08/05/2026

Filme 'Nino de Sexta a Segunda' se propõe a refazer 'Cléo das 5 às 7'

Por Inácio Araujo/Folhapress em 08/05/2026 às 12:39

“Nino de Sexta a Segunda” propõe-se a refazer o percurso de Agnès Varda em “Cléo das 5 às 7”, em que uma jovem cantora percorre as ruas de Paris por duas horas, enquanto se dirige ao hospital onde conhecerá o resultado de uns tantos exames.

O resultado será conhecido ao fim do passeio Cléo sofre de câncer, o que naquele momento, 1962, significava uma sentença de morte sem possibilidade de apelo. Nos últimos 60 e tantos anos as coisas mudaram, embora menos do que desejaria o jovem Nino, que recebe o diagnóstico da doença logo de cara, numa sexta-feira. Tem três dias, portanto, para se preparar para o começo do tratamento, conforme o título informa.

A própria médica que o atende avisa que o tratamento começará na segunda, mas também informa que não existe metástase e que sessões de quimioterapia tendem a resolver o problema.

De sexta a segunda, portanto, acompanharemos o périplo de Nino, que começa com um pequeno desastre: perde a chave de casa. Tem outra com o zelador do prédio, que anda sumido. Precisa, então, desapertar aqui e ali. Visita a mãe, depois passa a noite numa festa na casa de amigos, depois volta a procurar o zelador.

E assim vai. Ora a tensão do tratamento a se iniciar se manifesta, ora o câncer parece entrar num sistema de normalidade. Ora um encontro se mostra interessante, ora nem tanto. Os altos e baixos sucedem-se. Seja como for, o filme de Pauline Loquès não comove nem assusta o espectador -restringe-se ao registro do cotidiano e privilegia ambientes fechados ou noturnos.

Já o filme de Varda tinha vários elementos que o tornaram um clássico moderno: primeiro, por abordar um tema na época tabu; segundo, por igualar o tempo do filme ao tempo da vida: duas horas na vida de Cléo correspondem à duração do filme, ou quase isso; terceiro, porque Varda sempre foi uma grande documentarista, de maneira que visitar Paris a partir de suas imagens ainda hoje é um prazer.

Todas essas desvantagens tornam o filme de Loquès um tanto frágil na comparação com seu modelo. Mas, claro, isso não tem importância para quem nunca viu “Cléo” -e talvez sinta curiosidade para conhecê-lo após ver “Nino”. O importante é que Loquès aponta para o novo sentimento em relação ao câncer. A questão já não é, o filme nos lembra, se eu vou ter um câncer, mas quando isso vai acontecer.

Isso nos coloca no território de alguma rotina. Uma rotina particular, pois, por menos agressivo que seja, o mal atinge o sujeito no seu ponto mais doloroso -a finitude. Nino sabe que não vai morrer. Agora, pelo menos, não.

Mas essa sombra irrompe em sua vida quando, por exemplo, ele perde a chave da casa: ato falho que o impede de entrar em contato com suas coisas e, no limite, consigo mesmo. Isso o força a procurar em outros lugares, com outras pessoas, a esquecer de si mesmo. E, apesar dos percalços, a chegar à segunda-feira pronto para o tratamento.

Ou seja, o câncer não é mais intratável, mas é uma doença delicada, mesmo quando não fatal. Como se postar diante dela parece ser a pergunta de Loquès neste filme. Mas é preciso reconhecer que as respostas não levam seu filme tão longe assim: o conjunto é frouxo, apesar dos bons momentos.

Nino de segunda a sexta

  • Avaliação: Regular
  • Classificação: 14 anos
  • Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil, Salomé Dewaels
  • Produção: França, 2025
  • Direção: Pauline Loquès
  • Onde ver: Nos cinemas
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