Raiva, não controle

As emoções existem e estão aí para serem vividas. Mas existem algumas que são decantadas e cantadas com fervor, repetidas quase a exaustão, a um ponto em que até acabam perdendo o sentido...amor por exemplo - amando ou não amando - a palavra vem com muita facilidade aos lábios e, infelizmente, com muita dificuldade ao coração.

Na lida terapêutica, nos acostumamos a simbolizar e dar sentido ao que é vivido e sentido, mas nada espanta mais quando nos vemos obrigados a nos depararmos com sentimentos ditos menos, desqualificados quer na nossa sociedade, na religião, na cultura de uma maneira geral.

São vários, poderia aqui trazer à luz da discussão os mais temidos, a inveja (da qual falaremos oportunamente) e a raiva, que é o foco desse artigo.

Como as pessoas se sentem mal quando confrontadas com esse sentimento que emana delas, muitas vezes com razão; mas preferem se identificar com a mágoa. Que pena! Perdem a chance de tirar de dentro do peito a dor sem ferida, a dor que sufoca, preferindo a mágoa que vitimiza, porém é muito mais acolhida...pois a vítima sempre tem muitos anjos bons para a acolherem e dar-lhe razão, reforçando a vitimização e a situação de injustiçada.

Mesmo que tudo isso seja verdade, ser vítima, ser injustiçada ou mesmo ser agredida, ficar magoada esconde uma passividade não apenas diante do agressor ou da agressão, mas principalmente diante da vida.

E que vida é essa cujo sujeito é passivo? É a vida imposta, o ritmo imposto e, principalmente, o sentimento imposto.

Oh, céus! Alguns devem estar dizendo ou pensando, nesse momento de tantas guerras, desencontros vem uma psicóloga fazer apologia à raiva?

Não é bem assim, mas sem dúvida o objetivo desse artigo é legitimar a raiva como expressão daquilo que incomoda e, principalmente, fazê-lo de maneira produtiva.

Difícil não é? É sim, mas é como andar de bicicleta, depois que se aprende .....

O que é transformar um sentimento numa coisa produtiva? É simplesmente dar sentido à raiva permitindo-se sentir e expressar, não dando socos e pontapés e sim recriando a nossa vida implantando algo que vai de alguma maneira mostrar para nós que o alvo de nossa raiva tem pouco ou nenhum papel de importância vital.

Pois aí mora o grande perigo: deixar com que sentimentos menores, negativos nos dominem a ponto de darem sentido a nossa vida.

Uma pessoa magoada é aquela machucada, fraca e infeliz. A pessoa com raiva é aquela que se reconhece pulsante, fica vermelha e tem que elaborar para não explodir.

Que tal exercitar ou se permitir viver algo de grande importância e que, principalmente, proporcione muito prazer? Essa maneira simples é apenas ilustrativa, pois canalizar emoções desagradáveis em algo produtivo enriquece, amplia e faz com que a crise possa ser vivida de maneiras mais criativas e não de maneira fatal, desorganizada ou até mesmo limitante.

Portanto, raiva inspira a ação e a competência, ao contrário da mágoa que cheira a incompetência e passividade.

Basta escolher sabendo que a reposta e o resultado estão dentro de nós. É pertinente nesse sentido o que diz o poeta libanês Gibran Kalil Gibran; “toda a Criação existe dentro de você e tudo dentro de você também existe na Criação. Um único átomo contém todos os elementos da terra. Um único movimento do espírito contém todas as leis da vida. Acima de tudo, uma única manifestação sua contém todas as manifestações da própria vida”.

 

 

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  • Publicado por: Marcia Atik
  • Postado em: terça-feira, 30 jul 2019 07:32Atualizado em: terça-feira, 30 jul 2019 18:41
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