01/02/2026

Guilherme Arantes celebra 50 anos de carreira feroz em relação à indústria de shows

Por Thales de Menezes/Folhapress em 01/02/2026 às 14:31

Henrique Teixeira/Divulgação Prefeitura de Santos
Henrique Teixeira/Divulgação Prefeitura de Santos

Guilherme Arantes está lançando o álbum “Interdimensional”, com 15 faixas, muitas falando do amor com um romantismo maduro, e começando uma turnê comemorativa de 50 anos de carreira. Um dos maiores “hitmakers” da música brasileira, porém, admite não se encaixar no que o cenário oferece hoje.

Para ele, o lançamento de discos foi substituído por um mercado de shows, que ele critica e rotula como “show business”. A turnê deixou de ser apenas o artista mostrando suas músicas. Tudo se insere num mundo de tecnologia e logística, enquanto as canções ficam pulverizadas no digital. Os festivais, com cada vez mais atrações além dos shows, ele chama de “praças de alimentação”.

“Há uma aceleração no tempo monstruosa, uma desatenção generalizada. Eu já estou vivendo num terceiro tempo, num bônus, então resta me apegar ao que eu gosto. Tento viver na minha bolha. Tenho que escolher uma época para viver, para existir. Eu gosto dos anos 1950, gosto do samba-canção do Tito Madi, da Maysa, da articulação da bossa nova. Escolho ser assim, viver do jeito que eu imagino”, diz o músico de 72 anos.

Ele não se preocupa com o sucesso comercial. Tanto que “Interdimensional” tem canções que ultrapassam cinco ou até seis minutos, na contramão da música breve do TikTok. E, numa ação que pode ser considerada retrô, o disco sai em digital, mas também em álbum duplo de vinil.

“Que se dane o que possa surtir de resultado, porque o que eu vejo é o resultado pífio generalizado. Meus ídolos também estão lançando discos. Mick Jagger e Paul McCartney estão lançando discos, e esses discos não combinam com o que temos para hoje. É uma realidade brutal. Só me resta viver do jeito que eu sempre fui.”

O novo álbum traz algumas versões pessoais de canções que fez para Gal Costa –“Puro Sangue”–, Alaíde Costa –“Berceuse”–, Boca Livre –“Toda Felicidade”– e Claudette Soares –“O Prazer de Viver para Mim É Você”. E tem muito material recente que ele produziu em Ávila, na Espanha, durante o ano passado. Depois de muitos tempo morando na Bahia, o paulistano Guilherme Arantes tem também um refúgio espanhol que cada vez mais ganha espaço em sua vida.

Na virada para 2025, tomou um susto com um problema cardíaco. Resolveu então cancelar todos os shows e partiu para Ávila. “Eu me sinto privilegiado de poder viver desse jeito. Fui para Ávila sem prazo de voltar. Falei com meu médico, tive problema com o coração, operei bacia. Então parei com os shows.”

Arantes afirma que lá o mercado deu a ele paz e sossego. “Sem prazo para voltar, você se transforma totalmente. Eu tinha um dinheirinho guardado que dava para me manter. Pude estudar, fazer letras, fazer coisas bem feitas. Foi uma delícia, aos 70 anos, poder fazer isso.”

Em Ávila, ele diz que fica mergulhado em um universo no qual sua música faz sentido. “Porque eu não posso pensar mais em função de produto. Isso é com a inteligência artificial. A IA é basicamente replicação de produto, mas ela não replica o fazer. Ela replica o Van Gogh, mas não replica o drama do Van Gogh. E é o drama dele que faz o quadro valer US$ 100 milhões.”

“Eu não acredito na IA”, prossegue. “Claro que nós vamos adotar muita robotização. É maravilhoso você poder encontrar tudo online. Mas o fazer é o principal. O desafiador não é o produto, aí é que está o equívoco desta época.”

Focado em compor músicas, ele se sente rejuvenescido. “Sou um aprendiz diante de um Tom Jobim, de um Johnny Alf, de um João Donato. Eu me sinto jovem. É a mesma empolgação do menino.”

Arantes relembra a infância e a adolescência, morando com o pai que fazia música com Paulo Vanzolini. “Ele tinha os discos do Baden Powell, do Edu Lobo, do Tamba Trio. Assim eu fui criado. O que me resta é buscar refúgio nesse tempo, naquilo que gostei, naquilo que absorvi.”

A turnê “50 Anos-Luz” já tem 12 shows marcados entre março e maio. Começa no dia 7 de março, em São Paulo, no Espaço Unimed. O artista se debruçou sobre mais de 20 álbuns gravados para selecionar o repertório. E sabe que não pode fugir dos hits.

“O público é mais tosco. Ele elege como favoritas as coisas que a indústria empurrou com o marketing. O público recebe com mais frieza aquilo que não foi grande sucesso”, afirma.

Embora vá resgatar músicas menos conhecidas, ele admite se preocupar com essa inquietude. “O show business é ignorante, ele é bruto. O público quer ver ‘Deixa Chover’, ‘Meu Mundo e Nada Mais’, ‘Amanhã’, ‘Êxtase’, ‘Brincar de Viver’, ‘Coisas do Brasil’, ‘Cheia de Charme’, ‘Aprendendo Jogar’, essas todas.”

Arantes promete um show longo, de duas horas. Quer espaço para visitar o repertório de um período maduro, depois de seus 40 anos, no qual ele se sente “jubilado da indústria”.

“Os anos 1990 trazem outra ruptura, que marca a entrada do digital e a chegada do show business moderno, com grupos pesados de investimentos. O agronegócio por trás do sertanejo, por exemplo. Hoje esses artistas dependem dessa propulsão do agro. Isso não é mais música.”

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