App criado em Santos tira usuários das telas e promove encontros reais às cegas para público acima dos 45 anos
Por Laura Andrade em 31/05/2026 às 06:00
O desejo de formar conexões sociais autênticas e construir novas amizades ganhou um aliado tecnológico diferenciado na Baixada Santista. O aplicativo Realmeet nasceu com a proposta de resgatar a espontaneidade das interações humanas, mas com um detalhe que desafia a lógica dos aplicativos convencionais: os usuários não escolhem com quem vão interagir por meio de fotos ou um “cardápio” de perfis. As conexões são feitas às cegas, em mesas de restaurantes selecionados.
O projeto foi idealizado por João Vitor Fernandes, programador do aplicativo, após uma viagem a Curitiba (PR), onde ele conheceu uma plataforma com proposta semelhante. Ao retornar para Santos e notar a ausência de iniciativas voltadas ao nicho na região, João decidiu desenvolver a primeira versão por conta própria, lançada em junho de 2025.
Embora o site explicite que o foco do Realmeet são novas amizades, o criador reconhece a maleabilidade das interações.
“Naturalmente, sabemos que muitas pessoas também participam com a possibilidade de conhecer alguém especial, o que é uma consequência comum de uma boa conversa”, afirma João Vitor.
Público maduro domina a plataforma
A maior quebra de expectativa no desenvolvimento do negócio foi o perfil do público ativo. Inicialmente projetado sob a suposição de atrair majoritariamente jovens de 20 a 25 anos, por estarem mais habituados a novidades tecnológicas, o aplicativo registrou sua maior adesão na faixa etária dos 45 aos 60 anos.
Mudanças comportamentais aceleradas no período pós-pandemia ajudam a explicar essa transição demográfica e a migração de pessoas maduras para o ecossistema virtual. Segundo a psicóloga Isabella Bleck, o isolamento social apenas intensificou um movimento que já estava em curso.
“Já vivíamos uma transformação nas formas de nos relacionar, com maior mediação tecnológica e uma busca crescente por previsibilidade nas interações. A pandemia acelerou esse processo”, analisa a psicóloga.
Isabella aponta que cenários sociais de maior insegurança geram uma tendência coletiva de buscar interações que ofereçam mais controle, mesmo que isso reduza a espontaneidade do encontro face a face.
Perigo das projeções e a busca pela realidade
A mediação de telas, contudo, exige cautela psicológica. É comum que os usuários idealizem aspectos e criem cenários fantasiosos sobre quem encontrarão do outro lado da mesa.
“Na perspectiva junguiana, que é a minha abordagem terapêutica, o ambiente digital pode ser entendido como um campo fértil para projeções de conteúdos internos, expectativas, idealizações e até aspectos inconscientes que ainda não reconhecemos em nós mesmos”, pontua a psicóloga.
Para Isabella, o cuidado fundamental ao migrar do digital para o físico é manter a consciência de que o vínculo real está em construção. O encontro com o outro precisa ser também um encontro com a realidade, despido da imagem previamente fabricada pela mente. Ela destaca que a solidão ou a dificuldade de socialização não devem ser vistas como fatores puramente negativos, mas sim como o motor inicial para a busca por interações saudáveis, desde que o aplicativo funcione como uma ponte para o mundo físico, e não como um substituto definitivo da convivência.
Segurança e o contraponto ao “cardápio humano”
Para mitigar os riscos inerentes a encontros com desconhecidos, a plataforma adota protocolos rígidos de segurança. Todos os jantares ocorrem estritamente em locais públicos, restaurantes bem avaliados e com grande circulação de pessoas na cidade.
Os usuários passam por uma análise prévia de perfil, com checagem de fotos e redes sociais vinculadas, e recebem orientações para reportar imediatamente qualquer conduta inadequada, o que pode resultar no banimento permanente do infrator.
“Até o momento, não tivemos necessidade de acionar medidas mais rigorosas, o que reforça o comportamento respeitoso dos nossos usuários”, detalha João Vitor.
O programador reforça que o Realmeet atua como um contraponto à superficialidade dos aplicativos de relacionamento tradicionais.
“Formamos mesas compatíveis com base nas informações e preferências preenchidas no perfil. Não é um ‘cardápio’ de pessoas, mas também não é aleatório. É sobre se abrir para o inesperado dentro de um contexto pensado para gerar boas conexões.”
Expansão nacional
Atualmente com cerca de 3 mil usuários cadastrados e mais de 300 pessoas que já se conheceram oficialmente ao redor das mesas promovidas pelo serviço, o Realmeet prepara sua expansão para capitais como São Paulo (SP) e Florianópolis (SC). Mesmo com a projeção nacional, o desenvolvedor garante que o foco operacional inicial permanece 90% concentrado na Baixada Santista.