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Livro retrata a vida de João Acácio Pereira, o Bandido da Luz Vermelha, incluindo seus 90 dias em Santos

O Bandido da Luz Vermelha é, muito provavelmente, o criminoso mais famoso do Brasil. Teve uma trajetória relativamente curta, entre março de 1966 e agosto de 1967, mas durante este período ele aterrorizou a Cidade de São Paulo e sua alta sociedade: assaltou 154 mansões de bairros nobres de São Paulo, matou oito homens e estuprou cerca de 100 mulheres. Nos últimos meses de sua trajetória de crimes, antes de ser preso, João Acácio Pereira da Costa morou em Santos, no coração do Gonzaga, na Rua Floriano Peixoto. Os detalhes desse período estão no livro ‘Famigerado’, uma biografia que está sendo lançada pelo escritor Gonçalo Silva Júnior. Ele conversou com o Santaportal sobre o livro e também sobre o “capítulo santista” da trajetória do criminoso. Confira a entrevista:

O que te chamou a atenção na história do João Acácio que te fez querer escrever a biografia dele?
Ele, de certa forma, simbolizava um lado não romantizado da São Paulo dos anos 60. A cidade era tratada com muito romantismo e ele foi uma chaga que caiu sobre a cidade e mudou o comportamento de todos. Mudou definitivamente a Cidade. Só depois dele é que as casas passaram a ter muros e grades. O interesse veio também pela vontade de contar a história de São Paulo. Já contei a história das editoras, da editora Abril, do Jornal Bondinho, da revista Realidade... Foram livros que escrevi lá atrás e que ajudam a contar a história da cidade. O João Acácio é um personagem desafiante e que me fez querer ir atrás da história dele.

Como foi a pesquisa, foi fácil mesmo depois de quase cinco décadas? Quanto tempo demorou?Foi fácil e não foi... Contei muito com a sorte. Para levantar a história dele eu teria que entrar por um labirinto complicado de burocracia para conseguir autorizações. Me informaram que eu teria que esperar até dois anos para conseguir as informações que eu queria. Mas aí um funcionário do museu, por pura generosidade, resolveu me ajudar e permitiu que eu tivesse acesso. Levei oito meses fotografando aquelas quase 23 mil páginas dos 88 processos que correram contra ele, um trabalho árduo, o que não foi fácil. Depois veio a fase de ler aquilo tudo. Depois montei uma cronologia, fui atrás dos jornais da época e, por último, fui atrás das pessoas que eu precisaria entrevistar. O último a ser entrevistado foi o advogado dele, que acabei entrevistando em São Caetano, no ano passado, com quase 90 anos de idade. Mas nessa brincadeira toda foram 7 anos da minha vida. Comecei a escrever o livro em 2012 e estou lançando agora, no fim de 2019. Foi o trabalho mais árduo que tive na vida.

Quanto tempo o João Acácio morou em Santos? Por que ele escolheu a cidade? Já havia estado aqui antes?
João Acácio foi passar o Réveillon de 1966 para 1967 em Santos, com uma namorada que ele tinha. Ele ficou encantado com a Cidade, com a vida boêmia. E no dia 22 de maio de 1967 ele se mudou para Santos, para o edifício Cannes, na Rua Floriano Peixoto, no Gonzaga. Ficou por volta de três meses e teve uma vida intensa por aí. Ele gostava da vida noturna, conhecia todas as boates. E, coincidentemente, uma das preferidas dele era uma que, na época, era muito conhecida por aí, a Boate da Luz Vermelha. João Acácio ficou na Cidade até 5 de agosto, quando percebeu que a polícia estava perto de descobri-lo. Veio para São Paulo nesse dia, fez um assalto e fugiu no mesmo dia para Curitiba, onde foi preso.

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Como era o dia a dia dele por aqui? E a relação com vizinhos e amigos?
Ele tinha uma vida de gastador. Gastava muito, o que trouxe muitas complicações para ele, porque começou a brigar com os receptadores que não conseguiam fornecer dinheiro para ele na velocidade que ele esperava. O dia a dia de João Acácio em Santos começava perto do meio dia. Ele ia para a praia, estranhamente de botas, calça e camisa de manga comprida. Levava um toca discos e um monte de LPs de Jovem Guarda, porque ele era apaixonado pela Wanderléia, e ficava lá, ouvindo discos. Todos achavam ele estranho, não entendiam porque ele pagava a conta de todo mundo.

E como ele justificava tantos gastos sem ser visto trabalhando?
A justificativa que ele dava é que ele era filho de um latifundiário do Rio Grande do Sul, que lhe enviava uma gorda mesada. Ganhou, aqui, o apelido de Gaúcho. Foi o único lugar onde ele ganhou esse apelido. No fim da tarde ele voltava para casa, assistia televisão. Era meio obcecado por crianças, recebia várias em seu apartamento. Dava pipoca, refrigerante, doces. Mas, nesse caso, aparentemente de forma inocente, não há nenhum relato de abuso sexual. Lá pelas 9 da noite ele ia para as boates, onde ficava até as 2 da manhã. Adorava contratar prostitutas, contratava várias. Mas não dormia com elas, gostava da companhia delas, dava roupas, sapatos. Nos assaltos, quase sempre ele contava com a ajuda de um motorista de taxi daí de Santos, o Manoel. Ele ia com esse cara para São Paulo, cometia os assaltos, se encontrava com o receptador na Praça da Sé e voltava para Santos. A rotina dele nesses três meses em Santos foi quase sempre essa. Ele assaltava quatro, às vezes cinco vezes por semana.

Como ele conseguiu manter a rotina de assaltos mesmo morando em Santos?
Pois é... essa história do motorista de taxi daí de Santos que trabalhava com ele me foi revelada pelo Gil Gomes, aquele famoso repórter policial, que inclusive assina o prefácio do livro. Ele já desconfiava desse taxista e, como visitou o João Acácio diversas vezes na cadeia, teria ouvido a revelação de que o taxista era, de fato, comparsa.

Que lugares ele frequentava na Baixada Santista?
Basicamente a praia e as boates. Ele foi para Santos mais como uma maneira de despistar a polícia, achava que a Cidade ia dar a ele a qualidade de vida que não podia mais ter em São Paulo. Na Capital, ele morou por cerca de dois anos num hotelzinho de quinta categoria na Boca do Lixo, exatamente no quarteirão onde hoje tem a cracolândia. Ele achou que em Santos ele poderia usufruir do que ele roubava.

Ele chegou a cometer algum crime aqui na Baixada?
Não cometeu crimes na Baixada mas tinha pelo menos um receptador por aí, um sujeito que pegava as joias que ele roubava em São Paulo e dava entrada como penhora em algumas unidades da Caixa Econômica Federal em pelo menos três cidades próximas de Santos. Foi no nome desse comparsa, inclusive, que ele alugou o apartamento no edifício Cannes, no Gonzaga.

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O autor, Gonçalo Silva Júnior

Luz Vermelha
João Acácio Pereira, o Bandido da Luz Vermelha, assaltou mais de 150 mansões e casas nos bairros mais nobres da Capital Paulista, entre 1966 e 1967. Matou oito pessoas e estuprou 100 mulheres, todas da alta sociedade paulistana. Foi preso em 1967 e, depois de cumprir 30 anos da pena, foi solto em 1997. Ficou três meses em liberdade até ser morto a tiros por um pescador que o havia acolhido e segundo o qual João Acácio teria assediado sexualmente sua esposa e sua mãe.

FAMIGERADO - A HISTÓRIA DE LUZ VERMELHA, O BANDIDO QUE ATERRORIZOU SÃO PAULO NOS ANOS 1960, EDITORA NOIR, 416 PÁGINAS, R$ 74,90.

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  • Publicado por: Gustavo Klein
  • Postado em: segunda-feira, 16 dez 2019 19:29Atualizado em: segunda-feira, 16 dez 2019 19:43

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