Série retrata mulheres brasileiras que desafiaram limites do seu tempo
Por Naief Haddad/Folhapress em 06/03/2026 às 16:02
Virou notícia a recepção oferecida pelo presidente da República, Hermes da Fonseca, em 26 de outubro de 1914. Como era habitual, o evento no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então capital do país, começou com instrumentistas interpretando peças clássicas de compositores europeus.
Mais tarde, porém, Nair de Teffé, a primeira-dama, pegou o violão e tocou “Corta-Jaca”, um tango brasileiro composto por Chiquinha Gonzaga e Machado Careca. Foi uma das primeiras vezes em que se ouviu música popular nos salões do palácio presidencial.
Muitos reclamaram, como Rui Barbosa. Em discurso no Senado, ele associou “Corta-Jaca” à “mais baixa, mais chula, mais grosseira de todas as danças selvagens”.
Esse é um dos episódios lembrados em “Cinco Mulheres”, série documental que estreia na TV Cultura neste domingo, 8, o Dia Internacional da Mulher.
Ao longo de cinco episódios, cada um com cerca de 26 minutos, a produção revive três figuras notáveis que atuaram no século 19: Maria Quitéria, presença surpreendente nas batalhas pela Independência na Bahia; Marquesa de Santos, que ganhou força política ao se tornar amante de dom Pedro 1º; e Anita Garibaldi, combatente em conflitos como a Revolução Farroupilha.
A série destaca ainda a compositora Chiquinha Gonzaga, que representa a virada do século 19 para o 20. Nair de Teffé é o nome mais recente em “Cinco Mulheres”. Além de primeira-dama, é considerada a primeira mulher a exercer o ofício de caricaturista na imprensa.
“Todas elas desafiaram os limites do seu tempo. Outro traço em comum é que as cinco foram reduzidas a estereótipos”, afirma Paulo Markun, criador e diretor de “Cinco Mulheres”.
Para o jornalista, a Marquesa de Santos não pode ser vista apenas como a cortesã do imperador. Depois da relação com dom Pedro 1º, ela se casou e soube exercer influência no jogo de poderes da monarquia.
Alguns dos especialistas ouvidos pela produção, como a historiadora Mary del Priore, ressaltam a necessidade de observarmos a atuação da personalidade histórica dentro do contexto em que vivia, sem cair na armadilha de julgá-la com as lentes de hoje.
Nair de Teffé, por exemplo, se manteve atada à aristocracia carioca das primeiras décadas do século 20, mas ousou ao dar mais visibilidade para a música popular e outras manifestações culturais.
Com roteiro de Ana Roxo, a produção escapa do modelo documental mais convencional, que une imagens antigas e comentários de especialistas. Biógrafos e historiadores estão na série, mas a eles se juntam cinco atrizes.
Elas surgem em duas camadas ao longo da produção. Primeiro, essas atrizes interpretam atrizes que se preparam, nos bastidores de um teatro, para encarnar Maria Quitéria e as demais.
No bate-papo aparentemente descompromissado no camarim, saltam informações curiosas sobre Anita e as outras quatro.
A segunda camada são os monólogos, em que as figuras históricas se recordam de passagens relevantes das suas trajetórias. Esse jogo teatral torna a série mais envolvente.
Outra preocupação foi evitar o padrão de um episódio dedicado a cada personagem. Em maior ou menor grau, as cinco mulheres aparecem ao longo de toda a série.