17/06/2026

Peter Frampton lança disco após adaptação à doença muscular degenerativa

Por Ivan Finotti/Folhapress em 17/06/2026 às 12:43

Reprodução
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Peter Frampton ouve diferenças dentro do próprio disco novo que você provavelmente não irá notar. Algumas guitarras de “Carry the Light” foram gravadas há cinco ou seis anos. Outras, no ano passado.

No centro dessa diferença está a miosite por corpos de inclusão (MCI), uma doença muscular degenerativa que começou a atacar Frampton pelas pernas em 2009 e já chegou às mãos.

“Eu consigo ouvir a diferença entre o que toquei cinco ou seis anos atrás e o que toquei no ano passado”, diz Frampton, 76, em entrevista à Folha de S.Paulo na segunda (15). “Algumas coisas estão tão boas quanto antes. Outras são um pouco diferentes.”

“Conforme minhas mãos ficam um pouco mais fracas, alguns dedos não chegam ao lugar certo na hora certa. Então preciso mudar a maneira de tocar. Mas está tudo bem. Eu gosto de um desafio.”

“Carry the Light”, já nas plataformas de streaming, é seu primeiro álbum de rock com material inédito em 16 anos. Traz dez faixas, com participações de gente como Sheryl Crow, Graham Nash e Tom Morello, e está repleto de grandes riffs e boas canções.

Apesar de ter anunciado uma turnê de despedida em 2019 e a tê-lo concluído em 2022 Frampton vinha compondo e registrando material desde a pandemia. Depois do isolamento, percebeu que tinha músicas suficientes para um álbum.

O disco foi concluído com o filho, Julian Frampton. “Um cara muito talentoso”, diz o pai-coruja. Julian ajudou a terminar algumas faixas, escreveu outras com o pai e acabou também como coprodutor, ao lado de Peter e Chuck Ainlay.

A nova fase também chega acompanhada de “Frampton”, documentário dirigido por Rob Arthur, tecladista e diretor musical que trabalha com ele há duas décadas. O filme estreou no Festival de Tribeca, em Nova York, há duas semanas, com uma aparição de Frampton após a sessão, e percorre a carreira do guitarrista, desde o sucesso de “Frampton Comes Alive!, de 1976, até a turnê de despedida, incluindo a miosite que ameaça sua capacidade de tocar.

“Continuo tocando bem. Não acho que as pessoas percebam muita diferença. É apenas a maneira como chego às notas que mudou”, diz o hitmaker.

A doença avançou devagar e ele diz ser grato por isso. Com o tempo, percebeu que tinha que diminuir a espessura das cordas. Antes, utilizava calibre 9. Agora usa 7 nos solos e 8 para acordes.

Na entrevista, cita Django Reinhardt, herói para dez entre dez guitarristas. Em 1928, o franco-belga sofreu queimaduras graves num incêndio e teve o anelar e o mínimo da mão esquerda comprometidos.

Ele passou a usar principalmente o indicador e o médio nos solos, deixando os dedos lesionados para algumas posições de acordes.

“Django Reinhardt só tinha dois dedos”, diz Frampton, resumindo a história. “E era o melhor guitarrista do mundo. Ele nunca desistiu. Esse é o meu lema. Eu nunca, nunca, nunca desisto. Nunca vou desistir.”

Ele diz que ainda consegue dizer o que quer com sua guitarra. De fato, a força das guitarras está no centro do disco novo, em faixas como “Buried Treasure”, “I Can’t Let It Be” e “Breaking the Mold”.

Graham Nash canta em “I’m Sorry Elle”, música ligada à neta de Frampton e à separação entre a menina e o vovô durante a pandemia.

Os músicos se encontraram em Nova York, numa exposição da mulher do cantor. Frampton apareceu com a namorada e contou que estava terminando um álbum. Nash pediu que lhe enviasse algumas músicas para escolher uma.

“Eu disse: ‘O quê?’ Fiquei muito animado. Liguei imediatamente para Julian e falei: ‘Graham quer cantar numa música’.” Ele enviou duas faixas e Nash escolheu “I’m Sorry Elle”.

“Buried Treasure”, primeiro single do álbum, é uma homenagem a Tom Petty e aos Heartbreakers. A música também faz referência ao programa de rádio “Tom Petty’s Buried Treasure”, no qual Petty apresentava gravações de sua coleção pessoal.

Frampton passou a ouvir o programa e a prestar atenção nas músicas que haviam formado o gosto do compositor americano. “Era muito inspirador ouvir o que fazia Tom Petty funcionar. Que música ele ouvia? Por que ele era daquele jeito?”

O músico disse ao filho que precisavam fazer uma homenagem a Petty e aos Heartbreakers. No dia seguinte, Julian apareceu com a letra. Os versos são montados com títulos de músicas de Tom Petty. Pai e filho terminaram a composição juntos.

Outra faixa, “Lions at the Gate”, parte de uma imagem que Frampton viu quando chegou aos Estados Unidos com o Humble Pie, no início dos anos 1970.

Depois dos arranha-céus de Nova York, ele foi para a Califórnia e passou por Beverly Hills. Muitas mansões tinham esculturas de leões nos pilares dos portões.

“Aquela visão sempre significou poder e dinheiro para mim.” A imagem permaneceu com ele por décadas e agora virou uma música sobre a concentração de poder.

Hoje, ele vê os “leões” em corporações e bilionários que compram emissoras de televisão e outros meios de comunicação para influenciar a política. “Eles têm tanto dinheiro que estão comprando toda a mídia para incliná-la para o lado deles. É o poder controlando a política do mundo.”

Frampton se apresentou no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, em 1980. Depois disso, voltou em 1982, 1995 e 2010. Mas sua fama por aqui ficou mesmo a cargo da canção “Breaking All the Rules”, lançada em 1980 e usada num comercial de TV muito famoso na época.

“Meu maior público para ‘Breaking All the Rules’ está no Brasil por causa da propaganda dos cigarros Hollywood.” Mais de 45 anos depois, é sua ligação mais imediata para parte do público brasileiro.

“E vocês? Continuam fumando Hollywood?”, quis saber o bem-humorado guitarrista. Não, Peter, a marca, lançada no Brasil nos anos 1930, sumiu em 2020. RIP Hollywood.

Carry the Light

  • Onde: Disponível nas plataformas digitais
  • Autoria: Peter Frampton
  • Produção: Peter Frampton, Chack Ainly, Julian Frampton
  • Gravadora: Universal Music
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