Por que ingressos de shows são tão caros e como isso pode afetar artistas menores
Por Manuela Mourão e Vitoria Pereira/Folhapress em 20/03/2026 às 11:10
Quando Harry Styles veio ao Brasil pela primeira vez, em 2014, não estava sozinho. Integrante da boy band One Direction, fenômeno global que arrastava multidões, ele se apresentou em estádios no Rio de Janeiro e em São Paulo. À época, ingressos para a pista premium chegavam a R$ 600.
Styles voltou algumas vezes ao país, já com seu projeto solo. Este ano, ele retorna em julho, com ingressos para o mesmo setor a R$ 1.410. Há disponíveis pacotes VIP, que garantem alguns benefícios -e que inflam o preço para R$ 6.999,60.
O padrão se repete em outras turnês internacionais. Entradas para shows de Bad Bunny no Brasil alcançaram R$ 1.095, enquanto experiências VIP chegaram a R$ 8.788,63. Já a reunião dos irmãos Gallagher, da banda Oasis, teve ingressos de até R$ 1.250, no ano passado. A esses valores somam-se taxas de serviço, que podem representar até 20% do preço final.
Corrigidos pela inflação, os R$ 600 cobrados em 2014 para assistir à banda de Styles equivaleriam hoje a cerca de R$ 1.293 valor próximo ao praticado atualmente, mas ainda assim discrepante em relação à realidade do país, que fixou o salário mínimo em R$ 1.621 este ano.
O encarecimento, ainda que tímido, e a ascensão de experiências VIP de valores elevados não é exclusividade do Brasil, mas por aqui ele se manifesta de maneira mais firme, principalmente por causa do câmbio desfavorável ao real.
Segundo o analista do mercado musical Leo Morel, há dois modelos predominantes de contratação para shows hoje. No primeiro, o artista recebe um cachê fixo, e o produtor assume o risco financeiro do evento. No segundo, mais comum em grandes turnês, há divisão da bilheteria entre artista e produtor.
“Se o show lota, o artista pode ganhar mais do que ganharia com um cachê fechado”, afirma. Ele cita casos de músicos que optam por esse modelo para potencializar ganhos.
Essa conta, porém, é apertada. Estruturas de palco, equipamentos, segurança e equipes técnicas são custos pouco flexíveis. “Você não vai economizar em estrutura ou atendimento médico. Isso não é negociável”, afirma a empresária especializada na indústria fonográfica Anita Carvalho. Com isso, sobram poucas variáveis ajustáveis -o cachê do artista e o lucro do produtor.
Mesmo assim, o percentual que chega efetivamente ao artista é menor do que parece. Estimativas da National Independent Talent Organization, entidade que representa agências e empresários da indústria nos Estados Unidos, indicam que os músicos ficam, em média, com algo entre 12% e 20% da receita de bilheteria.
Custos com equipe, transporte, produção, aluguel de espaços, fretes internacionais, combustível e mão de obra são outros elementos que encarecem o show. Em paralelo, turnês de grandes artistas passaram a ficar mais grandiosas em anos recentes.
No Brasil, fatores locais ampliam o impacto. As bilheterias precisam garantir que 40% de seus ingressos sejam disponibilizados para a política de meia-entrada. Embora defendida como instrumento de democratização cultural, a medida também é alvo de críticas.
“O ingresso cheio acaba sendo inflado para compensar essa perda de receita”, afirma Carvalho. Ela defende a revisão do modelo, com critérios baseados em renda, e não em categorias ocupacionais.
A União Nacional dos Estudantes, por sua vez, já se manifestou anteriomente sobre o assunto e diz que “o direito à meia-entrada em eventos culturais é uma conquista histórica dos estudantes e essencial para garantir que todos tenham acesso à formação para além da sala de aula”.
As taxas cobradas por plataformas de venda também geram controvérsia. Embora vistas como abusivas por alguns consumidores, empresas argumentam que elas financiam tecnologia, sistemas antifraude e operação de vendas.
Para Morel, a concentração do setor também pode ser outro fator a influenciar os preços. Ele cita o domínio de grandes grupos como a Live Nation e aponta que mercados menos competitivos tendem a pressionar valores para cima, exigindo atenção de órgãos reguladores.
A alta dos preços também reflete mudanças na própria indústria musical. Com a queda na venda de discos e a baixa remuneração do streaming, turnês se tornaram a principal fonte de receita para muitos artistas.
“Antes, as gravadoras bancavam grande parte dos custos. Com a queda da mídia física e as transformações trazidas pelas plataformas digitais, a receita migrou para os shows. Eles ficaram mais sofisticados e mais caros, o que levou a uma diversificação das fontes de receita”, afirma a produtora Fabiana Lian.
Após a Covid-19, experiências ao vivo passaram a ser mais valorizadas -e há disposição para pagar mais por elas. Relatórios do setor apontam crescimento na venda de ingressos, mesmo com preços elevados.
Os pacotes VIP passaram a ocupar um lugar central. Cada vez mais comuns em apresentações de grande porte, eles ampliam a faixa de preços ao combinar benefícios como entrada antecipada e kits com produtos exclusivos da turnê.
No show de The Weeknd, marcado para abril, há quatro modalidades. A mais cara chega a R$ 12.343,94 e inclui acesso a lounge VIP, bebidas, brindes exclusivos e foto em frente a um painel -sem a participaçã do canadense.
Ao mesmo tempo, outro tipo de experiência foi perdendo espaço -os “meet and greets”, encontros entre fãs e artistas. Se antes esse contato era considerado o auge da experiência VIP, hoje ele se tornou raro.
Para Morel, essa mudança está ligada a questões práticas e financeiras. Segundo ele, o modelo de encontros com fãs envolve custos operacionais elevados e desafios de segurança. “Imagina um artista receber 200 pessoas antes ou depois do show. É cansativo, envolve logística e o custo nem sempre fecha.”
Mesmo assim, os valores elevados não afastam os superfãs e funcionam como uma estratégia para ampliar a arrecadação. A receita gerada por esses pacotes, em geral, é direcionada aos artistas.
Embora seja difícil apontar quando esse modelo se consolidou no Brasil, há indícios de crescimento recente. Dados do Google Trends mostram que o interesse por “pacote VIP” atingiu um pico quando Taylor Swift anunciou shows por aqui, em 2023.
Esse modelo tem se tornado padrão. Entre os grandes eventos listados na Ticketmaster para este ano, incluindo shows nacionais e internacionais, sete dos dez anúncios oferecem pacotes VIP.
A prática também já se espalhou entre artistas brasileiros. Djavan, Xuxa, Gilberto Gil e Liniker, que farão apresentações no Allianz Parque, oferecem pacotes desse tipo, com preços em torno de R$ 1.000. Normalmente, incluem acesso à passagem de som.
Nos festivais, essa lógica é ainda mais consolidada. O Rock in Rio, por exemplo, que durante anos manteve áreas VIP restritas a convidados, ampliou o Rock in Rio Club, criado em 2011 e aprimorado a cada edição. O clube hoje é dividido em quatro categorias, com benefícios como filas preferenciais, descontos em produtos oficiais e acesso a áreas exclusivas. O pacote mais caro, de R$ 16.999, inclui entrada em área VIP, experiências gastronômicas e até a possibilidade de aquisição de traslado aéreo.
O Lollapalooza segue caminho semelhante, com áreas premium acessadas por meio de pacotes associados a patrocinadores do evento, como Vivo e Bradesco. Em um dos formatos disponíveis, um único dia de festival pode custar R$ 2.650, no segundo lote, garantindo acesso a um espaço com open bar e open food.
Essa dinâmica também afeta o restante do setor. “Quando a pessoa gasta muito em um grande show, deixa de ir a eventos menores”, afirma Morel. Para ele, isso cria uma competição desigual e prejudica artistas de pequeno e médio porte.
A consequência é que experiência cultural vira artigo de luxo -e quem quer e pode continuará pagando por esses setores.