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E o mundo não vai acabar

… ainda não havia nada, mas já existiam as pessoas
Mito cosmogônico dos Yawanawa, povo da Amazônia



Há alguns anos, em maio de 2016, logo após as ressacas terem derrubado centenas de metros de muretas (IOIIOIIOIIOIIOI) na Ponta da Praia e outros locais da cidade, escrevi o texto Os fins do mundo de Santos – catálogo em cinco partes, no qual previa – previa não, porque a situação é muito óbvia – que, por mais que fossem reconstruídas, esse novo símbolo da cidade iria cair novamente sob as forças do mar.

Enumerava uma série de fins, alguns simbólicos, pelos quais a cidade já havia passado: a ressaca anterior de 2005, o desmoronamento na Serra, o desmanche dos casarões da cidade e dos universos de seus objetos e memórias pessoais, o colégio Docas (onde estudei) em ruínas, o fim dos clubes e dos prédios das universidades. Além da ressaca, a cidade havia acabado de sofrer em janeiro vazamento de produtos químicos na margem esquerda do porto, que matou gente, e, no ano anterior, as explosões de tanques de combustível na entrada da cidade, episódios que ecoam os incêndios em tanques da Ilha Barnabé em 1991 e 1998, o descaso trágico de Vila Socó em 1984 ou mesmo o desmoronamento do Monte Serrat em 1928.

Enfim, estava aí o catálogo que fiz à época, recheado ainda de referências da ficção sobre a destruição da cidade.


I

Aqui na Vila Mathias, a água que entrou em casa e o barro que desceu a encosta do Monte Serrat por causa das chuvas desse início de março não ultrapassaram a altura do pé da estante, mas as mortes e a destruição fizeram que eu voltasse ao texto de 2016, no qual noto hoje um desejo quase milenarista de recomeço a partir do zero. Talvez não fosse um desejo, parece-me mais provável que esse tom tenha sido resultado da incapacidade de perceber qualquer alternativa à repetição de tragédias.

Então lembrei de uma declaração do filósofo esloveno Slavoj Žižek, não sei se lida em um texto ou feita em uma entrevista, na qual ele se pergunta por quais motivos é mais fácil imaginarmos o fim do mundo (e Hollywood e a ficção fantásticas estão aí para nos contar vários fins do mundo) do que imaginarmos o fim da atual forma de organização econômica e social que tem aproximado o planeta de seu esgotamento.

É aí que entra a leitura da semana, Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins, livro de 2014 escrito a quatro mãos pela professora de filosifia Déborah Danowsky e o etnólogo Eduardo Viveiros de Castro onde citam o xamã Yanomami Davi Kopenawa: “Os Brancos não temem, como nós, ser esmagados pela queda do céu. Mas um dia eles terão medo, talvez quanto nós!”.

Essa repetição de ocorrências (naturais, ampliadas pela humanidade, ou simplesmente causadas por nós) talvez já esteja nos fazendo sentir o medo de sermos esmagados pela queda do céu.

No finzinho do livro, desdobrando o mito Yawanawa, de que nada havia antes além das pessoas, a dupla de autores do livro ensina que não devemos nos limitar a falar do fim, ou, arrisco, que o fim deve ficar para trás:

“Falar no fim do mundo é falar na necessidade de imaginar, antes que um novo mundo em lugar deste nosso mundo presente, um novo povo; o povo que falta. Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo que nós deixamos a ele.”

O medo a perder agora é o de pensar e imaginar uma nova forma de a humanidade estar no mundo. É o que nos cobram os que morreram.

Estante
Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Rio de Janeiro: Florianópolis: Editora Cultura e Barbárie, 2014.

Alessandro atanes. Os fins do mundo de Santos: catálogo em cinco parte, 20 de maio de 2016. In: https://medium.com/@Atanes/os-fins-do-mundo-de-santos-cat%C3%A1logo-em-cinco-partes-832bb37c5bfe.

 

 

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 06 mar 2020 16:08Atualizado em: sexta-feira, 06 mar 2020 16:15
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Quinta de cinzas

As civilizações são finitas, e por isso sempre chega um momento na vida de todas elas em que o centro começa a se desagregar. O que as impede de se desintegrar não são suas legiões, mas a língua.

Joseph Brodsky

I

Libertada e vencida, essa é a Itália que surge em A pele (1949), de Curzio Malaparte (1898-1957), livro em que acompanhamos a chegada do exército dos Estados Unidos em Nápoles em 1º de outubro de 1943 e sua marcha em direção a Roma, parte da ofensiva dos Aliados que culminaria com a derrota dos nazistas dois anos depois.

Malaparte é um oficial do exército italiano veterano da Primeira Guerra (1914-1917), quando ainda adolescente, combateu alemães e por eles foi ferido com um lança-chamas. Conta Milan Kundera em A pele: um arquirromance, que, mais tarde, nos anos 30, após ingressar no partido fascista italiano, ele acaba preso “por atividades antifascistas”. Jornalista e intelectual, seu lugar era entre “artistas e escritores”. Devido à experiência militar, em 1940 é absolvido, reconvocado e enviado para o front russo, de onde escreve artigos considerados antialemães e antifascistas. Em poucos meses é novamente preso.

Esse duplo sentimento – livre e vencido, militar e antifascista – Malaparte nos mostra logo no início de A pele, quando o exército italiano é incorporado pelos Aliados:

“Caminhando ao lado do Coronel Hamilton, eu sentia-me ao mesmo tempo maravilhosamente ridículo no meu uniforme inglês. Os uniformes do Corpo Italiano da Libertação eram velhos uniformes ingleses cor de cáqui, cedidos pelo comando Britânico ao Marechal Badoglio, e novamente tingidos, talvez para tentar esconder as manchas e os buracos das balas, de verde escuro, cor de lagarto. Eram, de fato, fardas tiradas aos soldados britânicos tombados em El Alamein e em Tobruk. No meu casaco viam-se os buracos de três balas de metralhadora. [...] O nosso amor-próprio de soldados vencidos estava salvo: doravante combateríamos ao lado dos Aliados, para ganhar juntamente com eles a guerra deles depois de termos perdido a nossa, e por isso era natural que fôssemos vestidos com as fardas dos soldados abatidos por nós”.

Em seu ensaio, Kundera pondera que Malaparte é uma das primeiras vozes a perceber a “nova Europa”, vencida primeiramente pela “loucura de seu próprio Mal encarnado na Alemanha nazista” e, em seguida, “libertada e ocupada” pelas potências emergentes que tomam seu lugar, Estados Unidos e União Soviética: “a Europa que ontem ainda (tão naturalmente, tão inocentemente) considerava sua própria história, sua cultura, como um modelo para o mundo inteiro, percebeu sua pequenez”.

II
A pele é lido como uma sucessão de cenas cruéis, absurdas e grotescas que ocorrem durante a marcha em direção a Roma, bem como nas digressões e flashbacks do narrador. O mesmo ocorre em sua obra anterior, Kaputt, publicado em 1944, antes mesmo do fim do conflito, no qual narra episódios dos anos iniciais da guerra ocorridos nos territórios ocupados pela Alemanha testemunhados por ele devido à sua posição como oficial italiano. Mas engana-se quem espera de um ou de outro um livro-reportagem. Kundera argumenta que a “intenção estética” das duas obras é tão vasta – “forte”, “evidente” – que seu aspecto de testemunho fica em segundo plano.

Kundera traça um paralelo entre o italiano e José Lezama Lima (1910-1976). Assim como o cubano, Malaparte amava – e publicava traduções – os poetas e artistas surrealistas. E, ainda que os dois tenham em suas obras evitado a macaqueação, a influência do movimento os fez oferecer às Letras novas formas para o romance, já que não era possível voltar ao realismo naturalista do século XIX. Malaparte chegaria ao arquirromance, enquanto Lezama Lima, anos mais tarde, seria o pensador e criador do “real maravilhoso”, como lemos em obras como Paradiso, de 1966, uma das obras que iria alimentar o boom da literatura latino-americana e a idea de realismo fantástico. Na edição do livro que preparou para e editora espanhola Catedra, a irmã do autor, Eloísa Lezama Lima, conta algo sobre a transmutação de episódios familiares em literatura em Paradiso que, suspeito, cabe também a Malaparte: “a transformação de fatos históricos em mito”.

A matéria-prima de Kaputt e A Pele, afirma Kundera, é mais a “atmosfera” (o trecho acima sobre a reutilização das fardas é um bom exemplo) do que o “encadeamento casual das ações”. Kundera lembra de uma das cenas mais marcantes de Kaputt, quando, ao fugirem de um incêndio florestal ateado por forças soviéticas durante uma batalha no norte da Finlândia, centenas de cavalos buscam refúgio em um lago:

“Durante a noite desceu o vento do Norte. (O vento do Norte desce do mar de Murmansk, como um anjo, ululando, e a terra morre subitamente). O frio tornou-se tremendo. De súbito, com o seu característico som vibrante de vidro percutido, a água congelou-se. O mar, os lagos, os rios congelam-se de improviso, por causa do rompimento, que ocorre de um momento para o outro, do equilíbrio térmico. Até a onda marinha para no meio o ar, torna-se uma onda curva de gelo suspensa no vácuo.

No dia seguinte, quando as primeiras patrulhas de sissit, com os cabelos chamuscados, a cara negra de fumaça, caminhando cautelosamente sobre a cinza ainda quente através do bosque carbonizado, chegaram à margem do lago, horrível e maravilhoso espetáculo se lhes deparou. O lago era como uma imensa laje de mármore branco, em cima da qual pousavam centenas de cabeças de cavalos. Pareciam decepadas pelo corte seguro de um cutelo. Só as cabeças emergiam da crosta de gelo. Todas as cabeças estavam voltadas para a margem. Nos olhos arregalados ardia ainda a chama branca do terror”.

Talvez a epígrafe de hoje, do poeta Joseph Brodsky (1940-1996), Nobel de Literatura de 1986, explique a opção de Malaparte pela elaboração literária. Não se é repórter do fim de uma civilização apenas com fatos.

Estante
Curzio Malaparte. Kaputt. Tradução Mário e Celestino da Silva. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1963 (1ª edição 1944).

Curzio Malaparte. A Pele. Tradução Alexandre O’Neill. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1964 (1ª edição 1949).

Milan Kundera. A pele: um arquirromance. In: Um encontro: Ensaios. Tradução Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2013 (1ª edição 2009).

Joseph Brodsky. O som da maré. In: Menos que um: Ensaios. Tradução Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 (1ª edição 1986).

Três observações
1) São belíssimos os desenhos de Eugênio Hirsch para as capas das edições da Civilização Brasileira dos livros de Malaparte;



2) Os dois livros estão fora de catálogo e são achados apenas em sebo, mas quem quiser acompanhar o clima das duas obras pode contar com duas adaptações: Kaputt (2014), em quadrinhos, adaptado por Eloar Guazelli, e A Pele (1981), adaptação para o cinema de Liliana Cavani, com Marcello Mastroianni e Burt Lancaster. O filme está disponível na Video Paradiso, aqui de Santos;

3) Voltaremos a ouvir O som da maré de Brodsky na próxima semana.

 

 

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Vastas vozes

Eu disse que, se me fosse permitida a graça de falar diante do papa, de um rei ou de um príncipe que me ouvisse, diria muitas coisas e, se depois me matassem, não me incomodaria.

Domenico Scandella, o moleiro Menocchio, queimado pela Inquisição em 1599

                                                       ________________

Jeanice Ferreira, sábia bailarina, me chamou a atenção há algumas semanas para um poema chinês escrito durante a dinastia Tang (618-906):


CROMO ANTIGO

Atrai-se                se atrai

Quebra-luz

Bordado

Tensão                 Hora da lua

                               Passos

                               Porta

                               Hora do ouvido

                        Silêncio grande

Tesoura cai

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O poema (costurado por Jeanice na imagem acima para seu Adelinezine) faz parte da seção Poetas da Dinastia Tang (618-906), do livro 31 poetas 214 poemas, uma antologia de poemas traduzidos por Décio Pignatari. A seção reúne sete nomes, seis dos quais homens, e a pessoa que escreveu Cromo Antigo, um “anônimo”, na edição em português. Pelo tema, o bordado, mas também por uma sensibilidade diversa da dos demais, Jeanice me sugeriu: - Não seria uma anônima?

I A súplica
No romance Carta à Rainha louca (2019), de Maria Valéria Rezende, a protagonista é uma mulher que escreve, Isabel das Santas Virgens. E o que lemos no livro é justamente uma carta que Isabel redige entre 1789 e 1792 endereçada à rainha de Portugal, Maria I, a quem nunca identifica (digamos que o o epíteto de Maria I – Rainha Louca – na capa do livro seja uma piscadela para o leitor, já que cartas não chegam com título). Ela escreve desde seu claustro no convento de Olinda, onde aguarda para ser levada para Portugal a ser julgada pela acusação de fundar um convento de freiras clandestino no interior do que seria hoje Minas Gerais.

Isabel conta à rainha sua história de mulher branca desvalida e de Blandina, filha da Casa Grande, irmã de criação e para quem foi escolhida para ser dama de companhia por terem quase a mesma idade. Isabel faz uma súplica à rainha, para que interceda a seu favor e para que conheça as “vilanias” que são cometidas em seu nome na Colônia.

Há já longo tempo me trouxeram para cá, com o fim de aguardar alguma nau de carreira que me levasse a Lisboa, para ser julgada pelas Cortes por um crime eu me foi assacado, mas aqui me esqueceram. É para que me recordem que agora Vos escrevo, Senhora, pois que em Vós se juntam duas cousas que de raro se podem reunir: o serdes rainha de cetro e coroa, capaz de ordenar e fazer o bom e o justo, acima de todos e quaisquer súditos, de qualquer sexo, que habitem as Vossas terras, e o serdes mulher, capaz de saber o que sofre outra mulher que clama por justiça.

A súplica em forma literária tem já uma longa história. A Ilíada de Homero está cheia delas, sendo uma das mais importantes a que a mãe de Aquiles, a divindade Tétis, faz a Zeus, logo no início do poema épico, para que seu filho, mesmo que morra, vença a guerra de Troia e tenha o nome lembrado para toda a História.

Para ser atendida, a súplica deve convencer. Na Grécia arcaica, fazia parte do convencimento o gesto de tocar as mãos nos joelhos. É o que faz Tétis:

Sentou-se junto dele e com a mão esquerda lhe agarrou
os joelhos, enquanto com a direita o segurava sob o queixo.
Em tom de súplica dirigiu a palavra a Zeus Crônida soberano:
“Zeus pai, se entre os imortais alguma vez te auxiliei
com palavras ou atos, faz que se cumpra esta minha prece:
honra o meu filho, aquele que acima de todos os outros
está destinado a ter vida curta...” 

II O convencimento
Enclausurada, não podendo tocar os joelhos da rainha, cabe a Isabel dominar a escrita. Uma de suas estratégias é dosar os comentários, rasurando frases e parágrafos inteiros. Para nós, leitores de Maria Valéria Rezende, estas rasuras são indicadas por trechos em que as palavras do livro estão impressas da forma tachada, com uma linha no meio do texto selecionado, efeito gráfico que nos permite ler o texto “rasurado”. Um deles diz o seguinte:
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As estratégias textuais de Isabel tem origem na educação que recebe desde menina. Criada entre a Casa Grande e a Senzala, relativamente livre – e também sozinha – Isabel logo percebe na aprendizagem da leitura e da escrita um meio de sobrevivência e também de libertação. Acompanhante de Blandina, acaba indiretamente recebendo as lições destinadas à filha da Casa Grande e, com o tempo, passa a receber a atenção do sacerdote responsável pelas lições: “Mal sabia ele o tesouro e a salvação que me concedia e o quanto me haveria de servir esse saber”.

III O enfrentamento
Saber ler deu “régua e compasso” a um personagem real, o Menocchio da epígrafe do texto de hoje. Quem nos conta sua história é Carlo Ginzburg em O queijo e os vermes (1976). O historiador italiano teve acesso ao processo instalado contra Menocchio por heresia na década de 1570. Seu objetivo, como avisa o subtítulo do livro, é mostrar o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Em meio ao impacto da reforma luterana, ideias iluministas e o surgimento da imprensa (Ginzburg consegue apurar até uma lista de livros lidos por Menocchio), esse homem singular, fora da curva, decide propagar suas próprias ideias sobre a natureza do universo – um grande queijo, daí o título do livro – e da manifestação do Espírito Santo no mundo.

"A imprensa lhe permitiu confrontar os livros com a tradição oral em que havia crescido e lhe forneceu as palavras para organizar o amontoado de ideias e fantasias que nele conviviam. A Reforma lhe deu audácia para comunicar o que pensava ao padre do vilarejo, conterrâneos, inquisidores – mesmo não tendo conseguido dizer tudo diante do papa, dos cardeais e dos príncipes, como queria".

Na seção em que trata das leituras de Mennochio, Ginzburg consegue resgatar a sociabilidade da vila de Montereale por meio da circulação de livros, uma “rede de leitores que superam o obstáculo dos recursos exíguos” em uma “aldeia tão pequena”: um livro que recebeu de presente de Tomaso Mero da Malmins, outro emprestado por Anna de Cecho, outro ainda emprestado por um tio, uma Bíblia em vulgar (o latim já se italianizando); um empréstimo do capelão, todos identificados, além de vários indícios de outras leituras que o pesquisador não conseguiu precisar.

Na ficção ou na vida real, Isabel e Menocchio obedecem a um impulso do conhecimento. Querem que seus pensamentos e histórias sejam conhecidos. Sabem os dois que a palavra escrita não é monopólio dos poderosos. No romance da Maria Valéria Rezende, Isabel – disfarçada de homem, “anônima” na hipótese de Jeanice – aluga seus conhecimentos de escrita e escreve cartas, documentos e petições para sustentar Blandina e a si mesma. Apesar do desfecho do processo pesquisado por Carlo Ginzburg, a voz de Menocchio, assim como a glória de Aquiles, entrou para a História.

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Estante
Maria Valéria Rezende (www.mariavaleriarezende.com).
Carta à Rainha Louca. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019.
Carlo Ginzburg. O queijo e os vermes: O cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução Maria Betânia Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 2006 (1ª edição 1976). Décio Pignatari (organizador).
31 poetas 214 poemas: do Rig-veda e Safo a Apollinaire. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
Homero. Ilíada. Tradução e prefácio Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Companhia, 2013.

 

 

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: quinta-feira, 20 fev 2020 10:47Atualizado em: quinta-feira, 20 fev 2020 16:58
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O Carnaval é espelho

Em Não somos bandidos, o historiador Odair José Pereira nos conta a primeira década da Escola de Samba X-9. É um estudo de caso: uma agremiação carnavalesca de um bairro, o bairro de uma específica cidade com características próprias. Mas como todas, é uma cidade que faz parte de uma comunidade maior, a nação, o país, cujos contextos a afetam direta ou indiretamente, junto com o bairro e a comunidade.

Nada disso é automático, mais de 90 anos haviam já se passado desde as primeiras manifestações ligadas ao Carnaval em Santos até o carnaval de 1946, quando a X-9 sai da Rua Almirante Tamandaré em direção à avenida da praia, então Gonzaga, Avenida Ana Costa, Centro e volta ao bairro portuário do Macuco. Odair nos conta essa história. Ele falou sobre o livro, publicado pela editora Ateliê de Palavras em 2016, na terça-feira, dia 11, na primeira edição do projeto “Onde está a cabeça do escritor?”, encontro promovido pela editora entre autor e leitores que ocorreu na Cantina de Lucca.

O caminho que ele adota é o que muitos que fazem pesquisa chamam de micro-história, uma metodologia na qual o específico de cada situação histórica pode iluminar o todo: as mudanças na forma de brincar a festa de Momo refletem as alterações sociais e urbanas da própria cidade e do país. O Carnaval é espelho.

Como costuma passar por toda manifestação cultural, o reflexo desse espelho é mais ou menos distorcido (lembro aqui dos espelhos deformantes do Monte Serrat). Isso ocorre de forma mediada por relações de força em um, na expressão do autor, “jogo de conciliação” – reitero que negociação aqui não é negociata, mas sim o conjunto de atos de adaptação, imposição ou resolução de conflitos entre sambistas, população, empresas e governos locais e nacionais.

E esses conflitos deixam rastros nos arquivos da cidade, como uma sentença do procurador da vila de Santos em 1850 que multa Nicolau Vergueiros em 6$000 por brincar o Entrudo nos dias de Carnaval, uma “contravenção prevista no Código de Posturas Municipais de 1847”. O Entrudo ainda está aí, na forma quase inocente das bambuchas de água e serpentinas de espuma, mas à época consistia em encher bolas de cera, chamadas laranjinhas, com água de cheiro, muitas vezes “perfumada à urina, fezes e maus odores”, e tacá-las nas pessoas. Nicolau e seu grupo, formado por mais cinco homens, todos mascarados, foram reconhecidos atirando laranjinhas nos passantes da Travessa da Alfândega, junto aos trapiches que formavam o porto de então.

Sentenças posteriores confirmam que a proibição continuou a ser ignorada. Porém, ao longo do primeiro capítulo, Odair nos vai revelando como ao longo da segunda metade do Século XIX, o Entrudo vai perdendo espaço para guerras de confetes, corsos e o carnaval dos salões e clubes e que isso ocorre ao mesmo tempo em que a construção do cais de concreto e o esforço de erradicação das epidemias modificam o mapa da cidade, remodelando seus espaços de convivência. No meio disso tudo, e como pano de fundo, a luta abolicionista e republicana.

Tais substitutos do Entrudo, porém, espalham-se de forma desigual sobre esse mapa modificado. Bailes, corsos e desfiles concentram-se no Centro e Gonzaga – daí o percurso inaugural da X-9 em direção às áreas mais nobres da cidade – enquanto as guerras de confete eram mais comuns nos bairros operários. De adaptação em adaptação, os grupos vão crescendo e transformando-se em agremiações e, posteriormente, escolas. A própria X-9 começa em 1944, dois anos antes do primeiro desfile, quando um grupo formado na Almirante Tamandaré foi batucar no Santos Dumont F. C.

Entre a bibliografia, Não somos bandidos cita X-9: Escola Pioneira, de J. Muniz Jr, de 1978. O autor, com dez anos de atuação como relações públicas da agremiação entre 1960 e 1970, faz uma história institucional: contabiliza os títulos até o ano de publicação; dá nomes a fundadores e figuras ilustres, registra sambas e compositores (meu exemplar de X-9: Escola Pioneira informa que Muniz é autor também de Panorama do samba santista e Do batuque à Escola de Samba, ambos de 1976, e Sambistas imortais, de 1978, três obras que nunca encontrei em sebo ou acervo). Sem desprezar o valor dessa história por dentro, talvez um pouco mais memória que história, Odair faz uma trabalho de História Cultural, ampliando o conhecimento sobre nossa cidade.

EPÍLOGO
Falando em memórias, retiro aqui da estante dois livros de autoras que viveram esses tempos como crianças ou adolescentes. Em O Macuco do meu tempo, de 2006, Maria Alice Fernandes Cardoso, nascida em 1934 e criada no bairro, lembra-se da expectativa dos moradores locais quando, em 1962, ocorre a primeira Batalha de Confete “organizada pela comissão carnavalesca da cidade” com chegada do Rei Momo, outro indício da institucionalização do carnaval, enquanto anos antes os grupos reuniam-se espontaneamente na esquina da Campos Melo com Lowndes, local conhecido, revela Odair, como o “Brooklyn Santista”.

Maria Alice reaviva a ocasião: “No dia do grande acontecimento, dede cedo, o barulho do reco-reco e apitos se espalhava pelas ruas. Caminhões enfeitados com folhagens, bambus e palmeiras eram preparados para receber o Rei Momo, e o comentário era só um: - Hoje tem batalha de confete! Todos queriam brincar. O Macuco estava em festa”.

Já das transmissões de rádio dos estúdios e programas musicais da Rádio Clube e da Rádio Atlântica, podemos conhecer o comentário de Lygia Lolo Silva de Carvalho, que costumava participar de alguns deles. Em um dos textos memorialísticos de Aquele tempo passou: Fragmentos da memória. Santos nas décadas de 40 e 50, de 2014, ela se lembra das “divertidas” marchinhas de carnaval e dos grandes nomes na música nacional nos clubes e casas de espetáculos da cidade naquelas décadas do século XX, período formativo também para as futuras escolas de samba de Santos devido ao contato com o samba do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, por meio das transmissões da Rádio Nacional. E aí damos mais uma volta na relação entre local e nacional.

O que os espelhos da folia de Momo nos mostram hoje sobre Santos? O que nos mostram de uma cidade que vem há anos antecipando os desfiles por medida administrativa (de novo, um rastro do avanço do institucional sobre o tradicional)? O que nos mostram de uma cidade que em 2020 negocia restrições à festa por questões (justificáveis, não é?) de segurança?

Em sua incessante adaptação aos tempos, quem sabe o Entrudo não assuma novas formas?

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: quinta-feira, 13 fev 2020 12:28
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Preferiria não.

Basta que um único homem seja irracional para que os outros o sejam e também todo o universo.
Melville imaginado por Borges

I

Talvez ninguém conheça exatamente todo o alcance da frase "Preferiria não fazer", o bordão de Bartleby no conto de Herman Melville (1819-1891), publicado em 1856 em Londres e Nova York. Recém empregado em um escritório, Bartleby insistentemente recusa tarefas, ele só quer um canto. Conheço a tradução acima da frase original “I would prefer not to” feita por Cássia Zanon para a editora LP&M.; "Preferiria não", mais ríspido, é a versão usada na encenação de Denise Stoklos; e fuçando na rede, surpreendo-me e simpatizo com "Acho melhor não", de Irene Hirsch, editada pela Ubu. Parece-me soar mais como se fala. "Acho melhor não" são palavras de hoje para essa recusa expressa no livro.

Jorge Luis Borges (1899-1986), em seu estilo límpido para ideias abstratas ou filosóficas, sugere que Kafka (1883-1924) e seus labirintos da burocracia (penso em O processo, 1925) projetam uma "luz ulterior" sobre o conto. O autor tcheco de expressão alemã, diz Borges, "aprofundaria " o gênero que o norte-americano criara em Bartleby - O Escrivão: "o das fantasias da conduta e do sentimento".

II
Passando de argentino para chileno, Roberto Bolaño (1953-2003) afirma que Bartleby é o "exilado absoluto" por preferir não se ir. E é sobre um conto de Bolaño que quero falar, Henry Simon Leprince, de 1997.

Leprince é um nome "todo o contrário" do que sugere: "da classe média baixa, carece de dinheiro, de uma boa educação, de amizades convenientes". E claro, é um escritor fracassado, seus poemas recebem julgamentos ruins feitos por poetas ruins e nem são lidos pelos bons poetas. As editoras parecem odiá-lo.

Essa é a situação literária de Leprince em 1940, quando a França é ocupada pelo nazismo. Da diversidade anterior de escolas literárias francesas, os escritores passam a se agrupar em dois grupos antagônicos: os que pensam em resistir - inclusive os "por delicadeza" - e os que pensam em colaborar, "subdivididos, eles mesmos, em múltiplas seções, todas sob o influxo gravitacional dos sete pecados capitais". Enquanto esse grupo vai assumindo editoras e a direção de revistas, Leprince compreende que é com eles que sempre havia caminhado pelo "mesmo território". Após um tempo, ele é convidado a publicar seus poemas e a escrever para essas revistas, oferecem-lhe um cargo de direção no jornal para o qual trabalha.

Mas ele diz não. Bolaño nos apresenta o "preferiria não" de Leprince dá de forma sutil, ao final de um parágrafo: "Nessa manhã [a do convite] entende por fim algumas coisas. Nunca até então havia tido noção de seu papel tão baixo na pirâmide da literatura. Nunca até então sentiu-se tão importante. Após uma noite de reflexão e de exaltação, rejeita a oferta".

Como cada ato, ou recusa, tem suas consequências, Leprince acaba por aproximar-me a pessoas ligadas à resistência e passa a realizar missões "delicadas", porém sem muita importância: o deslocamento de escritores, muitos entre os poetas ruins que consideravam ruins seus poemas e aqueles que o ignoravam.

"Sua presença provoca uma rejeição intraduzível, inclassificável. Sabem que está a seu lado, mas no fundo se negam com todas suas forças a aceitá-lo. Percebem, talvez, que Leprince esteve durante muitos anos no purgatório das publicações pobres ou canalhas e sabem que dali não se salva pessoa ou bicho ou que somente salvam-se aqueles que são muito fortes e brilhantes e bestiais".

E mais à frente: "Ninguem se molesta a saber o que escreve o escritor que lhes salvou a vida". Ou ainda: "Em uma noite protege um poeta surrealista perseguido pela Gestapo e que terminará seus dias (não por culpa de Leprince) em um campo de concentração na Alemanha, o qual se despede sem lhe dar sequer um obrigado".

Ao contrário da recusa difusa de Bartleby, Bolaño dá um novo rumo ao gênero das fantasias de condutas: Leprince rejeita algo concreto e sabe que não haverá recompensa. Esse é um dos momentos em que vemos uma ideia-força de Bolaño: o valor; não aquele que se confunde com preço, mas valor na acepção em espanhol que siginifica também "coragem" (ser valente é agir com valor).

III
O conto faz parte do livro Chamadas Telefônicas, publicado no Brasil em 2012 pela Companhia das Letras, 15 anos após o lançamento na Espanha pela Anagrama.

É essa demonstração de valor que separa Leprince das personagens de Bolaño reunidas em A literatura nazista em América, sua obra anterior, de 1996 (publicada no Brasil somente em 2019), uma série de perfis inventados de escritores e escritoras do norte ao sul do continente americano, reacionários e conservadores, alguns criminosos, outros soldados. Há inclusive um filósofo brasileiro que escreve refutações aos iluministas. Eles não disseram "preferiria não".

Esse livro talvez seja o mais agudo na tensa relação entre ficção e história que costura a obra do chileno. Um caso emblemático é o perfil de Carlos Ramírez Hoffman, o Infame, poeta e piloto da aeronáutica chilena que comete atrocidades contra outros artistas (principalmente mulheres), registra suas matanças em fotografias e as expõe como se fosse arte de vanguarda (essa história é desenvolvida posteriormente na forma de romance em Estrela Distante).Outro caso é o do mineiro Amado Couto, autor de romances policiais que entra no Esquadrão da Morte e participa de sequestros e torturas, sem parar de pensar no que a literatura brasileira precisava.

Couto faz parte de uma série de personagens do livro movidos mais por ressentimento do que ideologia, ou ressentimento e ideologia em partes iguais (Leprince é também um ressentido, como são ressentidos os bons poetas salvos por ele). Entra no Esquadrão da Morte após seu livro de contos não ter sido aceito por editora nenhuma. Admirador e invejoso de Rubem Fonseca, chega a planejar seu sequestro:

“Pensou um dia, enquanto esperava com o carro em um descampado, que não seria má ideia sequestrar e fazer alguma coisa com o Fonseca. Disse isso para os chefes, e eles escutaram. Mas a ideia não foi levada a cabo.”

É assim também com o guatemalteco Gustavo Borda, baixinho, moreno, de cabelo escuro e ralo que em suas ficções científicas cria protagonistas altos, loiros, de olhos azuis que formam a tripulação de naves espaciais que recebem nomes tais como Nova Berlim, Nova Hamburgo, Nova Frankfurt. Desprezado e humilhado por toda a vida, tanto no país Natal como em Los Angeles, para onde se muda, assim responde a escolha por personagens alemãs: “Me fizeram tantas cachorradas, me cuspiram tanto, me enganaram tantas vezes que a única maneira de seguir vivendo e seguir escrevendo era me trasladar em espírito a um lugar ideal... À minha maneira sou como uma mulher no corpo de um homem...”

Outro caso é o do haitiano Max Mirebalais, plagiador, que cria heterônimos plagiadores, cada um em um estilo próprio. Um desses heterônimos é metade haitiano, metade alemão, Max Von Hauptman. “Ser um poeta nazista e não renunciar a certo tipo de negritude pareceu entusiasmar Mirebalais”.

Agora, um perfil curto:
“Otto Haushofer, Berlim, 1871-Berlim, 1945. Filósofo nazista. Padrinho de Luz Mendiluce e pai de várias teorias sem cabimento: a Terra oca, o Universo Sólido, as civilizações primigênias, a tribo ariana interplanetária. Suicidou-se depois de ter sido violentado por três soldados uzbeques bêbados".

Otto está inserido na seção do livro chamada Epílogo para monstros, um catálogo dedicado a personagens secundárias, editoras e publicações ligadas à ultradireita do continente. Ele é um coadjuvante na biografia de Luz Mendiluce, filha de Edelmira Mendiluce e irmã de Juan Mendiluce Thompson, a família argentina que compõe a primeira seção do livro, Os Mendiluce.

Luz nasce em Berlim em 1928, durante viagem da família. Seu batizado reúne “a nata da intelectualidade argentina e alemã” durante uma cerimônia de três dias, conta Bolaño no perfil da mãe. Ainda um bebê de colo, conhece Hitler:

“Em 1929, enquanto o crack mundial obriga Sebastián Mendiluce [o marido de Edelmira] a retornar a Argentina, Edelmira e seus filhos são apresentados a Adolf Hitler, que pegará a pequena Luz no colo e dirá: “É sem dúvida uma menina maravilhosa”. Fotos são feitas. O futuro Führer do Reich causa na poetisa argentina uma grande impressão.”

A foto com Hitler, emoldurada em prata e presidindo o salão de sua casa, lhe “acompanhou toda sua vida”, até 1976, quando morre em Buenos Aires.

O batizado de Luz por um filósofo nazista – LUZ, olha só o nome! – revela, e outros perfis reforçam essa ideia, toda uma genealogia entre o nazismo alemão e o autoritarismo violento da América Latina. Não apenas em nossas ditaduras, mas também em parte do pensamento de artistas, intelectuais e também entre a gente.

Assim pode-se ler também o romance póstumo 2666, de 2003, em que tal relação se dá em outro nível, no qual intelectuais europeus especialistas em um autor alemão recluso conhecem o horror latino-americano na forma do assassinato de centenas de mulheres em Santa Teresa, no Deserto de Sonora, durante uma viagem ao México. A violência americana como nosso próprio mal.

IV
Em uma entrevista, Bolaño responde sobre o que o deixa aborrecido: "O discurso vazio da esquerda. O discurso vazio da direita já dou por certo". Essa frase, ela mesmo pronunciada em uma situação no mínimo contraditória - pois foi dada para e revista Playboy em um encontro conduzido por uma jornalista, Mónica Maristain - ilumina também um tipo de personagem que vem se tornando cada vez mais alvo de críticas que aparece no Literatura nazista e posteriormente em outras de suas histórias: o esquerdomacho.

Em outro dos perfis do livro, conhecemos a mexicana Irma Carrasco, católica e monarquista. Ela acredita que o México deve voltar a fazer parte da coroa espanhola. Casa-se em 1935 com Gabino Barreda, "estalinista semiclandestino e don Juan", considerado um "arquiteto brilhante, idealista, com grandes projetos para as novas cidades do continente". Lindo, né? Não. Após alguns meses, passa a bater em Irma diariamente: "Barreda costuma depreciá-la publicamente, a ela e a sua família, a quem chama de 'carolas filhos de uma quenga' ou 'carne podre de paredão' na frente de amigos ou desconhecidos. Recebe a "mais brutal" das surras em 1937,em Madri, durante o bombardeio da cidade pela aviação franquista. O abuso segue por décadas, até quase sua morte, e cito, para fechar, o dia em 1947 em que apanha na frente de amigos durante um jantar ao defender a "honradez e as conquistas do regime franquista".

Epílogo
Escrevi muito hoje sobre autores homens, ainda que também sobre a violência que cometem. Mas as traduções aqui citadas vieram ao português por causa de uma encenadora e duas tradutoras. Também a citação de Borges em português é a da versão de Josely Vianna Baptista (já os trechos do chileno são traduções feitas a partir dos originais em espanhol aqui da estante). E para uma história da tradução no Brasil, principalmente de obras de língua inglesa sugiro as postagens e comentários de Denise Bottmann, ela mesma tradutora de nomes como Virginia Woolf, Peter Burke, Terry Eagleton e Katherine Mansfield, entre outros.

Mesmo que eu "prefira não" escrever sobre homens mais do que mulheres, minha Estante acaba ainda por reproduzir as relações de força da sociedade. Cabe a mim estar atento para modificar essa e outras diferenças, diferenças que serão reduzidas não só por um equilíbrio numérico, mas também pelo destaque ao peso e influência de autoras. Por isso, cito Beatriz Sarlo, crítica e ensaísta argentina, fundamental para minha leitura de Bolaño e sobre como venho tratando as relações entre História e Literatura. É dela a seguinte frase que guia meus estudos:

"A literatura, é claro, não dissolve todos os problemas colocados [pela reflexão sobre a sociedade], nem pode explicá-los, mas nela um narrador sempre pensa de fora da experiência, como se os humanos pudessem se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo".

Bônus
A poesia de Bolaño ainda não foi publicada em livro em português, ainda que se possa encontrar alguma coisa na rede. Em homenagem ao valor e à coragem, trago aqui uma tradução de:

MINHA CARREIRA LITERÁRIA

Rejeições de Anagrama, Grijalbo, Planeta, com toda a certeza
também de Alfaguara, Mondadori. Um não de Muchnik,
Seix Barral, Destino... Todas as editoras... Todos os leitores...
Todos os gerentes de vendas...

Sob a ponte, enquanto chove, uma oportunidade de ouro
para ver a mim mesmo:
como uma serpente no Polo Norte, mas escrevendo.
Escrevendo poesia no país dos imbecis.
Escrevendo com meu filho nos joelhos.
Escrevendo até que cai a noite
com um estrondo dos mil demônios.

Os demônios que hão de me levar para o inferno,
mas escrevendo.

 

 

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: quinta-feira, 06 fev 2020 15:47Atualizado em: quinta-feira, 06 fev 2020 15:48
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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.