09/04/2026

Série 'Euphoria' volta entre polêmicas e com atores hoje maiores que a própria obra

Por Guilherme Luis/ Folha Press em 09/04/2026 às 18:46

Divulgação
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O ninho ficou pequeno demais para os filhotes, que cresceram e quase bateram as asas para longe de “Euphoria”, agora de volta com a sua terceira —e possivelmente última— temporada. Zendaya, hoje bicho grande na indústria, tem muitos compromissos para além da série que fez sua carreira decolar sete anos atrás, assim como os colegas Sydney Sweeney —que teve um 2025 marcado por controvérsias—, e Jacob Elordi, o galã da vez, indicado ao Oscar deste ano.

Foi graças a “Euphoria” que suas agendas lotaram. Nos bastidores, inclusive, o papo é que foi bem difícil reuni-los para essa nova fase da série, que estreia neste domingo (12) na HBO Max.

Foram quatro anos de espera, e tanto o público quanto o elenco vinham perdendo a fé neste retorno. Alexa Demie, uma das atrizes coadjuvantes, disse na première em Los Angeles, nesta terça-feira, que tinha certeza de que essa temporada não aconteceria.

Para Zendaya, a protagonista, não parece haver dúvida de que este é o final. A atriz deu só uma passadinha no tapete vermelho do evento, sem posar para fotos com os colegas, dar entrevistas ou participar da exibição dos capítulos. Circulou em portais e nas redes sociais que ela teria deixado a festa em cerca de dez minutos.

Dias antes, no talk show de Drew Barrymore, Zendaya afirmou que esta será, sim, a última temporada. Depois, Sam Levinson, o criador e escritor de “Euphoria”, disse que ainda está decidindo, mas que ficará feliz se esta for a despedida.

Além disso, a atriz passou as últimas semanas concentrada na divulgação do seu novo longa, “O Drama” —tema de seis das suas últimas dez publicações no Instagram, contra uma para “Euphoria”. Nos stories destacados, a série aparece em último lugar, escondida atrás de “Homem-Aranha” e “Duna”, outras franquias para as quais Zendaya também volta este ano.

O aparente desinteresse dela fortalece os rumores de desentendimentos entre ela e Levinson, que ganhou a pecha de temperamental e difícil.

Há dois anos, a revista americana The Hollywood Reporter afirmou que Zendaya estava irritada com a demora de Levinson em escrever a temporada atual de “Euphoria” por ficar ocupado com outra série, “The Idol”, considerada um fracasso. Eles nunca confirmaram a rusga, mas também deixaram de ser vistos juntos em público com frequência. Na première, deram um abraço apressado.

Se, para além de “Euphoria”, Zendaya está no ponto mais alto da carreira, sua personagem, Rue, por sua vez, teve de fincar os pés no chão. Chão de terra mesmo, arenoso, no Texas, onde começa a nova temporada.

Cinco anos mais velha em relação à temporada anterior, e distante dos dramas do ensino médio, a protagonista tem transitado entre México e Estados Unidos para transportar quilos de drogas dentro do próprio corpo para pagar uma dívida milionária.

Sua amiga Lexi virou atriz em Hollywood, enquanto Cassie e Nate —papéis de Sydney Sweeney e Jacob Elordi— vivem um relacionamento às vésperas do casamento. Os dois, aliás, tiveram uma virada na carreira desde a temporada de 2022.

Da mesma forma que Cassie, Sweeney perseguiu e conseguiu essa validação na indústria. Em 2023, seu trabalho repercutiu com a comédia “Todos Menos Você”. A ela se seguiu uma cinebiografia da boxeadora Christy Martin e, no ano passado, o sucesso de bilheteria “A Empregada”.

O prestígio profissional se somou, porém, a uma série de polêmicas entre o público mais progressista. Filiada ao Partido Republicano, ela foi elogiada por Donald Trump e estrelou campanha publicitária da marca American Eagle que foi acusada de hipersexualizar o corpo feminino e de trazer um subtexto racista.

Elordi, por sua vez, topou voltar às monstruosidades do seu personagem Nate depois de passar os últimos tempos falando mais do monstro que fez em “Frankenstein” e do também asqueroso Heathcliff, de “O Morro dos Ventos Uivantes” —filme que inflamou o público muito mais do que “Euphoria” está conseguindo agora. Nos novos capítulos, Nate volta a humilhar Cassie, que está tentando ganhar dinheiro com vídeos sensuais no TikTok.

As primeiras críticas dessa terceira temporada na imprensa internacional têm sido negativas em grande parte, com 57% de aprovação no site Rotten Tomatoes. Um drama velho e chato, segundo a resenha do portal IndieWire.

Não foi só parte do elenco que vinha demonstrando cansaço com “Euphoria” —o público também já não tem o mesmo interesse na série, que em 2019 escandalizou e se tornou uma das mais influentes da geração.

Com a obra, o criador Sam Levinson elevou o sarrafo das produções sobre adolescentes com uma história nada ingênua sobre temas como vício em drogas, abuso, solidão, identidade de gênero e saúde mental. “Euphoria” se destacou por causa do tom ousado, repleta de cenas de sexo superelaboradas, inclusive entre pessoas do mesmo sexo.

Impressionou também ao pôr o debate sobre a vivência de pessoas transexuais no centro com Jules, vivida por Hunter Schafer, que se envolve romanticamente com Rue. Fora da ficção, Schafer se consolidou como ativista da comunidade LGBTQIA+, e chegou a ser presa por se manifestar a favor da Palestina em um protesto em 2024.

“Euphoria” fez sucesso também por causa de sua estética inovadora, marcada por uma fotografia estilizada, de cores neon, arroxeadas, e uma trilha sonora hipnótica. Essa coloração desaparece na nova temporada, que prefere as cores terrosas para combinar com a energia de velho oeste americano da trama.

Levinson atualizou “Euphoria” também no texto. Nos novos capítulos, ele cita inteligência artificial, põe as redes sociais mais à frente, menciona o avanço da direita na política e reforça os perigos do fentanil, medicamento que vem matando dezenas de milhares de jovens por ano nos Estados Unidos.

Há um motivo para isso. Em uma carta enviada à imprensa, o roteirista afirmou que esta temporada é uma homenagem a Angus Cloud, ator da série que morreu, aos 25, um ano depois do lançamento da segunda temporada. A causa foi overdose, numa combinação que tinha justamente fentanil, opioide sintético até 50 vezes mais potente que a heroína e cem vezes mais forte que a morfina.

Por isso, decidiu não matar seu personagem, Fezco, um traficante presente desde o início da história. Embora seu papel fosse pequeno, ele ganhou a torcida do público e cresceu em importância. Agora, nos novos capítulos, os outros personagens falam com Fezco por telefone. “Não pude mantê-lo vivo na vida real, mas posso fazer isso na série. Acho que ele estaria orgulhoso”, disse Levinson ao The Hollywood Reporter.

“Euphoria” perdeu ainda outro ator, Eric Dane, que na história faz o pai do personagem de Jacob Elordi. Dane estava em tratamento para ELA, a esclerose lateral amiotrófica, um distúrbio neurológico que deteriora a capacidade do paciente de controlar os músculos, falar e, eventualmente, respirar. Dane conseguiu filmar a terceira temporada antes de morrer.

Além disso, “Euphoria” sofreu perdas de outro tipo. Em 2022, a atriz Barbie Ferreira, que tem ascendência brasileira, anunciou que sairia da produção porque não queria que sua personagem se limitasse ao papel de amiga gorda da protagonista.

No mês passado, o músico Labrinth, que fez as trilhas sonoras de todas as temporadas, usou o Instagram para criticar a série. “Estou fora. Foda-se Euphoria”, ele escreveu na publicação, hoje fora do ar.

O jeito foi reforçar o time com outros nomes de peso. Além de Labrinth, trabalhou na trilha da nova temporada Hans Zimmer, gigante da música no audiovisual, e também Rosalía, a cantora espanhola, que aqui se arrisca na atuação com uma personagem sobre a qual pouco se sabe.

Enfim, ao acenar essa tímida despedida, a percepção geral é que “Euphoria” não conseguiu o próprio amadurecimento que impôs a suas criaturas.

Euphoria – 3ª temporada

  • Quando Neste domingo (12), na HBO Max
  • Elenco Zendaya, Sydney Sweeney e Jacob Elordi
  • Produção EUA, 2026
  • Criação Sam Levinson
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