes diz a Ulisses o que devemos dizer aos que impediram os trabalhadores da Saúde de entrarem no vagão do metrô:

“Teu pensamento é doente e escravizado”!

III
Para encerrar, retorno ao prefácio de Nussbaum:

“Mas a verdadeira notícia da tragédia grega, para nós (...) é que somos tão culpáveis como Zeus em Trakhínai, como os generais gregos em As Troianas, como Odisseu [Ulisses] em Filoctetes e como muitos outros deuses e mortais em muitas épocas e lugares – a menos e até que nos livremos de nossa indolência, ambição egoísta e obtusidade e nos perguntarmos como os males que testemunhamos poderiam ser impedidos. Como sabia Filoctetes, piedade significa ação: intervenção em nome do sofrimento, ainda que difícil e repulsivo. Se deixarmos a ação de lado, somos covardes ignóbeis, talvez também hipócritas e mentirosos. Se ajudamos, fizemos algo bom”.

Pós Escrito
Já que falamos de gregos, a palavra epidemia (sobre o povo) também é grega. Referia-se originalmente à chegada de um deus ou deusa a alguma cidade. Como é comum na mitologia, uma praga ou doença que acomete alguma localidade foi causada por algum deus descontente com os habitantes do lugar. Logo, aos poucos, por contaminação, seu sentido foi se transformando de a vinda do deus para a eclosão de alguma doença.

Estante

Baseado na obra de Eurípedes, o filme conta a tragédia de Hécuba, rainha vencida, viúva de Príamo, que ao lado de outras mulheres de Tróia, resistem em perder sua querida cidade e entregá-la às mãos dos vencedores gregos. Filme de 1971, dirigido por Michael Cacoyannis. Elenco: Katharine Hepburn, Vanessa Redgrave, Geneviève Bujold, Irene Papas.



Martha Nussbaum. A Fragilidade da Bondade – Fortuna e Ética na Tragédia e na Filosofia Grega. Tradução Ana Aguiar Cotrim. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009 (1ª edição 1986).

Sófocles. Filoctetes. Tradução, posfácio e notas Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2009.

Giulia Sissa e Marcel Detienne. Os deuses gregos. Coleção A Vida Cotidiana. Tradução Rosa Maria Boaventura. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

 

 

Leia Mais
  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: terça-feira, 24 mar 2020 11:18Atualizado em: terça-feira, 24 mar 2020 11:20
REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

Gregos e americanos (com um russo no meio)

... creio que o fato de sermos europeus no exílio é uma vantagem,
pois não estamos amarrados a nenhuma tradição local, particular

Jorge Luis Borges

Há duas semanas, em Quinta de cinzas, anunciava que a Estante voltaria a se debruçar sobre a epígrafe daquele texto, a frase de Joseph Brodsky (1940-1996) que abre seu ensaio O som da maré: “As civilizações são finitas, e por isso sempre chega um momento na vida de todas elas em que o centro começa a se desagregar. O que as impede de se desintegrar não são suas legiões, mas a língua”.

I

O som da maré é dedicado a Derek Walcott (1930-2017), poeta antilhano Nobel de Literatura de 1992 nascido na ilha de Santa Lúcia. O parágrafo inicial argumenta que é a periferia das civilizações durante seus ocasos o local de onde surge a poesia que mantém a língua coesa: “... a periferia não é onde o mundo acaba – é lá precisamente onde ele se desenreda”.

Brodsky, nascido em São Petersburgo, ele mesmo Nobel de 1987, apesar de escrever poesia em russo, produziu seus ensaiosp em inglês, sua língua adotada desde que, dissidente da União Soviética, passou nos anos 70 a viver nos Estados Unidos. De seu aprendizado poético da língua inglesa, de estranhamento e admiração, ele extrai uma certeza. Ter nascido ali, onde “o sol, cansado de império, declina” (versos de Walcott), oferece ao poeta de Santa Lúcia um manancial inalcançável para alguém nascido em, digamos, Nova York ou Londres, a capital do Império. Aos versos, então, de Walcott, selecionados pelo russo e traduzidos pela Estante a partir da versão do livro:

“Eu sou só um negro ruivo que amo o mar,

Eu tive uma senhora educação colonial,

Eu tenho holandês, negro e inglês em mim,

e tanto não sou ninguém, ou sou uma nação.”

Diz Brodsky: “A dignidade e o intenso vigor retórico desta afirmação [a do último verso] são diretamente proporcionais tanto à região em cujo nome fala quanto à infinitude oceânica que a cerca. Sempre que ouvimos uma voz assim, sabemos com certeza: o mundo se revela”. E o russo vai além, afirma que a crítica dos dois lados do Atlântico – novamente, Nova York e Londres – engana-se ao classificá-lo como “poeta antilhano” ou “poeta negro do Caribe”: “A covardia tanto mental quando espiritual que se revela nessas tentativas de transformar este homem num escritor regional se explica ainda pela má vontade dos críticos em admitir que o grande poeta da língua inglesa é negro”.

Brodsky destaca a sensibilidade do ouvido de Walcott para a língua inglesa e sua “força descritiva” “verdadeiramente épica”, que o faz ter mais em comum com o Homero da Ilíada e da Odisseia do que com outros poetas de língua inglesa.

“Ah, admirável terceiro mundo!” é outro verso destacado pelo russo, uma alusão ao “Ah, admirável mundo novo!” de Shakespeare que Aldous Huxley reclamou para o título de seu livro mais conhecido. Uma simples exclamação que é todo um comentário sobre o “legado colonial” que ainda pesa sobre grande parte da América (escrevo América, não Estados Unidos, que são coisas distintas).

II

Se Walcott, da ilha de Santa Lúcia, ecoa Homero, outro poeta americano, desta vez o peruano Óscar Limache (1958), faz eco a outros gregos em seu livro Viagem à língua do porco-espinho, prêmio Copé de Oro de poesia de 1988. Na seção Três poetas gregos, o poeta de Lima absorve quase que na íntegra, com toques limenhos, poemas de Giórgos Seféris (1900-1971), Odysseus Elytis (1911-1986) e Konstantinos Kaváfis (1863-1933), de quem reelabora o famoso poema À espera dos bárbaros.

Para trazer os bárbaros de Kaváfis para o Peru, Limache opera por dentro da própria linguagem poética, a tal “língua do porco-espinho” e, logo após as citações-homenagens aos gregos do século XX, o autor peruano nos oferece o poema Lima Ano Huno, em que explora o trocadilho em espanhol entre o povo huno e o primeiro ano de uma nova etapa histórica. A tradução vai a seguir:

LIMA ANO HUNO

um ano

mais ou menos / não há lugar

para recolher uma série de feitos

e confrontá-los / mas realmente

em tempos como os que estamos passando

nada era estranho

o comum era a normalidade / dito de outra maneira

às vezes me produz uma notável desolação

ter nascido

na pré-história / os anos moços passaram

e agora saber que se deve ser

e que se deve estar / há um momento em que minha civilização

clama por minha barbárie

exige de uma vez que os bárbaros

esses analfabetos inocentes sensíveis

esmaguem

com seu ódio criador

os civilizados sapientes e assassinos

mas exige também

e isso é o grave

que em meu próprio claustro

em meu próprio território

em minha defendida solidão

a violência oprima

com ódio igualmente criador

os infinitos pudores e credos

o delírio do real

faça estilhaços

das opulentas dúvidas do intelecto

o ultimato da pobre alegria

derrube para sempre

minhas sólidas barricadas desgostosas / para tocar o sonho

pra tocar a vida

com toda sua enorme humanidade / como hunos

com cabeças raspadas e tranças solitárias

olhando o horizonte

com odores nauseabundos

visitando os amigos

e os inimigos

sentados em montarias

sobre a realidade

realidade medida

calculada sonhada admirada

toda a vida

sobre patas curtas e hirsutas

avançaram com maestria

donos de seus meios

Viagem à língua do porco-espinho é repleto de diálogos e ecos. Em primeiro plano, é uma resposta americana ao livro As Cidades Invisíveis (1972), clássico contemporâne do italiano Italo Calvino, em que Marco Polo, em suas viagens para a China, descreve as cidades do império para o governante que, imerso nas questões administrativas da nação, acaba sem tempo de conhecê-las.

Limache, por sua vez, faz um movimento contrário: traz para Lima todas as cidades do mundo: as reais, as históricas, as mitológicas e inventadas. Um exemplo dessa operação é o poema Canaã, em que se dança a marinera, dança típica peruanam, no casamento de Jesus e Maria Madalena. O livro é dividido em duas partes: As Cidades Invisíveis, a maior parte do livro, com a reunião dessas cidades,  e A Louca Escorpião e outras histórias de Lima, com poemas que giram em torno da capital peruana. É a parte em que está a seção Três poetas gregos. 

Estante
Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari. A identidade dos argentinos. In: Sobre os sonhos e outros diálogos. São Paulo: Hedra, 2009.

Joseph Brodsky. O som da maré. In: Menos que um: Ensaios. Tradução Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 (1ª edição 1986).

Óscar Limache. Viaje a la lengua del puercospín. Lima-Peru / Santiago de Chile: Amotape Libros / Andesgraund Ediciones, 5ª edição, 2016 (1ª edição 1989).

Uma seleção de poemas da primeira parte de Viagem à língua do porco-espinho foi publicada em Santos de forma artesanal pela editora Sereia Ca(n)tadora sob o título Espinhos do porco-espinho, com traduções realizadas por este colunista.

Mais sobre a ponte literária de traduções entre Santos e Lima em:
http://alessandroatanes8.wixsite.com/esquinasdomundo/traducoes

blog202031366328.jpg

 

 

Leia Mais
  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 13 mar 2020 14:01
<< Página Anterior       Página Posterior >>
Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.